— Folha de Sala

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"time out"

Ana Vidigal é uma artista com dupla personalidade. É limpa quando quer e suja quando pode. Como Mae West dizia: “Quando sou boa, sou boa, quando sou má sou ainda melhor.” É desta duplicidade que nasce a sua primeira exposição antológica, em que mostra dois lados do seu trabalho: o mais conhecido, de pintura, e o outro, mais experimental, dos objectos, esculturas e instalações.

Antológica: uma palavra que põe os pêlos em pé nos braços de muita gente. O que sente uma artista com a sua primeira? “Nunca penso muito naquilo que vou sentir. Na altura sinto”, responde Ana Vidigal. Na exposição “Menina Limpa Menina Suja”, a primeira parte é constituída por peças feitas ao longo dos anos sem a intenção de chegar à casa dos coleccionadores. São aquilo a que chama “projectos paralelos”, que se transformaram em passos importantes da carreira de Ana. Dentro de um sistema de galerias que naturalmente se inclinam para um trabalho de pintura mais comercial, Ana Vidigal aceitou jogar as regras, ao transgredi-las com trabalhos que saem fora da expectativa. São objectos, instalações e outras interrogações que, de forma mais atrevida, vai construindo. Timidamente, a par da pintura mais impactante, estas peças experimentam linguagens em caixas de madeira, acrílico ou cartão que servem de moradia a explorações plásticas e irónico-filosóficas. Assim se reúnem, na nave principal do CAMJAP, as instalações “O Véu da Noiva”, (baseada no vestido de noiva da mãe de Ana Vidigal e realizada em conjunto com Ruth Rosengarten), “Penélope” (uma cama de cartas escritas pelos seus pais, separados durante a guerra colonial), “Void” (instalação que simula o quarto da artista quando jovem e que também fala sobre a guerra colonial) e “Querido Mudei a Casa” (uma roulotte concebida para a Trienal de Arquitectura).

A outra Ana (a limpinha?) está representada em trabalhos bidimensionais de pinturas e colagens, num percurso que começa com um quadro pintado em 1980. “Gosto muito de o ter na exposição e gosto muito da pessoa a quem ele pertence: o Justino Alves, que foi meu professor na Escola Superior de Belas Artes. O Justino Alves comprou este quadro logo na minha primeira exposição. Tenho imenso prazer que a curadora Isabel Carlos o tenha seleccionado.”

O papel que, no seio de uma família tradicional, estava reservado a Ana Vidigal seria viver como uma menina limpa, mas ao optar por uma carreira e não por uma família, passou a estar mais do lado da menina suja. E falando de meninas e de como se comportam, chega-se ao título da exposição. Este surge de uma série intitulada “Menina Limpa, Menina Suja”. Ana Vidigal conta que “essa série apareceu a partir do livro Emília no País da Gramática. Era um livro que pertencia à minha mãe quando ela tinha sete anos. É fascinante, porque tem umas ilustrações maravilhosas com a Emília e o Narizinho do Sítio do Picapau Amarelo. Resolvi chamar menina limpa à Emília e menina suja à Narizinho. O que me divertiu nisso foi colocar a mesma pessoa com duas personalidades. Todos nós temos um lado negro que às vezes é mais interessante do que aquele que é mais visível.” Também Ana Vidigal, no seu percurso, tem duas posições. O lado mais “clássico”, de pintura sobre tela, e depois o lado experimental.

“Mas a verdade é que, em termos de execução, o trabalho paralelo é muito mais limpinho do que o tradicional, que é um bocado sujo”, comenta.

Ana Vidigal assinala neste momento 30 anos de trabalho e 50 de vida. “Passa muito rápido”, diz. “Acho esta exposição uma paragem de reflexão e para mim é a altura certa. É aquela charneira dos 50 anos que nos abre possibilidades e limita-nos outras. Acho que seria muito leviano qualquer pessoa começar a fazer resumos de trabalho antes, mas cada caso é um caso.” Ana Vidigal avança de obra para obra, não sendo habituais saltos formais e estéticos, e por isso se nota a coerência e evolução que se confirma como um percurso sustentado ao longo das décadas. “O meu trabalho mais visível é a pintura. A pintura tem uma evolução lenta. Tem de haver um espaço grande de tempo para podermos olhar para as coisas.

O meu objectivo é nunca me repetir, não entrar em esquemas de facilidade.” Em peças mais conceptuais, elementos do passado são trabalhados e reconfigurados de forma poética. “Gosto muito de trabalhar as memórias”, justifica Ana. “Não só as minhas como as colectivas e as das outras pessoas. Uma das coisas que gosto de fazer é ir à feira da ladra comprar uma carta. Só a leio quando chego a casa e às vezes não dá para imaginar o que está lá dentro. Já me deram imensas pistas para trabalho, mas nunca revelei a origem.” Nas imagens pintadas, recortadas e coladas de Ana, o passado espreita de vez em quando sob a forma de ícones, formas e bonecos de tempos idos. São como souvenirs dos anos 50 e 60 a que Ana tinha acesso nas coisas guardadas em casas grandes da família. Casas em que as pessoas guardavam tudo, desde livros a revistas… “Como sempre gostei de recortar, desde miúda que me habituei a fazer esse tipo de coisas.”

Ana é fascinada pelas imagens que enalteciam as novas maravilhas da vida doméstica e que foram o princípio da explosão da publicidade. Os trabalhos de Ana Vidigal, plenos de cor e ironia, falam de comportamentos que se espera que tenhamos na sociedade. E isso é-nos incutido muito cedo, através dos desenhos animados ou até nos livros da escola. Essas referências ficam dentro de nós e transformam-nos em meninos sujos ou limpos, conforme as escolhas e as possibilidades de cada um. Há um universo infantil presente em muitas obras, como as meninas de livros antigos, mas também em fenómenos recentes como as Powerpuff Girls. “Nessas imagens infantis fascina-me o seu lado formal. Se para além disso, elas passarem uma mensagem de comportamento, melhor ainda.”

Apesar das suas conhecidas convicções sociais e políticas, Ana Vidigal faz questão de afastar essas discussões no campo da sua prática artística. Está convencida de que “a arte não pode ser panfletária. A arte não modifica nada. Não foi a arte que provocou a revolução francesa nem o 25 de Abril. São outras coisas, que depois podem ser usadas, pensadas e digeridas na arte. Se me perguntarem se quero ir a uma manifestação contra a privatização do Sistema Nacional de Saúde, eu vou. Agora, não me passa pela cabeça transmitir a minha posição através da arte.” O que não a impede de semear algumas obras com comentários irónicos. “ Isso é, ao fim e ao cabo, criticar-me a mim própria porque consegui libertar-me de algumas coisas e de outras não”, confessa.

Feito o ponto de situação, quem sabe por que caminhos, limpos, sujos ou por sujar seguirá Ana Vidigal? “Quando se chega aos 50 percebemos que a vida muda em segundos. Portanto, há que aproveitá-la bem. Não tenho grandes expectativas acerca do que vou fazer daqui a dois anos. Quando muito, penso naquilo que vou fazer amanhã. Interessa-me viver o presente e só tenho uma estrutura sólida para enfrentá-lo se tiver muito bem resolvido todo o meu passado. Sou uma felizarda, porque sempre fiz aquilo que me apeteceu. É claro que isso tem custos, mas tive a sorte de trabalhar com pessoas que me permitiram isso.”

“Menina Limpa Menina Suja” está patente no Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão (Rua Dr. Nicolau de Bettencourt) de quinta até 26 de Setembro. De terça a domingo das 10.00 às 18.00. A entrada custa 4€.

20 de Julho de 2010

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Despertar o pensamento através dos sentidos e registar esses momentos: é assim que Carlos Mélo trabalha e é isso que vem mostrar em Lisboa, na Galeria 3+1. A performance é um eixo central para este artista, eleito como um dos representantes da geração brasileira da viragem do milénio e galardoado em 2006 com o II Prémio CNI SESI Marcantonio Vilaça para as Artes Plásticas.

É da performance e dos seus registos que vive a exposição “Entre-Campos”. Para além disso, na prática artística de Carlos Mélo há sempre um outro conceito crucial: o “subjeto”. A palavra resulta do cruzamento entre sujeito e objecto. Ou seja, é uma coisa e uma personagem ao mesmo tempo. É presença inanimada e catalisador da acção. Este contexto explica a presença, nas fotografias agora apresentadas, de um estranho boné como “subjeto”.

Carlos Mélo explica: “este trabalho vem de uma forte influência do candomblé. No boné há uma franja que é igual à usada pelos orixás para cobrir o rosto. Aqui há a apropriação desse elemento com outro objectivo. Como é um trabalho muito ligado a questões da experiência sensível e do lugar, eu não queria associar a temas da religião. De qualquer forma, a referência traz algo de uma experiência mística.” O artista usou este “subjeto” em Sintra (já de si um local místico) e interagiu com o meio da forma que lhe pareceu mais intuitiva. Daí nasceram imagens fotográficas que testemunham o artista na paisagem como canal entre o subjecto e o espaço.

As fotografias e desenhos com que Carlos Mélo ocupa a galeria são testemunhas de um acto. Constituem uma performance sem audiência. Tudo parte de uma acção desenvolvida num local específico, neste caso. O desdobramento performático dá-se com o registo fotográfico dessa acção e com a sua aparição multiplicada através de objectos relacionados, que se tornam ícones e símbolos como flores, microfones e cabelos. “O cabelo começou como uma mancha negra e semi-disforme em desenhos de grafite. Com o tempo essa mancha ganhou filamentos e transformou-se em cabelo que depois foi transposto para outros suportes artísticos”, explica Carlos.

O microfone é o sinal de um acto, de uma interacção ou comunicação, como nas performances em que o artista e um actor contracenam com palavras e movimentos. As flores são o elemento vivo entre objectos inanimados. “Na verdade, eu acho que o meu trabalho tem uma vertente autofágica. Ele vai-se consumindo, as coisas vão aparecendo, passam com o tempo e depois voltam. Nesse sentido é uma grande aventura, pois eu mesmo me surpreendo”, confessa.

As obras que Carlos Mélo mostra são imagens em espelho de si próprio. Quem aparece fisicamente nestes retratos é o próprio artista, mas de forma a nunca vermos o seu rosto. São “auto-retratos em fuga de si mesmos”, como lhes chamou a psicoterapeuta e crítica cultural Suely Rolnik. De facto, e de forma mais explícita nos desenhos, o rosto do artista dissolve-se, ao representar não já o “eu” dele próprio, mas sim os seus vários “eus”. Como no caso da artista portuguesa Helena Almeida, já não é o seu corpo que figura nas imagens, mas sim um corpo comunitário, um corpo seu e ao mesmo tempo reflexo do corpo do espectador. Os objectos – ou subjectos – que aparecem nos vários trabalhos (microfones, câmaras, cadeiras, flores) cumprem a função de amplificadores da experiência sensível ou marcas da sua presença no espaço. Desdobrando-se em técnicas e meios diversos como a fotografia, o desenho, o vídeo, a performance e a instalação, “Entre-Campos” pretende fazer o ponto da situação acerca do lugar onde se encontra Carlos Mélo na arte, na vida e nos sentidos que utiliza para apreendê-la.

“Entre-Campos” está patente na Galeria 3+1 (Rua António Maria Cardoso, 31) até 10 de Julho. Aberta de terça a sábado das 14.00 às 20.00. A entrada é gratuita.

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“O reflexo perguntou ao reflexo quantos reflexos o reflexo tem e o reflexo respondeu ao reflexo que o reflexo tem tantos reflexos quantos reflexos o reflexo tem”. Este quebra-cabeças em forma de lengalenga é a frase que recebe quem entra na Galeria Módulo para ver a exposição “Espelho (meu)” de Catarina Saraiva. São letras negras que formam palavras. Palavras essas feitas em pasta de enchimento e tecido, que introduzem um pensamento sobre o corpo feminino e não só.

Catarina Saraiva expõe individualmente desde 2004 e fez o curso de pintura na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, mas nunca exerceu esta técnica, pois os seus interesses plásticos cruzaram-se logo com a sua anterior formação na área da moda. Das técnicas e meios que aprendeu, surgiu um território híbrido que se aparenta mais com a escultura. Situa-se, ainda que não intencionalmente, no âmbito das chamadas soft sculptures (por serem compostas frequentemente com tecidos e materiais de enchimento), numa senda que tem como decana fundamental a artista francesa Annette Messager, mas que em Portugal encontra seguidores em artistas como Joana Vasconcelos, João Pedro Vale, Pedro Valdez Cardoso, Eva Alves e a própria Catarina Saraiva.

Reflectindo agora sobre este conjunto de obras: o reflexo é uma preocupação própria da pintura, o corpo é uma preocupação própria da moda. Em todo o caso, a arte ocupa-se de ambas as questões e os objectos e instalações criados por Catarina Saraiva discursam desde sempre sobre as questões ligadas à imagem e ao corpo. Particularmente acerca daquilo que vemos sobre a nossa figura num espelho, objecto que nos devolve a nossa imagem e sem o qual não saberíamos o nosso aspecto. Mas a imagem que nos é dada, muitas vezes acaba por ser distorcida já não pelo espelho e sim pela nossa mente. “O reflexo pode ser outra coisa… outro corpo”, diz a artista. Talvez por isso os espelhos de Catarina sejam reflexos impossíveis. Eles recusam a sua função. Não servem como material reflector e com isso são objectos de ansiedade. Ao ocultar a face reflectora do espelho, a artista nega a imagem.

Numa outra obra em registo vídeo, Catarina Saraiva observa-se ao espelho e pinta as suas próprias feições sobre ele, como que a negar a realidade dos fragmentos do seu rosto. Ela pinta o seu reflexo, ficciona-o e anula o carácter temporário da imagem reflectida. A imagem é como que agarrada, mesmo após o desaparecimento da personagem em questão. Ao mesmo tempo, mais uma vez, é negada a função do espelho daí em diante.

Nestes espelhos que evocam a forma tradicional de um objecto de toilette, a beleza é questionada e a construção da identidade é anulada. A desconstrução é a palavra mote para Catarina Saraiva, pois ela apropria-se dos objectos que usamos até de forma íntima para lhes retirar a função e com isso questionar a sua existência. Nesta exposição, a abordagem do tema habitual da artista é mais subtil e emprega ferramentas novas dentro do seu percurso. É o caso da instalação sonora com potes de barro em que, lá dentro de cada um, ecoam vozes que dizem: “os teus olhos não são como duas pedras”. Frase que ganha sentido quando se olha em frente e se vê a representação de um espelho como num mosaico antigo, composto por pequenas pedras. Pedras macias, para que não se parta o espelho de quem não gosta do seu reflexo…

Miguel Matos

“Espelho (meu)” está patente na Módulo – Centro Difusor de Arte (Calçada dos Mestres, 34-A), até 5 de Junho. Aberta de terça a sábado (excepto feriados) das 15.00 às 20.00. A entrada é gratuita.

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Dentro do hospital psiquiátrico Júlio de Matos, há um pavilhão que é, desde há cinco anos, um lugar experimental de arte contemporânea. Chama-se Pavilhão 28 e exibe regularmente exposições nas quais participam conjuntamente artistas emergentes, consagrados e outros que são doentes psiquiátricos. Sandro Resende é o mentor do projecto e esta semana, num outro pavilhão, o 27, inaugura mais uma etapa. A exposição chama-se “Os Outros” e junta no mesmo espaço os seguintes nomes: Artur Moreira, Francisco Gromicho, Francisco Guerra, Marta Sales, Walter Barros e… Pedro Cabrita Reis. Todos eles têm em comum o facto de serem artistas, mas Cabrita Reis é o único que não é diagnosticado com uma doença mental e foi ele que serviu de modelo para os desenhos que agora se expõem, frente-a-frente com as suas esculturas.

Os doentes e alunos do ateliê de arte (terapia ocupacional) de Sandro Resende fazem um percurso coerente e continuado que já extrapolou as suas actividades, com exposições na Galeria de São Bento, Gulbenkian, Culturgest e Sala do Veado. O estigma de serem doentes é factor que não entra no conceito dos projectos do P28 pois, como diz Sandro Resende, “ao pensar que estou a quebrar esse estigma, estou, pelo contrário, a criá-lo”.

Quem são os artistas que participam nesta exposição? Fazem-no por uma questão de tratamento?

Sandro Resende: São pessoas que fazem a sua vida normal e vêm todos os dias pintar aqui. É como uma pequena escola em que não há notas, mas em que se aprende a fazer pintura, fotografia, vídeo e outras coisas. Não é terapêutico, porque se um artista vê que o seu trabalho não tem aceitação isso é frustrante como para qualquer um. Querem trabalhar e a sua arte faz parte de um processo pessoal.

Como se deu o encontro com Pedro Cabrita Reis e porquê a escolha desta abordagem tão primordial como o retrato?

Pedro Cabrita Reis: Ao aceitar o convite que o Sandro me dirigiu, optei por criar uma situação-base porque, no fundo, uma aula de desenho de modelo é um acontecimento que está ligado à simplicidade, ao ponto de partida. Uma forma de começarmos todos a partir do zero, encenando a noção de desenhar um modelo que estamos a ver. Não me interessava fazer um workshop em relação ao meu trabalho. A minha ambição interior era estabelecer uma metodologia identitária entre mim e eles.

O contacto entre todos deu-se apenas na sessão do exercício de desenho ou houve encontros prévios?

PCR: Tudo aconteceu durante a sessão em que inclusive havia elementos dos media presentes. Havia pessoas a desenhar enquanto eu falava com outras e isso fazia parte. Tudo se deu nessas horas: a proposta, o desenvolvimento do trabalho e o encontro com a opinião pública. Foi um bolo compacto com um carácter performativo.

A escultura criada no espaço pauta-se por um relacionamento com as obras dos doentes ou pelo seu confronto?

PCR: O meu trabalho, ao longo dos anos, tem registado uma presença constante de elementos de luz. Especificamente luzes fluorescentes que para mim não funcionam no sentido de iluminação, mas como matéria, é como um tijolo ou uma barra de ferro. Pareceu-me oportuno que o meu trabalho fosse trazido para aqui no sentido de criar uma participação no projecto como autor, assim como eles, que fazem isto todos os dias. Nunca seria possível criar algo condescendente em relação ao entendimento da experiência diária destas pessoas. Concebi uma peça composta por unidades de luz e que se espalham pelas salas e pontuam a minha relação com os desenhos deles.

Ou seja, isto é um enorme retrato do Pedro Cabrita Reis feito por outros e pelo próprio...

PCR: Podes mesmo chamar retrato de grupo com luzes. O que é engraçado é que estas peças de luz (radicalmente simples e frágeis) vão ser vistas como objecto e reflectidas nos vidros das molduras, porque estão em transparência sobre os desenhos. Não constituem um entrave na observação. Os desenhos passam a fazer parte da escultura e vice-versa, numa peça única.

E isto é um projecto paralelo ao seu percurso ou integra-se como um fio condutor?

PCR: Não sei dizer com clareza. Tendo a acreditar que isto é uma coisa que eu inscrevo no meu processo. Não considero um desvio nem um fait-divers. Tive sempre ocasiões em que trabalhei em conjunto com outras pessoas. Não houve nisto curiosidade mórbida nem de entretenimento cultural. Tem havido com esta exposição uma tempestade mediática que me incomoda. É óbvio que isto tem um interesse mediático forte, gera curiosidade e, inerentemente, gera a chegada rápida e em catadupa dos agentes de informação. O que revela duas coisas: uma é que este trabalho está a ser bem divulgado pela equipa, a outra é o lado perverso da curiosidade dos media em relação às coisas “esquisitas”. No fundo, o classicismo da proposta (desenhos emoldurados e esculturas facilmente identificáveis como minhas) varre logo do debate a maluquice, a alienação… Chegas aqui e vês uma exposição, nada mais. No fundo, o produto é altamente deceptivo em relação às expectativas.

O Pedro disse uma vez numa conversa com Jorge Molder para a Gulbenkian: “(…) olho sempre de um lugar que outros talvez considerem excessivamente individualista para a época, se comparado com a generalidade das boas consciências praticantes. Sinto-me relativamente de fora, num lugar de grande vastidão, e nas obras que aí faço vou perscrutando o mundo em pensamento e aprendo a esquecer coisas que em tempos julgava saber importantes”. Esta citação relaciona-se com o que estamos presentemente a ver?

PCR: Essa conversa ilustra com plenitude um debate que jamais se extinguirá em torno daquilo que é suposto ser as motivações sociais ou políticas da criação artística. Há pessoas que não querem saber disso para nada, e provavelmente são os mais saudáveis. Eu inscrevo-me numa família de pensamento que acha que a criação artística per se é já uma leitura política do mundo. Por isso não tem que sofrer as vicissitudes, as anedotas e os ridículos de uma arte que, praticada por outras famílias, pressupõe ser activa, beligerante e participativa, recorrendo a meios e formas de expressão de uma infantilidade e superficialidade assustadoras sob o diáfano pretexto de com isso estarem a participar na luta política. Eu acho que a única forma que tens de ser plenamente político é seres plenamente silencioso, criativo e atento a tudo o que está à tua volta. Mesmo uma pintura monocromática é provavelmente mais forte enquanto intenção política do que um tipo que, imbuído das melhores razões, faz uma fotografia do Rodney King a levar pancada da polícia. Não há maneira melhor de fazer isso do que simplesmente pôr um vídeo no youtube. A política faz-se através da arte, mas de modo diferente, caso contrário é propaganda. A arte serve para expandir a inteligência das pessoas. Só se faz isso colocando perguntas e não dando respostas ou verificando factos. Isso é chamar estúpidas às pessoas e considerar que o público não tem capacidade para conceber o mundo. É preciso acrescentar algo que não haja antes.

Isso tem a ver com o que disse há pouco sobre o lado sensacionalista dos média em relação a esta exposição?

PCR: É propor uma verificação do curso normal dos acontecimentos. Aqui exacerbou-se isso. E fez-se uma declaração política que foi afirmar que estas pessoas não são malucas, fazem arte e eu vim fazer uma exposição com eles. Ponto final.

SR: Aqui ninguém corta as orelhas (risos)…

O Pedro, durante a fase de desenho, foi como um performer…

PCR: tentei estar em permanente movimento, fixar algumas posições… Li algumas coisas e com isso saiam ideias que fizerma parte da construção daquele momento.

Construiu uma personagem? Criou um subtexto?

PCR: Nada disso. Peguei num livro de poemas e ia lendo. Em certos momentos foi uma coisa puramente física, em relação com objectos, noutros foi como medir o corpo encostado à parede. Fez-se um percurso de vários momentos tendo como ponto de partida a questão do modelo e obrigando-os a desmarcarem-se, mudando constantemente de posição. Isso é importante, é um treino de atenção. De facto, a coisa que é verdadeiramente importante, e que é a base de todo o trabalho intelectual, é o espanto. O espanto é um conceito filosófico grego que representa a capacidade de manter a curiosidade em pleno e permanente estado de ebulição. Essa é a condição base da qual todos os artistas devem partir: estar em permanente estado de espanto. Isso treina-se e é uma pré-disposição que não pode nunca arrefecer para se captar tudo o que está à nossa volta. Por isso resolvi estar em posição permanente de fuga.

Embora em Portugal não se fale nisso, são fortes na América, por exemplo, as correntes da arte bruta, da arte informal ou da ousider art, que pode ser entendida como a arte das pessoas que estão de fora do sistema artístico… Pode-se incluir “Os Outros” nestes campos?

SR: Não. A arte bruta é diferente, pois trata de expulsar os males da própria pessoa para uma tela e depois há uma interpretação do psicólogo. Na arte bruta, o artista enche um quadro com informação própria, com o seu passado, as suas doenças… aqui não acontece isso. É um trabalho de arte contemporânea. Imaginemos que o Pedro adoece e vem fazer tratamento aqui ao hospital. Continua a ser um artista. Não há aqui o folclore da arte bruta que é muito puxada para a loucura. Estes doentes trabalham para poderem ter uma obra coerente e terem a oportunidade de a apresentar a galeristas e curadores.

Os problemas de cada um são postos à parte neste trabalho. Isso é uma tomada de posição em relação à outsider art e à arte bruta?

PCR: A arte bruta tem a ver com o começo da psicanálise, com a libertação das pulsões interiores, fazer sem pensar… Uma coisa que os surrealistas de alguma maneira seguiram. Depois ramificou-se para outras escalas de pensamento. A sua origem já vem do século XVII. Há colecções no centro da Europa com obras feitas por pessoas ditas “diferentes” que suscitaram um apetite coleccionista. No século XIX, os românticos implementaram a apetência pelos artistas “malditos”. A par disso há uma constelação de coisas colaterais como a atracção pela estranheza, que continua naquilo que se chama os “gabinetes de curiosidades”, principalmente na Alemanha, que juntavam coisas como ossos de baleia, frutas gigantes, pinturas eróticas e obras de arte feitas por doentes mentais. Havia a ambição de exaltar o individualismo e estratificar a anormalidade do mundo. É preciso ver que o interesse de Jean Dubuffet [o incentivador da arte bruta] não nasce do zero.

E esta exposição…

PCR: Não tem nada a ver!..

“Os Outros” estão no pavilhão 27 (Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa, Av. do Brasil, 53) de quinta a 30 de Junho. Aberto de segunda a sexta das 10.00 às 17.00. Sábados das 14.00 às 20.00. A entrada é gratuita.

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Ao entrar no ateliê de Isabelle Faria, as peças prontas à espera de serem recolhidas para a exposição “Monopoly World – Sloth” (que abre portas esta quinta, na Galeria 111) espalham-se organizadamente no espaço. Destaca-se ao fundo um antigo frigorífico alterado, de onde saem risos e gargalhadas. Espreitando para dentro é possível ler: “A preguiça física está inerente a nós. A mental talvez seja genética.” Frases que levam à sua ideia de partida: a preguiça como braço direito dos poderes na sociedade, sejam eles económicos, políticos, sociais ou sexuais.

Isabelle Faria tem-se servido dos sete pecados mortais como pretexto para cada uma das suas séries. Agora prepara-se para apresentar mais um dos pecados em que incorre amiúde a espécie humana: “A preguiça é para mim o estado em que não aproveitamos o tempo para construir qualquer coisa, seja ela positiva ou negativa. Muitas vezes quando estamos ligados a poderes acabamos por pensar que as outras pessoas fazem as coisas por nós, mas isso nem sempre acontece. Temos de continuar a lutar, pois em todas as áreas há uma enorme competição”, explica. Fala-se de lóbis, portanto. Os grupos de pressão aos quais a arte muito intimamente se liga. Para enriquecer esta ideia, Isabelle foi buscar referências visuais ao cinema. A Duquesa, O Libertino ou Marie Antoinette são algumas das influências de Hollywood por si repescadas. Após misturados e cruzados estes elementos, o que capta a atenção é o conjunto de grandes desenhos com animais que fitam o observador com olhares inquisitórios e ameaçadores.

Desde sempre que os animais têm servido propósitos artísticos como metáforas para a humanidade. Júlio Pomar, por exemplo, é um pintor que explora frequentemente a fauna, desde a selvagem à doméstica, para retratar personagens. Seguindo esta tradição, Isabelle Faria inscreve mais um capítulo com criaturas agressivas, vestidas em trajes barrocos e que usam as armas de morte dos humanos. Cães, águias, mochos, abutres, chimpanzés, orangotangos… cada animal simboliza um comportamento. Os cães aqui desenhados obedecem ou exercem o poder? Eles podem ser submissos ou ferozes, conforme quem os comanda, tal como os humanos. Um bando de águias actua como guarda-costas, mas estas defendem beneméritos ou vilões? Há mochos que nos penetram a alma com o olhar – são símbolos de sabedoria que se podem virar contra nós. Há também abutres que esperam pelos restos de algo ou de alguém… Isabelle consegue representar assim diversos quadrantes da sociedade. Estas imagens, pela escala e pela quantidade de olhares que nos dirigem, provocam impacto, tornando-se impossível delas fugir impunemente.

A técnica de Isabelle faz-se de traços rápidos e espontâneos que jogam com subtilezas de linhas e causam uma expressividade forte em volume, tridimensionalidade e perspectiva. Nisto, a ambiguidade joga um papel importante: “estamos a ver uma coisa que não tem nada a ver connosco, ou somos nós que estamos ali?”, pergunta a artista. Uma exposição rica em paradoxos e duplas interpretações. Não há territórios seguros nem locais neutros nesta fábula irónica. Por entre estes “retratos de família”, há caveiras sorridentes, na lógica da tradição da pintura de “vanitas”, género que evoca a passagem do tempo e a precaridade dos prazeres materiais. A caveira serve para nos lembrar de que a morte é o fim de todas as coisas, reforçando o carácter irrisório das vaidades e orgulhos mundanos.

Podemos voltar a olhar para as esculturas com as suas luzes chamativas, mas é o desenho que ganha os pontos nesta exposição. Arrisca-se a levar uma ferroada quem se aproximar demasiado…

“Monopoly World – Sloth” está na Galeria 111 (Campo Grande, 113 e R. Dr. João Soares, 5B), de 22 de Abril a 12 de Junho. Aberta de terça a sábado das 10.00 às 19.00. Entrada gratuita.

Time Out, 20 de Abril de 2010

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Para quem tem espírito de voyeur e morre de curiosidade sobre como um artista visual cria o seu universo, eis a oportunidade de espreitar, neste caso, para dentro da mente de Noé Sendas. Agora prepare-se, pois quando se espreita o alheio, nem sempre se vê o que se está à espera de ver… “Processo: Quem é Noé Sendas” é a auto-investigação que o autor apresenta no próximo sábado, no Atelier Real.A documentação do processo de trabalho na criação contemporânea é a ideia central do ciclo de residências artísticas “Restos, rastos e traços” no ateliê dirigido por João Fiadeiro. Esta semana o ciclo é protagonizado por Noé, artista visual que veio de Berlim, onde vive, para passar cá uma temporada, inserido num núcleo de criadores oriundos da dança. Parte deste projecto consiste num texto publicado no jornal do Atelier Real, assim como numa apresentação única nas instalações da companhia. Não será, portanto, uma exposição pura e dura. Será, sim, uma acção demonstrativa, seguida de uma conversa com o artista a que o público poderá assistir ou mesmo intervir. Pelo meio, vídeos, esculturas e uma banda sonora sempre à volta da identidade do autor e da sua relação com o espaço de trabalho.

Quem entrar neste simulacro de ateliê pode contar com um elemento surpresa. “Não quero desvendar já. É como um filme em que há um enredo e, dentro dele, um acontecimento. Se eu revelar à partida, perde o interesse.” Os visitantes podem contar com factores de perturbação dignos de um filme de David Lynch. Na verdade, a estranheza e o absurdo fazem parte do seu trabalho desde sempre. Noé Sendas é conhecido pelas suas esculturas e instalações com manequins realistas em poses insólitas, insinuando contextos urbanos. Desta vez serão expostos trabalhos que derivam daqueles que Noé apresentou recentemente no Porto e que consistiam numa série de fotografias manipuladas. O seu desenvolvimento inicia o processo que vem a público no sábado. São imagens de corpos “picadas”, uma apropriação de fotografias de domínio público, modificadas, amputadas, quase que transformando a imagem em escultura plana. O ambiente destas fotografias roubadas e mastigadas é surrealista, intrigante, conseguindo ao mesmo tempo uma subtileza que lhes confere mistério. “Ao contrário daquilo que faço na escultura, em que humanizo determinados objectos, nestas fotografias objectualizo as representações de seres humanos”, diz Noé. Numa mesa de madeira, as imagens estão dispostas sob volumes de vidros que contribuem para uma maior distorção daquilo que Noé nos deixa ver. E o que ele nos deixa ver pela primeira vez é também a construção de uma das suas esculturas. “Vou dar a ver umas coisas, mas sabendo que tenho outros trunfos neste jogo.” É um processo documentado, mas distorcido, como num truque de magia. Assim, Noé Sendas assume em público a mesma atitude que reside na generalidade da sua obra: tentando mostrar uma coisa, mostra afinal outra. O artista lança ao ar uma pergunta – Será a resposta esclarecedora?“

Processo: quem é Noé Sendas?” acontece no sábado às 18.00 no Atelier Real (R. Poço dos Negros, 55). Conversa com o artista pelas 19.30. Entrada gratuita.

Time Out, 16 de Março de 2010

Resgatado do arquivo, um texto mais antigo sobre o mesmo autor…


O predador de imagens
por Miguel Matos

Quem entrar na Galeria Cristina Guerra deverá ir preparado para um confronto de imagens insólitas e inquietantes. “The Hunter” é a proposta de Noé Sendas, nome recente mas já incontornável da arte contemporânea portuguesa. E não, as imagens que o leitor vê nesta página não sofrem de um defeito de impressão…

Em cada novo projecto, Noé Sendas apresenta uma personagem por si criada como mote para desenvolver um conceito. E se antes os temas foram “The Lodger”, “The Private Eye” e “The Collector”, agora entra em cena “The Hunter”. Desta vez, o artista recorreu a imagens de domínio público, evitando assim recorrer a actores ou câmaras. Pelo simples processo da edição de imagens Noé reuniu em si todos os elementos de uma equipa de filmagem, apropriando-se de materiais alheios como um caçador de frames. Um caçador que sonha viver as vidas de outras pessoas.

“São imagens tiradas de mais de 150 filmes”, explica Noé Sendas. “Piquei imagens com 5 a 10 segundos de filmes que já são de domínio público. O que me interessa mais no conceito são as imagens em si e não o contexto em que elas estavam inseridas. São pedaços de filmes série B da Hollywood dos anos 20, 40 e 50. No fundo, eu não quis criar propriamente uma narrativa, mas mais uma melodia de imagens. Escolhi filmes de domínio público para não interferir com direitos de autor e porque quando as imagens caem nesse estatuto é como se fizessem parte da natureza, podendo ser usadas livremente”.

“The Hunter” é um percurso constituído por três peças: dois vídeos (“Public Domain” e “Dead Weight”) e um conjunto/instalação de fotografias (“The Urban Legends”). As fotografias estão suspensas no espaço formando um pentágono em que o visitante penetra cautelosamente. A base de todo este universo é a criação de uma personagem e a partir daí começa a investigação. É sempre assim que começam as últimas produções de Sendas.

Desta vez a personagem que desencadeia a exposição é uma pessoa que está a caçar imagens pertencentes à história de arte. O que resulta deste processo é uma série de melodias visuais que transmitem uma sensação de voyeurismo relacionado com a história e não com situações reais. É a postura de uma personagem que se assume como voyeur e que tenta apropriar-se das imagens que são de outros para torná-las suas. Depois de passarem pelo seu crivo, são já uma outra coisa.

Noé Sendas faz parte de um conjunto de artistas portugueses que escolheram Berlim como cidade base, tal como Nuno Cera e Rui Calçada Bastos. Será que esta tendência recente é uma prova de que Lisboa é uma cidade limitativa para os artistas portugueses? “Fui para Berlim em 1999”, conta Noé. “Nessa altura eram poucos os artistas portugueses lá residentes.

Neste momento é lá que vivo e o panorama está diferente. 99% dos artistas portugueses que lá estão vivem ainda do mercado nacional. No entanto, ao nível da oferta cultural, Berlim é muito maior do que Lisboa e há muito mais acesso a comissários que por lá passam por ser uma cidade central.

Há lá muitos portugueses como há espanhóis, finlandeses e holandeses. Isto deve-se a toda uma qualidade de vida que é superior a muitas cidades europeias neste momento. Em Berlim existe uma troca de ideias e de vivências que é muito mais intensa do que em Lisboa. Cá ainda não foi criada uma ideia da arte como um produto que se pode exportar. No entanto, o mercado artístico português é ainda a base de sustentação para muitos.” A temporada de caça artística abre esta quinta-feira.

Time Out, 8 de Janeiro de 2008

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Miguel Matos encontrou os objectos que Alexandra Mesquita procura na Galeria Arte Periférica.

Elementos essenciais à sobrevivência. É esta a ideia que Alexandra Mesquita explora ao recolher estes “Artigos Procurados”, a exposição que mostra os seus mais recentes sonhos e pensamentos. Tudo começa com “Sinal de proibição para proteger utopias”, peça que abre os portões para este mundo redondo de aventuras. Alexandra Mesquita revela os seus segredos: “é um sinal de proibição especial. No vermelho que está à volta da peça está uma série de situações que habitualmente proibimos, mas estão em amálgama, sobrepostas, e por isso não se consegue ler cada uma delas. Erguida no meio, tridimensionalmente, está uma frase: ‘proibir a proibição’. Isto é um reforço que se constitui ele próprio como uma utopia. No centro, a branco, está uma série de utopias que são minhas, mas que não se percebem, pois estão sobrepostas”.

Estas peças lutam para serem objectos sem nunca o conseguirem ser. “Penso que, de acordo com a maneira como o nosso corpo é constituído, há uma parte que é racional e que é bidimensional, constituída pelo bem e o mal, o sim e o não. Depois, há uma terceira dimensão composta pela nossa emoção. Por isso, é normal que estas escritas bidimensionais queiram ser som e emoção, queiram ser lidas, mas estão na vertical, tal como o nosso corpo”, explica Alexandra.

O observador destes objectos baixa-se, vira-se para um lado e para o outro ao perceber que estes elementos são afinal letras, signos e símbolos reconhecíveis. No entanto, ao não conseguir dominar todos os ângulos daquilo que está à sua frente, torna-se praticamente impossível aceder às palavras que estas letras secretamente formam. Frustração é o sentimento causado por esta impossibilidade de trazer a realidade ao domínio do observador. A luta é intencional e provocada pela amálgama conflituosa criada pela artista.

Estas “rodas da sorte”, sistemas circulares de signos e símbolos, bonecos e sinais de perigo organizados em espirais e caleidoscópios, são desorientadoras das nossas crenças e teimosias. Representam fugas à realidade e confrontam-nos com manias, obsessões e desejos que temos como habitantes de um país rectângulo que gostava de ser circular. Um país que se contorce para ser uma ilha ou uma jangada à deriva, à conquista de territórios. É aquele “estou bem onde não estou porque só quero ir onde não vou” característico da nossa identidade. Relógios que param o tempo, sopas e caldos entornados, incêndios e questões ambientais.

Tudo isto espelha inquietações. “Sem ser sempre salva” simboliza, nas palavras da artista, “a necessidade de termos uma bóia de salvação. No entanto, se nos perdermos no meio líquido, a melhor solução não seria ficarmos a boiar, mas sim nadar contra o meio que nos está a afogar. Isto é uma ironia. O título é uma frase escrita na própria peça mas que pode ser lida de diferentes formas. O cinzento à volta da bóia pode ser o mar revolto como pode ser a chapa de um navio de onde queremos tirar essa mesma bóia.”

Mas há reflexões mais íntimas nestes trabalhos, como as coisas que dizemos em códigos nas obras compostas por letras, palavras, exclamações e onomatopeias. Alguns destes círculos ligam-se às raízes da artista nos campos da poesia visual. São sopas de letras, palavras cruzadas e outros labirintos como os caminhos tortuosos das ansiedades em círculos infinitos.

“Artigos Procurados” está patente na Galeria Arte Periférica (Centro Cultural de Belém, loja 3) até 31 de Março. Aberta todos os dias das 10.00 às 20.00. Entrada gratuita.

Time Out Lisboa, 9 de Março de 2010

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Miguel Matos viu Cristina Ataíde “Suspender o Ar” em montanhas, na Casa da Cerca, em Almada.

Num mundo cada vez menos ritualizado, falta-nos algo que marque a passagem dos estádios da vida. É esta dimensão simbólica, íntima e ao mesmo tempo social que atravessa a exposição de Cristina Ataíde na Casa da Cerca. Tudo começa e se desenvolve ao longo de viagens em montanhas, listas de pensamentos e desejos.

“As listas que faço sistematicamente são o mote desta exposição. As montanhas têm a ver com a natureza, com percorrer o mundo… Subir a montanha, com a sua componente interior, simboliza os nossos estados na vida.” Como o barco que ocupa a galeria do pátio e, suspenso no ar, atravessa o espaço, num movimento de passagem, de transição. Na capela, um amontoado de paus envolvidos em faixas vermelhas escritas com desejos dos seus amigos, apoia-se na parede. Fitas brancas esperam o visitante, para que possa pedir um desejo, juntando-se aos desejos de outros.

“Pele” é um conjunto de desenhos onde Cristina Ataíde capturou a textura da superfície de árvores, pedras, falésias ou até lava da Ilha do Pico, por exemplo. Sobre a folha, a pele dos locais por si visitados. Cada um destes desenhos tem marcado o nome do local, a hora e a data em que foram realizados, o que lhes dá um carácter pessoal. São diários de viagem: “apodero-me dos lugares, trago-os comigo, principalmente quando são especiais”, diz.

Na obra recente de Cristina Ataíde, há a omnipresença do pó e do pigmento vermelho. O pó pode ser visto como símbolo da morte e o vermelho, o símbolo da vida, da energia feminina e do sangue que oxigena o corpo. Esta junção representará o ciclo da vida, do qual a morte inevitavelmente faz parte? “Para mim há um percurso circular vida-morte-vida, um ciclo de renovação.” Como numa lista interminável em que diz “O pó do meu corpo – O meu corpo em pó”, há nesta exposição uma união de opostos: yin/yang, positivo/negativo em círculos infinitos. A espiritualidade aqui presente tem a ver com as suas viagens à Índia. “Foi aí que comecei a ligar-me ao pigmento vermelho e ao pó. Por exemplo, o sacerdote põe o pigmento kanku na testa para que os visitantes de um templo saibam que ele está santificado. Além disso, quando há visitas de personalidades, os indianos colocam no chão linhas de pigmento, como nós fazemos com tapetes de flores. É uma coisa tão presente que se torna impossível não captar.”

Um enorme desenho pendurado sobre o visitante representa as montanhas e simboliza a realização humana, mas traz um sentido de contemplação. Um sentimento de universalidade ecoa nas paredes com línguas e grafias de todo o mundo. No longo papel onde crescem estes cumes a preto e vermelho, uma lista de quase todas as montanhas que existem e, assinaladas, as que a artista percorreu. “Isto representa a minha pequenez e a enormidade do mundo. Para mim, as listas são uma maneira de reter as coisas. Quando se escreve, a coisa ganha uma dimensão mais concreta. Depois podemos esquecer. Isto é uma tentativa de esvaziar. O vazio é muito importante para mim, porque só se consegue encher depois de se esvaziar.”

De novo o ritual da viagem como metáfora, tal como acontece numa instalação vídeo com imagens de aeroportos. “Gosto muito de aeroportos, de não-lugares, porque são sempre diferentes e encontramos milhares de pessoas anónimas. Os aeroportos têm resquícios dos sítios onde estão, línguas e músicas diferentes”. A viagem termina no cume de uma montanha de papel, branca e vermelha. Frágíl como a vida…

“Suspender o Ar” está patente na Casa da Cerca (Rua da Cerca, Almada) até 16 de Maio. Aberta de terça a sexta das 10.00 às 18.00. Sábados e domingos das 13.00 às18.00. A entrada é gratuita.

Time Out, 15 de Fevereiro de 2010

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Miguel Matos relembra o mestre gravador Bartolomeu Cid dos Santos, em exposição antológica no Centro de Arte Manuel de Brito.

É inaugurada esta semana a exposição dedicada a Bartolomeu Cid dos Santos, a quem o jornal britânico The Guardian se referiu como “o artista que encontrou a liberdade em Londres e a fama em Portugal”. Eis a homenagem ao grande vulto da gravura portuguesa, artista de fama internacional, professor e amigo do coleccionador Manuel de Brito.

Apesar de desaparecido há dois anos, a obra de Bartolomeu Cid dos Santos apresenta-se viva por ter inspirado outros grandes nomes da gravura como David de Almeida e Paula Rego, sua aluna. “Em Londres, tinha uma relação privilegiada com os alunos, que rapidamente ficavam amigos para a vida. Era o professor que, como dizia, ensinava tudo quanto sabia. Essa relação de cerca de 40 anos com jovens de todo o mundo levou-o a fazer cursos do Canadá e dos EUA à China, ao Paquistão, ao Iraque”, conta Maria Arlete Alves da Silva, comissária da exposição.

Apesar de leccionar durante grande parte da sua vida em Londres, de 1961 a 1996, na Slade School of Art, Bartolomeu nunca cortou as raízes com Portugal. Expunha regularmente por cá e regressou finalmente, após longo período de ausências intermitentes. Durante toda a vida, uma atitude de bon vivant, uma extensa bagagem cultural e a preocupação constante com o estado do mundo fizeram dele uma personalidade marcante. Fascinado pelo negrume de Goya, e na senda das técnicas de gravura, Bartolomeu Cid dos Santos dedicou-se de início a interpretar as suas duas cidades: Londres e Lisboa – a dialéctica entre o escuro caos do smog gelado e a luminosidade quente de uma terra mediterrânica.

É uma dualidade de humores. Se por um lado discursa sobre a podridão de um clero obscuro, logo depois entra numa mitologia onírica em que fala de terras perdidas da Atlântida. Outros temas explorados foram o regime opressor de Salazar e, recuando nos séculos, a ousadia de dividir o mundo ao meio com o Tratado de Tordesilhas. No reverso, as gravuras dedicadas ao mar, à mulher, às praias e aos poetas.

Se de Andrei Tarkovsky a Jorge Luís Borges e Fernando Pessoa, toda uma abundância de influências eruditas é invocada em diversas séries, outras há em que são sereias os motivos de eleição. Mais tarde, denuncia o ataque americano ao Iraque, transformando os soldados em ratos destruidores e gananciosos. A sincronia com a vida leva-o a reinventar as suas linguagens plásticas, apropriando-se dos signos e estilos das manifestações da arte das ruas e paredes. Como disse aquando de uma exposição na Galeria 111, em 2001, “se devemos estar atentos e denunciar a agressão que hoje a todos os níveis nos rodeia, isso não nos impede de mergulhar no nosso mundo interior, onde poderemos encontrar uma outra, mais misteriosa, mas não menos perturbadora realidade”.

A par com esta antologia de obras da colecção Manuel de Brito, uma outra mostra se desenvolve no mesmo palácio. “Going South” é um conjunto de peças seleccionadas a partir de cinco artistas pelas suas afinidades temáticas com Bartolomeu Cid dos Santos. A homenagem reúne Samuel Rama, Valter Vinagre, Ana João Romana, Miguel Martinho e John Aiken. “Going South” é a evocação de uma série que Bartolomeu realizou numa época feliz da sua vida, quando regressou a Portugal e se instalou em Tavira, onde criou um ateliê de gravura. Nestas imagens produzidas em terras algarvias, não é raro aparecerem visitas de polvos e sereias. Para o artista, estas presenças sedutoras tinham facetas dúbias: “A sereia que apareceu em algumas destas gravuras simboliza o canto das tentações que nos levará ao naufrágio, se não formos tão cautos como Ulisses o foi na sua famosa viagem.”

“Bartolomeu Cid dos Santos” e “Going South” está patente no CAMB (Palácio Anjos, Alameda Hermano Patrone, Algés) até 16 de Março.

Time Out, 26 de Janeiro de 2010

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Miguel Matos ficou baralhado entre a realidade e a ficção com as novas obras de Pilar Albarracín.

São paradoxos surpreendentes, as chamadas “inverdades”. Imagens que contam histórias falsas e questionam aquilo que é verosímil. Assim tem trabalhado ultimamente a artista espanhola Pilar Albarracín. “300 Mentiras – Primeira Parte” é a exposição que traz cenas fortes, espetadas nos nossos olhos a partir das paredes da Galeria Filomena Soares. Sim, espetadas, porque a obra de Pilar desde sempre que não prima pela suavidade, mas antes pela contundência – quem sabe por herança histórica do seu país…

A maior parte dos artistas baseia o seu trabalho numa busca incessante da verdade. Pilar Albarracín procura a mentira! A fotografia é, por excelência, um meio de documentar a realidade, mas para Pilar é um instrumento de construção de ficções, de narrativas. Um meio que interroga a sociedade e as suas regras, o seu funcionamento e valores morais através da subversão de símbolos. A condição feminina, os estereótipos da cultura contemporânea cruzados com os da tradicional e a luta contra a submissão são alguns dos temas que desenvolve e sobre os quais discursa em formato de fotografias, vídeos, performances, objectos ou instalações. Neste caso, as “300 Mentiras” são todas fotográficas e abraçam a história social e a parafernália das imagens pop.

Pilar Albarracín está neste momento em destaque em Lisboa: é ela a artista que abre e encerra a exposição “She is a Femme Fatale”, no Museu Berardo, patente até ao final de Janeiro. Aqui aparece em auto-retrato vestida de toureiro, num questionamento da feminilidade e do poder. Finaliza com uma instalação de dezenas de panelas de pressão que assobiam, mais uma vez aludindo ao papel doméstico muitas vezes destinado à mulher pelos valores mais conservadores. Agora, nesta que é a sua série mais recente, Pilar mente. Quais são as mentiras que tem para contar? São mentiras que reconhecemos em outros contextos como verdades, como acontecimentos que marcaram a actualidade em algum ponto da história ou, por outro lado, imagens que se apropriam de referências cuja origem o observador já não identifica. São testemunhos de momentos da História que poderiam ter acontecido. Mas será que aconteceram, afinal?

Um monte de gente encapuzada, uma multidão à espera de passar a estrada como macacos, uma mulher vítima de repressão policial, uma figura feminina rebelde… Cenas facilmente reconhecíveis pelo que chega na TV. No fundo, “300 Mentiras” aborda também as realidades construídas pelos meios de comunicação social e mistura a mentira com a versão “oficial” dos acontecimentos. Como explica Elena Sacchetti, investigadora do Centro de Estudos Andaluzes, “cada ‘mentira’ (…) é atravessada por conteúdos mais abrangentes nos quais a artista se apoia: a identidade procurada, negada ou afirmada; as culturas baseadas no género; a tensão entre a vida e a morte; a luta pelo poder como fenómeno ancestral e actual; as assimetrias sociais, de género, étnicas e de estatuto social; a submissão ao poder estabelecido”. Uma exposição entre a realidade e a invenção, a imagem e a imaginação.

“300 Mentiras” está patente na Galeria Filomena Soares (R. da Manutenção, 80) de 21 de Janeiro a 6 de Março. Aberta de terça a sábado das 10.00 às 20.00 horas. A entrada é gratuita.

Time Out, 19 de Janeiro de 2010

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