— Folha de Sala

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"surrealismo"

João Murillo é um pintor que mexe na tinta com o pincel, as mãos e o coração todo. É de sentimentos que se fazem as suas telas. Agora prepara-se para mostrar algumas delas, feitas em conjunto com um amigo que estará presente na inauguração em todo o seu espírito: Mário Cesariny.

Esta exposição marca o final de um processo pessoal e artístico. Podes explicar porquê?

Estou a fazer 25 anos de pintura e há algumas inevitabilidades para quem sente a inquietação que o leva a ser artista visual. Essa inquietação é, por um lado, factor de isolamento, mas por outro lado, de agregamento em relação a outras pessoas que sentem a mesma motivação. No entanto, nunca houve um movimento de artistas em Portugal a não ser o surrealista. Ou seja, existe muito pouca partilha e interacção entre artistas. Eu tive o privilégio de me cruzar com pessoas que levavam essa interacção aos extremos. Foi o caso do Artur Bual, com quem trabalhei durante 15 anos, e do Mário Cesariny, com quem também trabalhei 15 anos, e para além disso vivíamos na mesma rua.

Cesariny era a figura máxima do surrealismo em Portugal, acompanhado de perto por Cruzeiro Seixas…

Muitas vezes o Artur Cruzeiro Seixas declarava não ter o génio do Cesariny. Em termos de artes visuais, provavelmente o Cruzeiro Seixas era mais genial do que o Mário Cesariny. O Cesariny era genial ele próprio. Há uma característica da sua obra pouco falada: não há distinção entre o artista e aquilo que ele escreveu ou pintou. Há uma fusão total. Outro aspecto importante é o facto de ele escrever sempre a sua poesia nos cafés ou na rua. Deixou de escrever quando deixaram de existir cafés.

É importante para ti a ideia de agregação e partilha entre artistas, mesmo que estes tenham trabalhos diferentes?

É fundamental. Aliás, acho que hoje a grande inibição no convívio entre artistas é o dinheiro. Todos vivem obcecados com a possibilidade de forrarem mais a carteira e de terem uma conta bancária mais confortável. Eu acho que essas questões têm de estar completamente separadas do processo criativo. Não tenho nada contra os artistas que têm uma estrutura de marketing para ganhar mais dinheiro, mas isso não faz com que a sua obra seja melhor ou mais coerente. Para a velha guarda de artistas, o dinheiro era apenas uma consequência do processo e nunca interferia nos preceitos conceptuais.

Nesta exposição fala-se de uma época no final da década de 1990. Como é que começaste a trabalhar com Mário Cesariny?

Quando eu conheci o Mário, ele já não pintava. Mas como ele estava sempre no meu ateliê, começou a sentir de novo a envolvência e recomeçou a pintar. Eu fui sempre visto como um par pelo Mário, não era visto como um miúdo. Partilhávamos conhecimentos e essa experiência foi muito enriquecedora para ambos.

São autores diferentes, sendo que o teu trabalho é claramente expressionista. No entanto, a verdade é que o expressionismo tem ligações ao surrealismo, pelo lado automático e por vezes lírico…

Sim, especialmente para um surrealista que tem necessidade de construir e desconstruir até chegar a algo que procura transmitir. Mas o meu expressionismo foi sempre gestual. Em termos de linguagem pictórica está mais próximo do trabalho do Bual e distante da linguagem do Cesariny, embora houvesse pontos de cruzamento. O que é curioso é que no meio deste relacionamento começámos a perceber que quando o Mário pegava no meu processo e trabalhava nele, sentia-se em casa porque tinha um primário sobre o qual ele podia criar.

Ao longo desses anos de proximidade, surgiu um projecto em comum entre a poesia e a pintura. É o resultado desta colaboração que se mostra agora?

Tudo começou quando eu fiz um retrato do Mário. Esse retrato estava alicerçado num poema dele que dizia: “É preciso dizer o dia em vez de dizer os anos”, no sentido de celebrarmos cada vez mais os momentos. O Mário, depois de eu ter pintado esse retrato, lançou-me o desafio de pintar os poemas dele. No meu ateliê, no verso de uma obra que tinhamos pintado os dois, estruturou um quadro que me ofereceu e dedicou, baseado no seu poema “Atelier”. Depois disso fez-me prometer que pintava os seus poemas, que seleccionámos juntos. Algumas peças fizemos em colaboração e estão assinadas pelos dois. Outras começámos os dois e eu terminei depois para cumprir a promessa que tinha feito, mas a minha intervenção afastou-as tanto do seu início que tive necessidade de esconder a assinatura dele. Seria uma incorrecção da minha parte manter a assinatura do Mário.

Mas não se trata apenas de um conjunto de ilustrações…

De todo. Aí entramos numa visão que era comum aos dois, pois achávamos que a pintura vai sempre muito mais longe do que a poesia.

Porque esperaste tanto tempo para expor estes quadros?

Muita gente me perguntou, aquando da morte do Mário, porque é que eu não expunha estas obras. Havia uma componente emocional: cada pessoa precisa de fazer o seu luto. E depois, sempre que alguém desaparece, existe uma série de aproveitamentos e associações que algumas pessoas pretendem fazer, principalmente quando falamos de um dos maiores vultos da cultura portuguesa do século XX. Eu não quero ser confundido com uma dessas pessoas, pois o meu maior património não é aquilo que eu vou mostrar nesta exposição. É algo que nunca vou poder mostrar a ninguém, algo pessoal e intransmissível, que são os milhares de horas de conversas e de convívio que tivemos. Não quero capitalizar a minha relação com o Mário. O que eu quero é cumprir a promessa que lhe fiz para encerrar um ciclo de memórias. Sinto que estou numa fase de mudança, tenho estado num período de balanço e introspecção em relação àquilo que quero fazer daqui para a a frente. Depois de tanto laboratório, o que eu sinto é que hoje tenho as ferramentas mais arrumadas e agora que fechei o ciclo e cumpri a promessa, está na hora de usá-las.

Miguel Matos

“É preciso dizer os dias em vez de dizer os anos” está patente na Galeria São Bento (Rua do Machadinho, 1) de 18 de Junho a 31 Julho. Aberta de terça a sexta das 10.30 às 13.00 e das 15.00 às 19.30. Sábados das 15.00 às 19.30. A entrada é gratuita.

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A Anita dos livros infantis é afinal um travesti, devota de Nossa Senhora de Fátima, e serve leitões ao fim-de-semana. Se não acredita, comprove-o na exposição “Anita no País dos Mentirosos”, de Gabriel Garcia. Tudo começou na montra de um alfarrabista onde uma capa de um dos livros da Anita chamou a atenção do artista. Partindo desta imagem, faltava o contexto para começar a trabalhar. E não há melhor contexto do que o País dos Mentirosos, afinal de contas, o país onde todos nós vivemos, começando pela classe política, mas não só. Como explica Gabriel Garcia: “a fantasiar acabamos por ser mentirosos. A mentira permite voar por cima das nuvens e viajar ao encontro da fantasia e é isso o que eu tenho vindo a desenvolver nos meus trabalhos.”

A história original, a do país das maravilhas, traz consigo o jogo entre uma terra de fantasia e local de gente má. Como as mentiras, que podem ser boas ou más. Há sempre um ambiente teatral, burlesco e circense nestas imagens. Gabriel Garcia inventa personagens grotescas que pinta e depois liberta, engarrafando-as literalmente em pequenos frasquinhos que são depois pendurados no tecto da galeria.

Gabriel não planeia meticulosamente cada imagem que cria, preferindo pintar ou desenhar como se fosse uma escrita automática. Nesse método, evoca André Breton, o papa do surrealismo, como influência teórica no seu trabalho. Mas os territórios perigosos do surrealismo são difíceis de percorrer sem consequências. Aliás, mesmo Breton disse uma vez que os campos de prospecção do inconsciente, como a escrita automática e o sono hipnótico, “são muito difíceis de circunscrever. Assim que se tenta fixar-lhe os limites, impõe-se uma grande margem de flutuação, de incerteza. São terrenos movediços, sobre os quais nunca há a certeza de se ter pé.” (Entrevistas, Ed. Salamandra) Assim, apesar de utilizar as ferramentas inexactas propostas por Breton, Gabriel esclarece: “eu não sou surrealista. Quando falo de surrealismo, não o faço no sentido dos ideais e da concepção de vida que os surrealistas defendem. A questão do surrealismo vem do lado onírico, automático e inconsciente que utilizo no meu trabalho. Às vezes usar mais palavras para explicar as minhas obras não vale a pena. É nas entrelinhas que se contam as histórias.” E é nas entrelinhas que começa a operar a imaginação de cada observador que se plante em frente a uma destas pinturas.

Nos tresloucados sonhos pintados desta exposição, há uma permanente alusão aos contos infantis, mas aqui o pintor restitui–lhes a ironia e crueldade originais, o que permite uma identificação com o mundo adulto, mas com conteúdo retirado com uma pinça directamente ao inconsciente de origens recônditas e infantis. São a fantasia das crianças e a mentira dos adultos que se cruzam e confundem. Tudo isto é enquadrado por um cenário teatral, como as paisagens em cores berrantes que fazem lembrar os cicloramas das peças de teatro. A disposição das personagens é também estudada dentro da composição de cada quadro como num palco. Um lado grotesco na fisicalidade de cada personagem é o toque adicional para transformar tudo isto num espectáculo circense.

As obras de Gabriel Garcia assumem as influências das criaturas de Bosch, dos ambientes, cores e cenários de Brueghel, assim como das máscaras de James Ensor. Quando se desloca para o desenho, lembra Mário Botas. Mas essas influências não fazem da pintura de Gabriel Garcia uma colagem ou pastiche. São sinais no caminho que vai levar a paragens muito diferentes. Talvez sejam mentira, mas são certamente o outro lado da fantasia.

“Anita no País dos Mentirosos” está patente na Galeria São Bento (R. do Machadinho, 1) de sexta a 30 de Junho. Aberta de terça a sexta das 13.00 às 20.00 e sábados das 15.00 às 20.00. A entrada é gratuita.

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Por Miguel Matos

«Se as profundezas do nosso espírito escondem estranhas forças capazes de aumentar as da superfície, ou contra elas lutar vitoriosamente, há todo o interesse em captá-las, captá-las primeiro, para submetê-las depois, se for o caso, ao controlo da nossa razão», dizia André Breton em 1924 no seu Manifesto do Surrealismo. Segundo o fundador da corrente, a exploração dos meandros do sonho e da realidade inconsciente era de importância extrema para a arte e para a vida, duas dimensões que mais nenhum programa artístico soube conjugar com tanta eficácia como o surrealismo.

O estado de vigília-a realidade. O estado inconsciente – o sonho! Breton acreditava na resolução destes dois estados contraditórios numa espécie de realidade absoluta a que chamou de surrealidade. Dizia ele: «(…) porque não haveria eu de conceder ao sonho o que recuso por vezes à realidade, seja este valor de certeza em si mesma, que, em seu tempo, não está exposta a meu desmentido? Porque não haveria eu de esperar do indício do sonho, ele também, resolução de questões fundamentais da vida? Serão estas perguntas as mesmas num caso como no outro, e no sonho elas já estão? O sonho terá menos peso de sanções que o resto? Envelheço, e mais que esta realidade à qual penso me adstringir, é talvez o sonho, a indiferença que lhe dedico, que me faz envelhecer».

Se começou por ler estas páginas pelo seu título, saiba que fez bem. Não só porque são as letras maiores da página, como porque resumem o espírito da obra de Cruzeiro Seixas. De entre o grupo de artistas que participaram na primeira Exposição dos Surrealistas em Lisboa no ano de 1949, Artur do Cruzeiro Seixas é o grande representante-sobrevivente, embora também ainda se encontre entre os viventes e activos o pintor Carlos Calvet. Seixas, aos 88 anos continua a defender que a arte «sempre se deixou levar pelo mundo onírico e sobre ele trabalhou toda a vida. Ainda é possível sonhar? Eu acho que é a única salvação. O sonho acordado é das coisas mais bonitas que o homem tem. É tão belo como a vida sexual… São coisas das quais podemos pôr e dispôr à nossa vontade. É a liberdade!»

Uma chávena impossível de ser pegada – é o Objecto do Quotidiano, peça icónica que Cruzeiro Seixas criou em 1954. Uma chávena com a asa por dentro como a que temos nós e que por si é toldada de acção. A Mão (1960) – Uma luva… Uma mão que arranha e que escreve como quem arranha. Uma luva que acaricia e que denuncia. Que pica e que encanta. Como descreveu Emília Ferreira (CAMJAP). «Um dos objectos escultóricos realizados na década de 60, esta peça perturbadora, com unhas feitas de aparos de caneta, instaura uma relação simbólica entre criação e destruição». Em outro objecto, O Mar Português, uma criatura nómada aprisionada numa gaiola de tradições e crenças. É a impossibilidade que compõe o discurso de Cruzeiro Seixas tanto nos objectos como nos seus desenhos oníricos. O dramatismo de uma alma lírica, de uma personalidade solitária. Não é o humor que compõe seja as esculturas seja os desenhos ou as pinturas de Cruzeiro Seixas. É de uma solidão interior, de histórias de encontros e desencontros. De acontecimentos reais com reverberações imaginárias. Do corpo que se liga e desliga com outros, de metamorfoses ejaculatórias ou dolorosas, mas sempre exacerbadas em traços e manchas precisas sobre papel. «Há uma confusão no que diz respeito à ideia que as pessoas fazem de mim», diz Artur. «Vivo metido no meu buraco e não sou muito sociável. As pessoas falam do humor do Cruzeiro Seixas. Isso é uma coisa que me faz sorrir pois eu não tenho humor nenhum. O que eu faço é profundamente dramático. Eu sou um tipo com um feitio dramático, o que não quer dizer que não goste de ir para a cama acompanhado, por exemplo. Mas realmente os desenhos que faço são dramáticos, é aí que eu abro a minha janela e deito aí as minhas coisas. Há grandes críticos que vêem humor nas minhas obras mas eu acho que isso é um grande desentendimento».

Contra tudo e todos, na actualidade o surrealismo existe, resiste e contamina todas as áreas visuais, desde o cinema (veja-se o caso de David Lynch), à publicidade (como nos anúncios da marca de jeans Diesel), na fotografia (pense-se em David LaChapelle) e nas artes plásticas, Ray Caesar e Mark Ryden poderiam ser associados ao que seria um neo-surrealismo. Em Portugal, e para referir um jovem nome, Cruzeiro Seixas salienta a originalidade dos objectos domésticos forrados a veludo de Eva Alves. No entanto, este género tardio de surrealismo não possui qualquer conteúdo ético, ao contrário do original pensado por Breton e continuado aqui por Seixas. O surrealismo, se é que ele existe hoje, não se assume como tal e constitui apenas uma estética, uma inclinação visual sem pretensões a um programa ideológico. Talvez uma apropriação de um imaginário, uma tradição onírica que nos veio por mãos de Dalí, Chirico ou Magritte, três exemplos máximos e divergentes dentro de uma mesma área abrangente e indefinida por natureza. «Hoje quem quiser seguir o surrealismo de acordo com todos os preceitos que André Breton defendia está lixado… Vê-se às aranhas e fará muitos disparates», diz Cruzeiro Seixas. «Se o Breton voltasse cá provavelmente seria o primeiro a mudar muitas coisas do seu programa inicial. Não faz sentido o surrealismo ortodoxo hoje em dia. O que é preciso é largar a ideia original, acho eu. Eu até nem seria capaz de ser ortodoxo em coisa nenhuma porque a minha luta consiste em romper as barreiras para levar as coisas mais adiante. Este surrealismo de hoje, que anda por aí, está muito mal. Eu correspondo-me com surrealistas de todo o mundo e acho que esta gente nova já não tem nada de surrealista. Estão a fazer exposições e a ganhar dinheiro como qualquer pintor de arte e servem-se do surrealismo como uma estética. Ora acontece que o surrealismo não é uma estética, é uma ética. Não conheço outra alternativa, outra ideia com igual força. O surrealismo foi e é para mim uma ideia muito forte, um mito com muitas possibilidades de nos aguentar neste mundo incrível. Há quem diga que está esgotado mas eu acho que não. No entanto, a maioria das pessoas ligadas à arte está a repetir muitas das coisas inventadas pelos surrealistas nos anos vinte, embora sem revelarem a proveniência da sua inspiração. Isso eu acho muito triste. No outro dia descobri uma série de objectos numa galeria de Lisboa. Eram objectos interessantes que poderíamos chamar de surrealistas mas a pessoa que os fez não tem consciência disso ou não quer ter».

Na residência onde vive, no Estoril, rodeado de objectos de amigos e obras por si desenhadas, despontou-nos a conversa sem rumo nem destino com a companhia de um cadavre exquis seu e de Paula Rego na parede, múltiplas recordações da sua vida em África. Em frente, uma varanda povoada de esculturas suas e ao fundo o mar como companhia…

E como ética, o surrealismo faz sentido hoje em dia?
Há muitos campos em que poderia fazer sentido, mas já não seria uma questão de cumprir as rígidas regras morais de Breton. Por exemplo, ele estava rodeado de homossexuais, mas fingia que não dava por isso e não os aceitava.

Pegando nesse assunto… As diferenças entre a Lisboa de hoje e a de outros tempos são espantosas. Como era ser homossexual em Lisboa?
Para mim foi muito fácil e gostei muito, quando era novo. Ao mesmo tempo, tudo era proibido neste país, com a moralidade do Salazar. Mas havia grandes suspeitas de homossexualidade em relação a Salazar e ao Cardeal Patriarca, que era uma grande dama. Parecia uma senhora na voz e no seu encanto. Mas antigamente era muito mais fácil e mais giro. As pessoas olhavam uma para a outra e logo daí a pouco estavam na cama. Agora não, é preciso ir à noite, para os bares. É quase uma coisa profissional. Tudo evolui tanto em tão pouco tempo… e daí ser tão difícil fazer a História. Porque do alto dos meus 88 anos já vejo a cada momento a história do surrealismo, a história da história, a história do país. Tudo completamente deturpado e as pessoas acreditam. Nunca se sabe onde está a verdade…

Muitas vezes ela está à nossa frente e nós não a vemos…
Se calhar ela nasceu para não ser vista. Tem um véu, como as estátuas das mulheres…

Nas palavras de Rui-Mário Gonçalves, «Cruzeiro Seixas instaura um campo magnético de comunicabilidade intersubjectiva. Há nos seus desenhos celebrações de memórias e juramentos de amor. Há erotismo. Nunca há pornografia.» A sua obra tem o erotismo muito associado. Mas é um erotismo muito subtil. Parece omnipresente mas sempre velado. Não é muito óbvio…
Pois não, eu nunca tinha necessidade disso porque ia para a cama com muita gente… Pode-se falar de erotismo sem falar de surrealismo? Ninguém vai pedir referência válida sobre tal tema ao Neo-realismo, ou à Igreja Católica. O erotismo perdeu o seu encanto, em grande parte, por ser livre. Antigamente era a dificuldade que lhe acrescentava interesse. Era uma fuga às pressões políticas. Eu nunca tinha podido aguentar isso se não fosse esta fuga, como ir para a cama com um marinheiro lindíssimo. E realmente isso era uma coisa muito bonita, era o meu escape. A minha grande porta não foi a pintura, foi isto. E era uma Lisboa extraordinária, o teatro que era a baixa…

Então, mas a Brasileira continua a ser hoje em dia um dos locais de encontros e de “show off” mais activos…
Mas quais são as celebridades que lá estão? Aquilo antigamente estava sempre cheio de gente famosa. O Almada estava lá quase sempre ao final da tarde… e o Almada era um mundo, a maneira de ele falar, a sua gesticulação, nem imagina, era um espectáculo de borla! A respeito dele há uma história muito engraçada que envolvia Mário Cesariny. Ele tinha um grande encantamento por mim e acreditava que eu seria o maior pintor de Portugal. Tínhamos nós vinte anos… eu via dentro da cabeça dele estas coisas e achava que eram sonhos tontos de um amigo, mas deixava andar. Era-me agradável. Um dia fomos ao Café Chiado, as mesas estavam cheias e estava lá o Almada. O Mário era muito atrevido e pegou num caderno meu onde eu desenhava umas coisas. Volta-se para o Almada e diz: «olha, tenho aqui um amigo que faz estas coisas, veja!». O Almada pega no caderno, passa duas volhas e não ligou nenhuma. Eu fiquei encantado a pensar no fracasso do Mário. Para ele foi um fracasso enorme, uma coisa terrível. Eu acho tanta graça a esta história…

Apesar de a vista já fraquejar e a mão também, o Artur está a pensar em voltar a desenhar, não está?
Isso é uma perspectiva muito optimista, ou muito louca pelo menos. Estes últimos meses têm sido imparáveis, loucos. Não consigo fazer nada que preste e já estou farto daquilo que fazia. De maneira que dar-se-à um caso de interrupção e, se a vida sossegar, quero ver se volto a fazer alguma coisa. Mas não quero voltar a fazer o mesmo. No outro dia desafiaram-me a fazer um cadavre exquis. Eu gosto de fazer isso, dá-me mais liberdade, mas não é fácil… Dentro da cabeça não tenho nada, mas sei que precisava de fazer algo de novo. É uma questão de deixar a mão correr… sabe que foi sempre a minha mão que fez tudo e não a cabeça.

Mas continua a existir um público interessado na sua obra. É um nome incontornável da história da arte portuguesa…

As pessoas já estão um bocadinho cansadas do Cruzeiro Seixas. Até eu! Se eu vivesse mais dois ou três anos teria que reinventar um outro Cruzeiro Seixas. Já estou farto de fazer as mesmas coisas. Eu sei que tenho o meu público, mas sou um bicho do mato. O que eu faço interessa mais aos outros do que a mim. Não sou um apaixonado daquilo que faço. Mas enfim, cumpri a minha obrigação, sempre com paixão. Tudo o que fiz na vida foi sempre apaixonadamente e isso é necessário. Mas agora estou farto, é como uma receita de culinária, sempre a mesma. Há alguns anos que comecei a dar por isso.

E no que diz respeito ao interesse do público pelo surrealismo, isso é incontestável…
O surrealismo português é ignorado em todo o mundo. É na Fundação Cupertino de Miranda, onde está o meu espólio e o do Mário Cesariny. É lá que eu propus que se criasse um centro de estudos desta corrente artística. Propus também que eles publicassem um livro sobre a história do surrealismo português.

O que é que o Artur gostava de fazer neste momento?

Agora gostava muito de viajar com uma pessoa que tivesse um entendimento igual ao meu acerca das coisas. O Mário…

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Time Out, 11 Fevereiro 2009

Raúl Perez

É como se os sonhos me saíssem pelas mãos”

por Miguel Matos

Raúl Perez tem sido um segredo bem guardado na arte portuguesa. Até agora. O Museu Berardo, em co-produção com a Fundação Cupertino de Miranda abre as portas a um conjunto de obras criadas desde 1960 até agora. São 50 anos de sonhos e criaturas mágicas que saem à rua para nos enfeitiçarem. A Time Out à conversa com um pintor pouco dado a “ismos”.

O primeiro impulso que temos ao ver pela primeira vez as suas obras é associá-las ao Surrealismo. Mas o Raúl não se sente muito confortável com essa associação…

O que me torna próximo dos surrealistas é o meu processo de trabalho. Eu não sou capaz de fazer nada de uma forma racional, deliberada. Quando pego num lápis ou num papel as coisas saem-me. Nunca me fiz a pergunta “o que vou fazer?”. É este processo que me torna parente dos surrealistas. Eu nunca tinha lido nada do Breton antes de começar a pintar. Conheci o Mário Cesariny nos princípios dos anos 60. Ia com um amigo meu no Marquês de Pombal, vi o Mário Cesariny e fui falar com ele. Tinha eu nessa altura o cabelo comprido que me dava pelas costas e me dava direito a ser vaiado pelas ruas. As pessoas paravam para insultar-me. Fui falar com o Cesariny e disse-lhe que gostava muito da sua poesia e que gostava muito de poder conversar com ele. Ele então olhou para a folha que eu trazia pendurada ao pescoço e disse-me “você não tem grande coisa a aprender comigo. Mas eu, o Cruzeiro Seixas, o Pedro Oom, o Mário Henrique Leiria, vamos fazer uma exposição e leitura de poesia na Livraria Buchholz… se quiser apareça lá”. Assim, comecei a conviver com estes artistas. A partir daí começámos a encontrar-nos. Fomos convivendo e comecei a aperceber-me de que o meu próprio processo de trabalho identificava-se com o dos surrealistas, mas isto é muito antigo em mim e não me leva a proclamar-me surrealista até porque detesto ser qualquer coisa. Não tenho partido político nem religião nem clube de futebol. O que é ser surrealista? Acho esquisito, parece um partido político… Eu ponho em primeiro plano a liberdade e a autenticidade. Não me quero envolver nesses “ismos”.

Mas afinal onde tem andado estes anos todos para ser tão pouco conhecido? É muito raro ouvir falar de si.

O que eu faço agora é uma coisa que tem vindo a germinar ao longo dos anos, não veio do nada. Há os pintores “da casca”, que se preocupam com o mundo que os envolve e isso reflecte-se no seu trabalho. Eu sou uma espécie de mineiro à procura do meu ouro, esta coisa que todos nós temos cá dentro. Comecei este processo desde rapazinho. Sempre me conheci a desenhar e a pintar.

Porque esteve tanto tempo sem expôr?

Todas as exposições que tenho feito são em galerias de arte, que no fundo são comerciais, são lojas. Nunca fiz nenhuma exposição sem ser um bocado contrariado porque as coisas de que eu gostava muito não as queria vender e os marchands querem vender. Estes quadros que foram guardados, foram mesmo por causa disso. Podia expô-los mas nunca para vendê-los. Há quadros que apesar de serem meus e serem bons, não me apego a eles, mas há outros dos quais eu não sou capaz de me desligar. Esta exposição e a anterior na Fundação Cupertino de Miranda são as primeiras em que eu escolhi as peças que quero mostrar. É uma exposição planeada por mim e não por um galerista, o que tem outro significado.

Pinta muitas vezes os mesmos símbolos, como por exemplo as torres com asas, pode explicar porquê este motivos recorrentes?

Não há um motivo para isso. Quando estou a pintar não tenho consciência do que faço. Posteriormente é que me apercebo daquilo que um quadro significa. Isto são sonhos. Não são ilustrações de sonhos mas os sonhos em si. Desde muito cedo me apercebi de tudo o que eu desenhava às ocultas da consciência continha uma linguagem e uma filosofia próprias semelhantes às dos sonhos. Era como se os sonhos me saíssem pelas mãos. Fui-me familiarizando ao longo da vida com este processo que se assemelhava a um acto mediúnico e no qual eu representava apenas um simples instrumento. Esta experiência leva-me a postular que a arte é um prolongamento do sonho. Quando estou a fazer isto, comparo-me àquelas mulheres que estão no autocarro a fazer tricô e nem reparam no que estão a fazer. Na minha pintura dou muita importância ao desenho, que me sai espontaneamente. Depois as texturas que faço são como o tricô das mulheres no autocarro. Costumo também ter ao lado um bloco de papel onde anoto ideias sobre as coisas mais incríveis e que se referem à própria pintura. É filosofia. Não é uma filosofia que parte da realidade material mas sim das profundezas. Os sonhos estão imbuídos de filosofia, de poesia…

E os tais elementos simbólicos e recorrentes? Será realmente importante para o observador saber a sua explicação? Eu, por exemplo tenho uma interpretação pessoal, tal como outra pessoa terá uma diferente…

Esta tendência ocidental de querer explicar tudo… Tem de se racionalizar tudo… Estas coisas têm outra linguagem. Se abordarmos isto de uma maneira racional, adulteramos as coisas. A maior parte dos críticos tem um discurso lógico que, ao abordar estes quadros, desvaloriza-os, criando uma imagem adulterada.

Mas a explicação que me está a dar é em si mesma uma explicação válida… a explicação de que estas coisas não se explicam… A Filosofia quer conhecer a realidade. E os sonhos não serão eles também a realidade, assim como os efeitos palpáveis que os sonhos têm em nós, na nossa vida e na arte?

Mas o que é que é a realidade? Os sonhos são muito importantes e são a raíz das coisas. A Filosofia devia partir daí. Todo o acto inconsciente tem a sua origem nos sonhos, são coisas oníricas…

Algumas das obras patentes nesta exposição pertencem à Fundação Cupertino de Miranda, outras são de coleccionadores particulares, mas muitas são suas. Porque guardou estas e não outras?

Porque é importante guardar. Porque significam marcos no meu percurso. Alguns dos quadros que eu guardei são os que eu considero os melhores.

E o que sente pelo facto de ser pouco reconhecido?

Então, quem não aparece…

Assume a sua responsabilidade, portanto. Mas gostaria de ser mais conhecido?

Tenho visto ao longo da vida as reacções das pessoas. Se há quem me compre quadros é porque gostam, mas eu não pinto para viver. De vez em quando vendo um quadro mas não tenho necessidade de vendê-los. Nunca subjuguei a minha actividade ao dinheiro. Tenho uma repulsa incrível a isso. Quanto a reacções, estou à espera… Vejam, eu agora estou a mostrar.

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