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"paula rego"

Aos 76 anos, Paula Rego apresenta novos caminhos dentro do seu percurso. Exposta actualmente na sua Casa das Histórias, em Cascais, Oratório é uma peça recente que cruza as linguagens da escultura com as da pintura. Juntar bonecos e desenhos foi a solução que Paula Rego encontrou para uma exposição sobre o abandono de bebés e a salvação dos mesmos. Inicialmente exposta no Foundling Museum, em Londres, esta obra mostra a crueldade e a caridade de mãos dadas. A morte a dançar com a vida em narrativas contadas pela artista. Aliás, contar histórias é o que Paula Rego sempre faz, como na outra exposição simultânea, paredes meias, intitulada “O corpo tem mais cotovelos”, em que se analisa a representação do corpo humano no contexto da sua carreira.

Segue-se uma pequena conversa em passeio pelas salas e corredores habitados por amores, lendas e medos.

 

 

O que é o Foundling Museum e de que forma o trabalho que apresenta agora se insere no contexto da actividade dessa instituição?

Na Europa,

 havia uma roda nas igrejas, onde eram entregues as crianças que as pessoas não queriam, que não eram precisas. De um lado, punha-se o bebé recém-nascido e do outro lado havia alguém que tomava conta dele. Na Inglaterra, não havia a roda e a Igreja não se interessava por isso. No tempo do pintor William Hogarth, as crianças eram deitadas ao poço, eram mortas e as ruas de Londres estavam cheias de crianças mortas. O senhor Thomas Coram ficou muito impressionado com essa porcaria e resolveu arranjar dinheiro para construir uma escola para educar, tratar e tomar conta dessas crianças. Os bebés eram apanhados nas ruas e eram levados para o campo, para famílias que tinham outras crianças. Os bebés viviam aí os seus quatro primeiros anos como parte da família. Era talvez a melhor altura das suas vidas. Depois, vinham dessas casas para a escola onde tinham dormitório e aprendiam coisas. Quando acabavam a escola, as raparigas eram treinadas para serem empregadas domésticas e os rapazes para irem para os barcos. A escola era severa e tinha um aspecto de jardim zoológico. Por exemplo, as crianças estavam a comer e os habitantes de Londres faziam excursões para irem ver os meninos a comer como se fossem uns bichos estranhos.

 

E como é que essa instituição passou a ter um museu?

Eles tinham uma casa muito bonita e Coram conseguiu arranjar dinheiro para continuar. Nessa altura, havia muitos artistas ingleses e ainda não existia a Royal Academy para expor. Assim, Hogarth fez um retrato maravilhoso do senhor Coram e expô-lo na casa. Outros artistas começaram a pensar em expor ali para ver se conseguiam vender alguma coisa. Assim foi, e o espaço começou a transformar-se numa espécie de galeria. O compositor Handel foi até viver para lá e compôs obras musicais. O Foundling Museum nunca teve ajuda do Estado nem da Igreja nem nada, apenas dos artistas. A coisa mais comovente é o facto de as mães, quando iam lá entregar as crianças, deixarem sempre lá qualquer coisinha da criança. Fosse uma pulseira, ou um brinco, um bonequinho… E esses objectos estão lá expostos. Quando fossem buscar as crianças, podiam levar as coisinhas, mas nunca iam lá buscar as crianças, coitadinhas.

 

Era a identidade de cada bebé…

Sim, é muito bonito.

 

E já se tinha lembrado de fazer um oratório ou esta peça surgiu depois do convite do Foundling Museum?

Eu já andava a pensar em fazer uma coisa no formato de oratório, mas quando surgiu esta oportunidade, achei que calhava bem. Ficou ao cimo de umas escadas. Era um sítio escuro, mas ficava bem ali. No entanto, aqui fica muito melhor porque vê-se tudo.

 

É uma história contada em capítulos com uma cena central… Foi a primeira vez que realizou uma obra que reúne escultura, instalação, desenho e pintura. É uma novidade no seu percurso. Foi um desafio?

Foi horrível. Primeiro, eu não pensei em pôr desenhos. Eram só figuras. Depois, não sabia como havia de pôr os bonecos. Uns para cima, outros para baixo, até que decidi que precisava de um armário. Foi então que consegui e levou meses porque aquela mistura de coisas estava uma porcaria.

 

Há uma figur

a entre todas que é diferente…

A pretinha?

 

Sim, é a única figura perfeita entre todas as esculturas. Ao contrário das outras que são grotescas, esta é bonita. Porquê?

Porque não fui eu que a fiz.

 

É mais boazinha do que as outras?

Se calhar… É mais obediente.

 


Sim, começa com uma violação. Depois, há uma mulher a dar à luz ao luar. Há uma cena que diz respeito a uma coisa que faziam lá, que era cortar os cabelos às meninas assim que chegavam. Depois, ali está uma mulher a dançar com a morte.Pode explicar em que consiste cada uma das partes deste oratório? Começa com uma violação, não é?

 

No entanto, ela parece estar com uma expressão apaziguada…

Sim, claro. A morte às vezes é consolo, não é? Depois, mais ali ao lado, está uma imagem com um bebé pendurado que é como aquela famosa fotografia do Michael Jackson… Ali, estão a deitar os meninos para dentro de um poço. Aqui no meio, estão as figuras. Ao centro, é a minha filha Carolina, à direita, é a minha prima Manuela. Aqui, é um puto que está a mamar. Não era permitido que os meninos tocassem uns nos outros. À noite, eles choravam nas camas e esta menina deixava-os chupar na maminha para lhes dar conforto.

 

 

E esta criança, que parece estar morta?

É uma avó! É uma velha.

 

Parece uma pietà

Exactly.

 

É a figura com o ar mais bondoso que tem a velha a morrer nos braços. Às vezes, esquecem-se também os velhos, não são só as crianças…

Pois. É triste. É a mesma coisa, os velhos a morrer na rua. Deixam-nos abandonados em casa. E há lares que são de uma crueldade espantosa. O tormento que fazem aos velhos em alguns lares em Londres é horrível. É maldade.

 

Neste oratório, fala de duas fases de fragilidade na vida em que a crueldade acontece.

Absolutamente. É simples, mas levou meses a fazer isto. Ainda pensei em fazer uma estrutura de confessionário…

 

O que não deixava de ser interessante, explorar e espreitar o local onde os pecados são despejados…

Tinham de ver-se os pecados! E através da rede, veríamos o padre rodeado de demónios. E de meninas, o que era bem bom! Ou de meninos, sobretudo, que eles gostam muito.

 

Mas, voltando ao Oratório, que é a peça que está à nossa frente, há aqui uma presença repetida da figura de uma senhora desfigurada que é a morte… É um dos seus medos?

Eu tenho muito medo. Gostava muito de me ver livre do medo, mas não consigo. Desde pequenina, é uma coisa que me veio desde os tempos da Mocidade Portuguesa, onde só me contavam histórias horríveis. Eu ia para casa e ouvia a morte a descer pelo corredor abaixo. O que eu aprendi na Mocidade Portuguesa foi o medo. O medo que faz a pessoa ficar fria, esconder-se e fazer tudo para ver-se livre dele sem conseguir. Até o meu querido amigo poeta Alberto Lacerda disse uma vez num jornal que eu dava cara ao medo.

 

Mas com a idade esse medo não se dissipa?

Há épocas em que melhora, mas depois volta outra vez. É uma desinquietação horrível. Mas esta obra não é acerca do meu medo.

 

Em volta do Oratório, há várias obras onde se representam cenas de violação, de masturbação, mulheres que deitam bebés a um poço. A personagem que deita os bebés ao poço é oriunda de uma lenda da tradição portuguesa, não é?

Sim, é a Maria do Gancho, que está no fundo do poço e puxa as crianças para baixo. É preciso ter cuidado com ela, era o que as mães diziam aos filhos, para não se aproximarem dos poços. Para desenhar estas obras, fiz um poço lá em casa e trabalhei com modelos e bonecos feitos por mim.

 

A mitologia rural portuguesa não é muito explorada visualmente, pois não? Será por medo?

É porque se essas coisas se dão a ver ficam vivas, não é?

 

A outra parte do programa expositivo intitula-se “O Corpo tem Mais Cotovelos” e tem que ver com os ângulos e as esquinas que dificultam a representação do corpo humano. Como é que desenvolve a sensibilidade e a técnica para desenhar a figura humana?

É olhar e copiar. Ao princípio não é fácil, mas vai com o tempo. Ainda não consegui aperfeiçoar isto na totalidade, mas continuo a aprender.

 

A mostra inicia-se com um conjunto de esboços e estudos. Ainda os executa antes de realizar uma obra?

Sim, mas já não preciso de medir as proporções. Já aprendi a fazer à vista.

 

Porque é que nas suas obras as mulheres vestem sempre roupas de outra época, trajes vitorianos?

Muitas coisas são do século XIX porque são fatos da minha avó. Alguns também compro.

 

Tem medo das personagens que pinta?

Não. São todas a Lila [modelo co


m que a artista trabalha há muitos anos], não tenho medo dela.

Quando era criança, alguma vez lhe contaram uma história que a tenha perturbado realmente?

Então, na Mocidade Portuguesa, como lhe disse. Uma das histórias era assim: nós tínhamos uma lareira e diziam-nos que se começássemos a olhar para as chamas víamos a cabeça do diabo. E depois, quando íamos para a cama, diziam que era melhor deixar a porta fechada ou aberta. Nunca se devia deixar a porta entreaberta. Eu fui para a cama e pouco depois oiço passos no corredor. Passos, passos, passos, passos… A porta do meu quarto abre-se e entra a morte. Era um esqueleto vestido de morte. Eu levanto-me da cama, saio a correr e vou para o quarto dos meus pais que era mesmo ao lado. Meti-me na cama com eles, encostei-me à minha mãe e a morte entrou atrás de mim e deitou-se na cama connosco. Ainda hoje essa história me causa pavor. Nunca mais me esqueci.

 

Sempre que faz uma visita a uma exposição sua, mesmo que seja uma apresentação à imprensa, acontece um momento de misticismo. A Paula vai à frente e a segu

ir há como que uma procissão de pessoas que a seguem como se fosse uma papisa, que se assombram e fascinam com tudo o que diz, que ficam em silêncio como numa igreja e comentam baixinho umas com as outras as suas frases. Já se apercebeu disto?

Há pouco tempo, na inauguração da exposição do Porto, uma pessoa disse-me assim: “Eu gosto muito de si. Até gosto mais de si do que do seu trabalho!” Fantástico, não é? [risos]

 

A Paula continua a trabalhar muito. Não se cansa?

Canso-me muito e trabalho muito. Como é que eu ganho a vida sem trabalhar? E estou sempre à espera de fazer coisas melhores, de ficar melhor naquilo que faço, mas não consigo! É uma pena. Com a idade, não fiquei melhor, fiquei diferente.

Miguel Matos

 

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Paula Rego renova a Casa das Histórias com uma retrospectiva da obra do seu marido, o artista britânico Victor Willing (1928-1988). Uma exposição de 80 pinturas e desenhos que é uma novidade em Portugal, país onde o pintor trabalhou e viveu entre 1957 e 1974. Willing começou a pintar pensando que seria sempre um retratista, mas a verdade é que passou também por fases abstractas, expressionistas, gestuais, numa atitude original e independente. De personalidade solitária e com ideias fortes, era um artista diversificado tanto em técnicas como em temáticas e estilos que desenvolvia em séries longas e demarcadas. Um homem de talentos teóricos e intelectuais, com obra editada de crítica de arte. Uma pessoa que, como diz Paula Rego, “não era para brincadeiras…”

 

Esta é a primeira vez que se realiza em Portugal uma exposição do trabalho de Victor Willing, artista quase desconhecido por cá. Quem foi este homem?
O Victor Willing, Vic para mim, foi meu colega na Slade School of Fine Art, em Londres. Foi lá que o conheci. Éramos os dois estudantes, mas eu tinha 16 anos quando fui para lá e ele era oito anos mais velho, já era casado e com filhos… era um intelectual admirado pelos colegas porque sabia muito sobre pintura e era muito original. Lia muito e era diferente dos outros alunos que eram muito mais ingleses, mais… provincianos, you know… ele sabia muita coisa e era muito amigo do Francis Bacon, até viveu em casa dele. A maneira de pintar na Slade era muito rígida, tinha que ser tudo medido e marcado. Era muito metódico, you know… Nesta exposição há um quadro que ele pintou ainda na escola e vê-se que está tudo com as proporções certas, e a tendência que ele tinha para a escultura nota-se na noção de espaço, que era muito importante para ele. Depois, mais tarde, veio comigo para Portugal.
Então, sendo ele casado, largou tudo para ficar consigo…
Mas custou!…

 

Mudaram de vida e vieram para um país que a nível artístico não oferecia boas condições…
Ó meu filho, mas na Ericeira era tudo diferente. Era só pescadores e mulheres a pedirem dinheiro para fazerem abortos e coisas assim, coitadas. Era um sítio muito bonito. Tinha lá uma quinta e pintávamos os dois numa adega muito grande que dividíamos ao meio com uma esteira. Ele pintava de um lado e eu do outro.
Trocavam experiências, conhecimentos, técnicas?
Não… Eu não sabia nada! Por exemplo, ele tinha uma grande paixão por Matisse e eu não gostava e não conseguia fazer aquilo. Enfim, ele percebeu que nós éramos completamente diferentes. E isso é uma coisa muito boa porque ele sempre me ajudou e respeitou na diferença. Estivemos na Ericeira, mas depois voltámos para Londres porque não havia ninguém com quem ele pudesse falar sobre pintura, a não ser eu, que não sabia nada.
Numa conversa que tivemos há tempos, a Paula disse-me que não sabia pintar, o seu marido é que sabia. Como assim?
Eu sou uma desenhadora, no fundo. Não sou uma pintora. Desenho, faço bonecos. Faço quase tudo com pastel seco. Até pintei durante uns tempos com acrílico, mas óleo é uma coisa que me repugna. Ainda vou experimentar. Porque não? Mas para mim, o pincel é uma coisa muito mole e eu gosto de carregar com o lápis. Gosto de desenhar e de pôr cor às vezes, mas as duas coisas nunca vão bem juntas. No caso do Vic, ele pensava como fazia. E depois teve uma altura em que tinha visões. O que ele queria era fazer quadros que se parecessem com desenhos. Mais livres, mais espontâneos.
Mas ele pintava a óleo, uma técnica demorada que não permite tanto essa espontaneidade…
Pois é, mas houve uma altura, quando ele já sofria de esclerose múltipla, em que olhou para a parede e viu o quadro que ia pintar. Então foi só copiar aquilo que estava a ver. Era mágico, uma coisa que não tem explicação. Ele pintava porque conseguia ver… mais tarde quando deixou de ver já visualizava apenas. Fazia o desenho espontaneamente e criava estas construções e coisas periclitantes.
Ele nunca conseguiu ser completamente abstracto nem completamente figurativo, oscilando e misturando esses elementos…
Era uma figuração inventada, como fazem os grandes.

 

O que é que Victor Willing buscava com a pintura?
O que ele fazia tinha muito a ver com a solidão. Coisas fechadas no fundo de um quarto…

 

Mas como pessoa ele reflectia essa solidão, ou era um sentimento que exprimia apenas pela arte?
Era uma pessoa solitária. Foi criado pelos pais, que eram militares. Nasceu na Alexandria, no Egipto. Era filho único e uma vez, em pequenino, tinha três anos, saiu da cama e o pai foi encontrá-lo no deserto a enxotar abutres de cima de um burro. Acho que isso ficou-lhe. Depois veio para Portugal, está-se a ver… não era abutres nem burros, mas era uma coisa parecida.

 

Aqui também não faltam abutres…
Ó lecas!

 

Embora ele seja um artista desconhecido em Portugal, também há poucos que conheçam a sua obra em Inglaterra. Como se explica isso?
Porque ele morreu e expôs em várias galerias mas sem grande projecção. Era muito admirado por algumas pessoas, uma minoria. Depois morreu, e pronto. Por isso, fazer aqui a sua exposição é para mim muito importante. Uma das razões de ter esta Casa das Histórias foi ter a oportunidade de mostrar o trabalho dele, fazer justiça. Mostrar coisas tão estranhas, macabras, belas e originais. Admiro-o muito, ele ensinou-me tudo. E incentivava-me a fazer trabalhos mais políticos, por exemplo. Ele escreveu sobre mim melhor do que ninguém. Percebia muito bem o que eu fazia e ajudava-me muito. Quando ele estava já na cama, em casa, eu tinha um ateliê fora. Depois de fazer quadros grandes, enrolava–os trazia-os para casa, pendurava-os ao pé da cama para ele me dizer se estavam bem ou mal. Mas depois quando ele morreu, olhe, fiquei a fazer isto sozinha. É uma chatice…
A renovação da Casa das Histórias passa por outra exposição, em que mostra obras suas realizadas nos anos 70.
Uma vergonha! Uma porcaria… são coisas muito feias, muito esquisitas, uns desenhos a preto e branco que eu fazia… como a fantochada da corrida às urnas nas últimas eleições depois do Salazar. Para além dessas coisas políticas, há alguns desenhos sobre a casa da minha tia em Cascais. Alguns quadros eram mais abstractos mas todos contavam histórias.

Já não gosta deles?
Agora já não me importa tanto, já não tenho tanta vergonha de mostrá-los. A gente tem que tomar responsabilidade por aquilo que faz. São coisas más, mas a gente tem que trabalhar e continuar como pode. Se é uma vergonha, quem fez fui eu e não outra pessoa.

 

E nunca pintou por cima de nenhum?
Não, eu fazia tudo à mostra. Não escondo nada, as asneiras que fiz estão todas à vista.

 

Há algumas obras que se referem a contos tradicionais. Fale-me delas.
Isso foi uma daquelas coisas apoiadas pela Fundação Calouste Gulbenkian. Eu não tinha dinheiro nenhum e fui à Gulbenkian dizer que precisava de dinheiro e que não sabia mais o que fazer. Eles disseram para eu pensar numa ideia e então lembrei-me que gostaria de estudar os contos tradicionais portugueses e de outros países. A Gulbenkian atribuiu-me um subsídio todos os meses e eu fui para a biblioteca do British Museum, onde passei o tempo todo a ler livros antigos. Depois, fiz os desenhos que são ilustrações dos contos como a Branca Flor ou As Três Cabeças de Oiro. O Gato das Botas não é português mas podia ser… fiz isso e dei tudo à Gulbenkian. De facto, eu devo tudo à Gulbenkian, como muita gente neste país.

 

E há mais obras que possa salientar nesta mostra?
Há os bonecos que fiz, como a Princesa Grávida, por exemplo…

 

Há uma história muito engraçada, precisamente com essa Princesa Grávida, à porta da Galeria 111. Pode contar-nos?
Eu tinha feito um boneco de uma menina, uma princesa toda deformada, mas não era grotesca. Tinha umas bochechas grandes e uma barriga, porque estava grávida. Eu ia para a Galeria 111 expor aquilo e levava-a ao colo pela rua abaixo. Passou por mim uma mulher que gritou “ai, Nossa Senhora!!!” e benzeu-se. Pensou que era a sério (risos).

 

Esta nova temporada da Casa das Histórias Paula Rego é muito especial porque, para além de mostrar pela primeira vez a obra do seu marido, são expostas as obras dos dois no mesmo espaço. É como um reencontro?
É uma exposição única. Espero que venham cá pessoas de fora vê-la e depois quero levar a exposição para o estrangeiro. Ele merece ser mais divulgado porque a sua obra é muito moderna, não é datada. Podia ter sido feita há pouco tempo e isso é extraordinário. Fico muito contente de vir cá visitá-lo… a gente fica assim… não sei… talvez ele fale comigo. Se eu fosse bruxa….
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Paula Rego viveu desde os sete anos no Estoril e foi lá que o seu imaginário começou a florescer. Agora é em Cascais que encontra a sua segunda casa: a Casa das Histórias Paula Rego. O museu de torres altas da cor do tijolo, desenhado pelo arquitecto Eduardo Souto de Moura, abre as suas portas na sexta-feira. Miguel Matos foi recebido pela artista.

“Interessa-me aprender a desenhar melhor. É o que eu gostava, mas demora tempo e é preciso muito trabalho”, confessou Paula Rego à Time Out, como se tivesse ainda muito caminho por fazer. Na Casa das Histórias Paula Rego conta-se a história de evolução da artista e o processo de como ela chega à linguagem que tem hoje.

A Casa das Histórias Paula Rego é caso raro entre os museus portugueses. Setecentos e cinquenta metros quadrados pensados e concebidos desde o primeiro tijolo para instalar uma colecção própria. Ou seja, um projecto integrado que tem em conta a escala do país e da zona em que está inserido, nunca esquecendo a dimensão internacional da artista.
A colecção da Casa das Histórias foi toda ela doada por Paula Rego, que manifestou desde o início total disponibilidade e empenho no projecto. Ofereceu ao museu toda a sua obra gravada (ao todo são 257 gravuras, serigrafias e litografias), assim como centenas de desenhos e aguarelas que vão desde pequenos esquiços, esboços e estudos onde busca espontaneamente a forma e as composições. Para além disto, ainda emprestou por dez anos (renováveis por período idêntico) toda a sua colecção de pintura e desenho, com exemplares icónicos, anteriormente presentes nas retrospectivas de Serralves e Museu Reina Sofia de Madrid. “A colecção de Paula Rego permite mostrar todo o seu percurso criativo”, diz Dalila Rodrigues, directora do museu. “Por isso organizámos o percurso expositivo a partir de critérios cronológicos, cruzando temáticas e técnicas em salas sequenciais.”

Que história se conta nesta casa de altas chaminés? Tudo começa logo nos primeiros anos da pintora, com as suas primeiras colagens e uma abordagem quase abstractizante onde critica o Portugal salazarista dos anos 50 e 60. Passa depois para os anos 80 com as temáticas relacionadas com a sexualidade e uma agressividade muito perturbadora, narrativas interpretadas maioritariamente por animais como o leão, o coelho, o urso… São contos centrados em questões de dominação e poder no seio da família. “Em vez de se apropriar de imagens, mutilá-las e cortá-las como nas primeiras obras, ela regressa ao desenho, executado directamente sobre o suporte”, explica Dalila Rodrigues. “No seu percurso, ela vai passando gradualmente de um registo abstracto para o figurativismo realista. No final dos anos 80, na série de pinturas e gravuras Meninas e Cães, Paula Rego conquista a linguagem figurativa, a profundidade espacial e a mobilização de dispositivos que servem a sua principal finalidade: contar histórias.”

Já durante o período de formação na Slade School, em Londres, a jovem artista é muito clara na sua preferência pela linguagem figurativa. No entanto, devido à tirania do estilo, ser figurativo nos anos 60/70 era quase uma impossibilidade. Até ao final dos anos 80, Paula Rego faz uma progressiva libertação dessa tirania e embrenha-se na tarefa de ser contadora de histórias. A artista não se compromete com o questionamento da arte e suas linguagens, como os seus contemporâneos. “Paula Rego questiona a vida através das possibilidades conceptuais e formais da arte e não o inverso. E, com o intuito de contar histórias, reinventa a tradição figurativa e narrativa da pintura”, conclui Dalila Rodrigues.

Os sucessivos discursos, séries e técnicas que vai experimentando têm que ver com essa finalidade essencial. Ela vai adoptando técnicas que lhe permitem uma aproximação à história. “É na história que eu coloco toda a minha vitalidade”, disse a artista durante a montagem da exposição.

O museu assume uma grande presença da sua obra gráfica, muitas vezes relegada para segundo plano pelo público em geral. A colecção é maior do que aquilo que está à vista e por isso serão organizadas exposições fora da casa com as peças da colecção. Para além da exposição permanente, sujeita à rotatividade de algumas peças, como convém a um museu dinâmico, há lugar para exposições temporárias que mudam a cada seis meses. Para a inauguração, a mostra temporária será também ela dedicada a Paula Rego, com algumas das suas obras das mais importantes, peças de grande formato emprestadas pela Galeria Marlborough, que representa a artista em Londres. Depois disso, será a vez de apreciar a pintura do seu falecido marido, Victor Willing.

As linhas de orientação para a programação de exposições temporárias decorrem das questões artísticas que a obra de Paula Rego coloca. “Como Paula Rego é uma pintora narrativa, e como toda a tradição da pintura ocidental é marcadamente narrativa, teremos sempre exposições de grandes mestres antigos internacionais. É esta a vocação do museu”, revela Dalila Rodrigues.

Um espaço descontraído, informal mas cosmopolita. Vinda de fora, uma luz rosada penetra dentro do branco imaculado do interior enquanto as janelas abrem para o jardim. É o que nos espera nesta casa com auditório para 800 pessoas onde acontecerão regularmente ciclos de conferências internacionais que abordam as ligações entre as artes visuais, a literatura e o cinema. Haverá cursos e workshops intensivos em horário pós-laboral, com grandes especialistas internacionais. Há também uma cafetaria arejada e aberta para o frondoso jardim, a loja com merchandising e objectos inspirados na obra da senhora que dá o nome à casa, assim como peças que evocam as formas do trabalho de Souto de Moura. Nas estantes e vitrinas espreitam livros da livraria Galileu, objectos d’A Vida Portuguesa e jóias de Paula Crespo e Paula Paour. E para testemunhar a vida e obra do museu, serão lançados livros próprios: um catálogo da exposição temporária, um outro contendo a totalidade da colecção com reprodução de todas as obras e ainda um livro sobre o edifício. E isto é apenas o início da história…

Os quadros preferidos de Paula Rego, por si explicados

Pillowman, 2004

“Esta é uma obra inspirada na peça de teatro com o mesmo nome que eu vi em Londres e que me deixou muito emocionada. Gostei muito, mesmo. Então, transformei o cenário e transpu-lo para o Estoril. À esquerda vemos a menina que queria ser Jesus Cristo, por isso carrega a cruz feita com um escadote e uma trave de madeira. No escadote está pendurada uma borracha daquelas que as crianças mordem quando lhes estão a nascer os dentes. Tem a cadeira forrada com o mesmo tecido da cadeira do meu pai. É uma coisa muito pessoal, a mistura entre o pillowman e o meu pai. No centro, o que se vê ao fundo é a praia do Estoril. Tem presente o pequeno príncipe e o Saint-Exupéry que viveu no Estoril durante a guerra e que jogava muito no casino.

À direita, a menina fez uns bonecos com maçãs. Os braços são lâminas de barbear. As maçãs são para o pai comer, pois ela não gostava do pai. Ao meio deste quadro está a minha neta que serviu de modelo e o pillowman em baixo. O pillowman é um boneco que construí para servir de modelo, com collants, e tem um edredon por dentro.”

O Anjo, 1998

“É um anjo da guarda vingador, redentor e ameaçador. É o quadro de que eu mais gosto e que levo comigo quando morrer. É da série O Crime do Padre Amaro. Traz consigo os símbolos da paixão: a espada e a esponja. Nasceu, ganhou forma e sabe-se lá para onde seguirá. É cruel para as pessoas que são más e nos tratam mal mas é bom para as pessoas que nos protegem.”

Entre as Mulheres, 1997

“Gosto muito deste quadro, da série O Crime do Padre Amaro. Aqui, a personagem masculina está a fingir que tem nove anos porque aos nove anos vestiam-no de menina e davam-lhe muitas festinhas. Ele ficava todo contente. É o padre Amaro em pequenino, mas aqui vê-se um homem adulto porque o meu modelo era um homem.”

Time Out, Setembro 2009

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