
Aos 76 anos, Paula Rego apresenta novos caminhos dentro do seu percurso. Exposta actualmente na sua Casa das Histórias, em Cascais, Oratório é uma peça recente que cruza as linguagens da escultura com as da pintura. Juntar bonecos e desenhos foi a solução que Paula Rego encontrou para uma exposição sobre o abandono de bebés e a salvação dos mesmos. Inicialmente exposta no Foundling Museum, em Londres, esta obra mostra a crueldade e a caridade de mãos dadas. A morte a dançar com a vida em narrativas contadas pela artista. Aliás, contar histórias é o que Paula Rego sempre faz, como na outra exposição simultânea, paredes meias, intitulada “O corpo tem mais cotovelos”, em que se analisa a representação do corpo humano no contexto da sua carreira.
Segue-se uma pequena conversa em passeio pelas salas e corredores habitados por amores, lendas e medos.
O que é o Foundling Museum e de que forma o trabalho que apresenta agora se insere no contexto da actividade dessa instituição?
Na Europa,
havia uma roda nas igrejas, onde eram entregues as crianças que as pessoas não queriam, que não eram precisas. De um lado, punha-se o bebé recém-nascido e do outro lado havia alguém que tomava conta dele. Na Inglaterra, não havia a roda e a Igreja não se interessava por isso. No tempo do pintor William Hogarth, as crianças eram deitadas ao poço, eram mortas e as ruas de Londres estavam cheias de crianças mortas. O senhor Thomas Coram ficou muito impressionado com essa porcaria e resolveu arranjar dinheiro para construir uma escola para educar, tratar e tomar conta dessas crianças. Os bebés eram apanhados nas ruas e eram levados para o campo, para famílias que tinham outras crianças. Os bebés viviam aí os seus quatro primeiros anos como parte da família. Era talvez a melhor altura das suas vidas. Depois, vinham dessas casas para a escola onde tinham dormitório e aprendiam coisas. Quando acabavam a escola, as raparigas eram treinadas para serem empregadas domésticas e os rapazes para irem para os barcos. A escola era severa e tinha um aspecto de jardim zoológico. Por exemplo, as crianças estavam a comer e os habitantes de Londres faziam excursões para irem ver os meninos a comer como se fossem uns bichos estranhos.
Eles tinham uma casa muito bonita e Coram conseguiu arranjar dinheiro para continuar. Nessa altura, havia muitos artistas ingleses e ainda não existia a Royal Academy para expor. Assim, Hogarth fez um retrato maravilhoso do senhor Coram e expô-lo na casa. Outros artistas começaram a pensar em expor ali para ver se conseguiam vender alguma coisa. Assim foi, e o espaço começou a transformar-se numa espécie de galeria. O compositor Handel foi até viver para lá e compôs obras musicais. O Foundling Museum nunca teve ajuda do Estado nem da Igreja nem nada, apenas dos artistas. A coisa mais comovente é o facto de as mães, quando iam lá entregar as crianças, deixarem sempre lá qualquer coisinha da criança. Fosse uma pulseira, ou um brinco, um bonequinho… E esses objectos estão lá expostos. Quando fossem buscar as crianças, podiam levar as coisinhas, mas nunca iam lá buscar as crianças, coitadinhas.
Sim, é muito bonito.
E já se tinha lembrado de fazer um oratório ou esta peça surgiu depois do convite do Foundling Museum?
Eu já andava a pensar em fazer uma coisa no formato de oratório, mas quando surgiu esta oportunidade, achei que calhava bem. Ficou ao cimo de umas escadas. Era um sítio escuro, mas ficava bem ali. No entanto, aqui fica muito melhor porque vê-se tudo.
Foi horrível. Primeiro, eu não pensei em pôr desenhos. Eram só figuras. Depois, não sabia como havia de pôr os bonecos. Uns para cima, outros para baixo, até que decidi que precisava de um armário. Foi então que consegui e levou meses porque aquela mistura de coisas estava uma porcaria.
Há uma figur
a entre todas que é diferente…
A pretinha?
Sim, é a única figura perfeita entre todas as esculturas. Ao contrário das outras que são grotescas, esta é bonita. Porquê?
Porque não fui eu que a fiz.
É mais boazinha do que as outras?
Se calhar… É mais obediente.
Sim, começa com uma violação. Depois, há uma mulher a dar à luz ao luar. Há uma cena que diz respeito a uma coisa que faziam lá, que era cortar os cabelos às meninas assim que chegavam. Depois, ali está uma mulher a dançar com a morte.Pode explicar em que consiste cada uma das partes deste oratório? Começa com uma violação, não é?
No entanto, ela parece estar com uma expressão apaziguada…
Sim, claro. A morte às vezes é consolo, não é? Depois, mais ali ao lado, está uma imagem com um bebé pendurado que é como aquela famosa fotografia do Michael Jackson… Ali, estão a deitar os meninos para dentro de um poço. Aqui no meio, estão as figuras. Ao centro, é a minha filha Carolina, à direita, é a minha prima Manuela. Aqui, é um puto que está a mamar. Não era permitido que os meninos tocassem uns nos outros. À noite, eles choravam nas camas e esta menina deixava-os chupar na maminha para lhes dar conforto.
É uma avó! É uma velha.
Parece uma pietà…
Exactly.
Pois. É triste. É a mesma coisa, os velhos a morrer na rua. Deixam-nos abandonados em casa. E há lares que são de uma crueldade espantosa. O tormento que fazem aos velhos em alguns lares em Londres é horrível. É maldade.
Neste oratório, fala de duas fases de fragilidade na vida em que a crueldade acontece.
Absolutamente. É simples, mas levou meses a fazer isto. Ainda pensei em fazer uma estrutura de confessionário…
O que não deixava de ser interessante, explorar e espreitar o local onde os pecados são despejados…
Tinham de ver-se os pecados! E através da rede, veríamos o padre rodeado de demónios. E de meninas, o que era bem bom! Ou de meninos, sobretudo, que eles gostam muito.
Mas, voltando ao Oratório, que é a peça que está à nossa frente, há aqui uma presença repetida da figura de uma senhora desfigurada que é a morte… É um dos seus medos?
Eu tenho muito medo. Gostava muito de me ver livre do medo, mas não consigo. Desde pequenina, é uma coisa que me veio desde os tempos da Mocidade Portuguesa, onde só me contavam histórias horríveis. Eu ia para casa e ouvia a morte a descer pelo corredor abaixo. O que eu aprendi na Mocidade Portuguesa foi o medo. O medo que faz a pessoa ficar fria, esconder-se e fazer tudo para ver-se livre dele sem conseguir. Até o meu querido amigo poeta Alberto Lacerda disse uma vez num jornal que eu dava cara ao medo.
Mas com a idade esse medo não se dissipa?
Há épocas em que melhora, mas depois volta outra vez. É uma desinquietação horrível. Mas esta obra não é acerca do meu medo.
Em volta do Oratório, há várias obras onde se representam cenas de violação, de masturbação, mulheres que deitam bebés a um poço. A personagem que deita os bebés ao poço é oriunda de uma lenda da tradição portuguesa, não é?
Sim, é a Maria do Gancho, que está no fundo do poço e puxa as crianças para baixo. É preciso ter cuidado com ela, era o que as mães diziam aos filhos, para não se aproximarem dos poços. Para desenhar estas obras, fiz um poço lá em casa e trabalhei com modelos e bonecos feitos por mim.
É porque se essas coisas se dão a ver ficam vivas, não é?
A outra parte do programa expositivo intitula-se “O Corpo tem Mais Cotovelos” e tem que ver com os ângulos e as esquinas que dificultam a representação do corpo humano. Como é que desenvolve a sensibilidade e a técnica para desenhar a figura humana?
É olhar e copiar. Ao princípio não é fácil, mas vai com o tempo. Ainda não consegui aperfeiçoar isto na totalidade, mas continuo a aprender.
A mostra inicia-se com um conjunto de esboços e estudos. Ainda os executa antes de realizar uma obra?
Sim, mas já não preciso de medir as proporções. Já aprendi a fazer à vista.
Porque é que nas suas obras as mulheres vestem sempre roupas de outra época, trajes vitorianos?
Muitas coisas são do século XIX porque são fatos da minha avó. Alguns também compro.
Tem medo das personagens que pinta?
Não. São todas a Lila [modelo co
m que a artista trabalha há muitos anos], não tenho medo dela.
Quando era criança, alguma vez lhe contaram uma história que a tenha perturbado realmente?
Então, na Mocidade Portuguesa, como lhe disse. Uma das histórias era assim: nós tínhamos uma lareira e diziam-nos que se começássemos a olhar para as chamas víamos a cabeça do diabo. E depois, quando íamos para a cama, diziam que era melhor deixar a porta fechada ou aberta. Nunca se devia deixar a porta entreaberta. Eu fui para a cama e pouco depois oiço passos no corredor. Passos, passos, passos, passos… A porta do meu quarto abre-se e entra a morte. Era um esqueleto vestido de morte. Eu levanto-me da cama, saio a correr e vou para o quarto dos meus pais que era mesmo ao lado. Meti-me na cama com eles, encostei-me à minha mãe e a morte entrou atrás de mim e deitou-se na cama connosco. Ainda hoje essa história me causa pavor. Nunca mais me esqueci.
Sempre que faz uma visita a uma exposição sua, mesmo que seja uma apresentação à imprensa, acontece um momento de misticismo. A Paula vai à frente e a segu
ir há como que uma procissão de pessoas que a seguem como se fosse uma papisa, que se assombram e fascinam com tudo o que diz, que ficam em silêncio como numa igreja e comentam baixinho umas com as outras as suas frases. Já se apercebeu disto?
Há pouco tempo, na inauguração da exposição do Porto, uma pessoa disse-me assim: “Eu gosto muito de si. Até gosto mais de si do que do seu trabalho!” Fantástico, não é? [risos]
A Paula continua a trabalhar muito. Não se cansa?
Canso-me muito e trabalho muito. Como é que eu ganho a vida sem trabalhar? E estou sempre à espera de fazer coisas melhores, de ficar melhor naquilo que faço, mas não consigo! É uma pena. Com a idade, não fiquei melhor, fiquei diferente.
Miguel Matos
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