— Folha de Sala

Arquivo
"museu berardo"

No Museu Berardo, Rui Chafes e Orla Barry apresentam até 21 de Agosto a exposição a quatro mãos “Five Rings”. Num percurso pensado como uma sucessão de encenações dentro de uma galeria cavernícola, as peças em dueto encaminham o visitante na exploração da palavra dita, desenhada, esculpida… Um projecto que demorou dez anos para se ver concretizado e que culmina na última sala com a simbiose perfeita dos dois artistas numa instalação capaz de provocar um estado de transe. A Artes & Leilões entrou no mundo das ideias e do ferro de Chafes.

Um dos aspectos que atravessa o seu trabalho é a relação directa com um corpo. Mas é uma relação feita através de um vazio, de uma impossibilidade. Trata-se de um corpo impossível?

A escultura não é um corpo, mas é sobretudo um paradoxo em si porque é a demonstração de uma impossibilidade. Eu não acredito no objecto. Não acho que o objecto seja o fim em si mesmo. Nesse sentido, a escultura relaciona-se com a perda, com a ausência, com o lugar não habitado, mas sobretudo por eu não acreditar no objecto como insubstituível, irreparável, incontornável… No entanto ele é a única possibilidade que nós temos para demonstrar uma ideia.

É uma escultura orgânica?

Se calhar é mais óssea. Tem a ver com o lugar do corpo enquanto espaço efémero, espaço mutante em que já não existem distinções. É como uma carapaça ou um esqueleto que fica a substituir um corpo.

São esculturas como receptáculos “activos”, ou seja, estão à espera de serem usadas, activando uma relação com o espectador mesmo que este não as habite fisicamente?

O meu trabalho é a realização de um espaço utópico que nunca é preenchido. Existem excepções, como foi o caso da obra realizada em colaboração com a Vera Mantero. Nessa obra, o espaço utópico foi violado. Se correu bem ou mal não sei, mas para mim foi importante. Foi precisamente o momento em que publicamente, e de forma irreversível, eu ocupei esse espaço. Por outro lado, a Vera não tem corpo. O corpo dela é uma escultura, uma energia, uma sabedoria, uma consciência. A maior parte das pessoas que vêm o meu trabalho não se apercebe da sua relação com o corpo. Nesta exposição há a peça Three sisters listening to the sound of the earth moving through their bodies com as medidas exactas das bacias das irmãs da Orla Barry. É uma ficção que parte de coisas concretas como as medidas de um corpo.

Já realizou exposições com Fernando Calhau, Vera Mantero, Alberto Carneiro, Orla Barry… O que é que acontece quando trabalha em colaboração com outros artistas? O seu processo criador transforma-se?

É como ir a andar e passar ao pé de abismos. Georg Büchner dizia que cada ser humano é um abismo. Quando nos debruçamos sobre ele temos vertigens. Se eu vou trabalhar com um artista estou a aproximar-me muito desse abismo. Tento sair de lá sem cair.

E sai-se o mesmo após contemplar o abismo?

Nunca se sai o mesmo. Avanço para outras coisas, abro outras portas. Transformo-me, altero-me. Se fosse para ficar na mesma não valia a pena.

Há uma disrupção que permite ao público olhar para a obra de cada artista de uma outra forma…

A questão dos públicos é muito curiosa porque dois artistas têm dois tipos de público diferentes. Quanto mais afastadas forem as suas áreas, mais afastados são os públicos. As experiências que tenho feito dividem muito os públicos. Por exemplo, quando trabalhei com o Pedro Costa havia um público do cinema e outro das artes plásticas, que nunca se tocam. Com a Vera Mantero havia a divisão entre o meu público e o público da dança e da performance. Poucas pessoas conseguem ter a elasticidade para entender as ligações. Nesta exposição há de novo um teste a essa situação e na sala final já não dá para separar as partes, é uma obra única composta pelos vários elementos e em que as valências de cada artista estão condensadas num só resultado.

Os seus trabalhos têm títulos que acrescentam significados. Nas obras de Orla Barry a própria palavra é objectificada e mostrada. Isto torna mais visível aquilo que sempre esteve presente?

Penso que sim. Esta exposição é sobre palavras – escritas, faladas… as palavras dão nomes às pedras e aparecem nos desenhos, nos vídeos… Todas as peças têm títulos e aqui a palavra tem tanta importância como tudo o resto. A matéria do meu trabalho é ferro e palavra. O poder da palavra é muito superior ao da imagem. Uma palavra pode salvar ou pode matar.

Os dois artistas já tinham trabalhado anteriormente. Como é que começou esta exposição que agora vemos, de que ideia partiu e como se desenvolveu a nível conceptual.

Isto foi uma feitiçaria… Fizemos o primeiro trabalho há dez anos na altura em que nos conhecemos, aquando de uma exposição na Bélgica que juntava poesia e artes visuais. Ficámos interessados no trabalho e na personagem um do outro. Quando fizemos a primeira peça em conjunto, começámos imediatamente a pensar num segundo trabalho que é, no fundo, um projecto imparável.

Foi um trabalho sem objectivo definido, como uma relação à distância que no fim poderia ou não ter uma apresentação?

Sim. Durante esses dez anos trocámos cartas, e-mails, faxes, telefonemas, encontros… e desenvolvemos muitos projectos, mas o essencial está aqui. A questão do tempo é essencial, porque há uma diferença gigantesca entre fazer uma exposição num mês ou em dez anos. Nesse período, uma série de dúvidas e certezas vão amadurecendo. Quando há dois anos fomos convidados por Jean-François Chougnet para fazer uma exposição no Museu Berardo, pegámos em todo o material que tínhamos e começámos a adaptá-lo às salas. Escolhemos estas galerias porque são um espaço claustrofóbico, sem janelas nem luz natural, com um tecto baixo. Queríamos espaço fechado e intimista.

Entendo as suas esculturas como estando relacionadas com a linguagem e função da joalharia contemporânea, sendo que o que define esta é, acima de tudo, a relação com um corpo ou a alusão à existência desse corpo. Isto acarreta noções de escala e aplicabilidade ou não das peças, para além de características ritualísticas. O seu trabalho funciona também nestas dimensões. Concorda a associação?

Acho que as palavras têm sempre raízes e essas raízes têm a ver com a nossa História. A escultura também tem várias raízes, naturezas e finalidades. Existe a escultura monumental, que não tem forçosamente a ver com a escala, mas sim com o seu propósito. A ideia de monumento tem a ver com uma colocação estática e com a polis. É uma escultura pesada, mesmo que seja pequena. Não se move, é monolítica. Há vários outros tipos de escultura, entre eles a escultura bárbara, que é a que me interessa. A escultura bárbara é nómada. É a faca que se transporta, o colar, a jóia, o ornamento. As minhas esculturas estão mais próximas dessa flexibilidade. Mesmo as obras de maior dimensão obedecem a uma lógica nómada, de leveza, de instabilidade, de transporte. As minhas esculturas são, de facto, próximas da joalharia, não pela sua utilização mas pela família a que pertencem – a família do ornamento bárbaro. A joalharia também é nómada e se guarda e é preciosa ao nível simbólico e material. Mas a escala e a proporção são diferentes.

Disse já várias vezes que acredita que a obra de arte tem um poder transformador. Não será uma ideia amplamente partilhada pela maioria dos artistas contemporâneos. Em que sentido a obra de arte ainda pode ter esse poder na vida, no pensamento e na cultura?

Se não tiver esse poder transformador não é arte, é outra coisa qualquer… A arte tem de ser capaz de transformar o olhar ou a vida de quem a observa. Não há arte sem transformação, é a transformação de uma coisa em outra.

Por isso não há arte que seja natural…

Sim, não há arte natural. Essa transformação não é magia. É a disciplina que o artista conseguiu para, com a sua experiência e o seu conhecimento, colocar os objectos que faz num plano semântico, simbólico, metafórico e metafísico, que muda alguma coisa nas pessoas. O mundo está cheio de objectos, não é preciso haver mais. A arte que é só uma ideia gira baseada em brincadeiras e gadegts não interessa. Um exemplo de um artista que consegue inverter o mundo e transformá-lo com uma pequena escala e poucos recursos é o Francisco Tropa. Ele trabalha genialmente o mundo dos pequenos nadas. Não é magia. É uma consciência muito apurada.

Os seus trabalhos de escultura impõem uma presença como entes ou presságios. Os ingleses têm a palavra “Omen”, que acho muito adequada…

Eu sei que é muito difícil escrever sobre o meu trabalho porque não existe nada parecido com ele. Portanto, não há muitos referentes conhecidos para começar a construir um discurso. Os pressupostos do meu trabalho estão ancorados em muitas coisas diferentes com distâncias no tempo e no espaço. De facto, são entes ou presenças. É um trabalho que cria uma relação obscura e ambígua com as pessoas. Eu próprio às vezes não o compreendo. Há casos em que só passados anos é que compreendo porque é que fiz determinada peça.

Trata-se de uma obra que não se deixa conhecer por completo. Há um lado enigmático. através do qual se opera um impacto no espectador.

Concordo. É um trabalho que oferece muitas resistências porque é misterioso. É muito mais da esfera do irracional do que do lógico.

Pratica um radical afastamento do lado mais mundano da arte e considera essa distanciação essencial para a sua vida e para o seu trabalho. Porquê?

Faço uma separação muito grande entre o que é a arte enquanto trabalho de pesquisa, investigação e experiência, e a minha vida. Não misturo as coisas. Essa ideia de o artista estar retirado do mundo é, para mim, essencial. Não quero nem preciso de publicidade. Ao contrário de outros artistas, recuso falar para a televisão, recuso retratos, recuso todo esse tipo de promoção e sou muito criterioso nas entrevistas. Vivo uma vida reservada, longe das imagens públicas, e assim quero continuar. Para mim a única coisa que conta é a obra, a escultura, o seu poder evocativo nas pessoas. Tudo o resto, todo o esforço de espectáculo e imposição social, é efémero e prescindo dele. É uma questão de higiene mental e emocional.

Ler Mais / Comentar


A Artes & Leilões conversou com Pedro Lapa semanas depois de este ter assumido o cargo de director artístico do Museu Colecção Berardo. Lapa sucede assim a Jean-François Chougnet que, por razões pessoais, abandonou a posição que ocupava desde a inauguração do museu. Sendo demasiado cedo para concretizar um programa museológico, o antigo director do Museu do Chiado revela algumas das suas ideias sobre o sistema artístico português e sobre a sua linha de pensamento acerca do lugar e da função de uma instituição como esta. A promoção de novos artistas e a internacionalização do museu são os pontos centrais da sua visão.

Foi afastado da direcção do Museu do Chiado no final de 2009, tendo sido substituído por Helena Barranha. Como avalia a actividade do museu desde a sua saída até agora?

Tem sido uma actividade intensa e de qualidade. Devo louvar essencialmente a realização do projecto que tinha deixado desenhado na altura. Eu também vou cumprir a programação feita por Jean-François Chougnet até 2012 e é assim que tem de ser. Gostaria ainda de salientar um outro aspecto: foi muito gratificante entender que houve continuidade e aprofundamento de um conjunto de projectos, como, por exemplo, a publicação de três volumes do catálogo do Museu do Chiado, cuja edição eu coordenei. É muito importante que se perceba que antes das pessoas está a própria instituição. As transições têm de ser feitas tendo em conta todo o trabalho que foi realizado e as possibilidades que há para aprofundar e corrigir o mesmo.

Muitas vezes há a tentação de mudar tudo de acordo com a cabeça de quem chega à direcção, o que dá lugar a confusões e a rupturas constantes…

É verdade. Desde que trabalho nesta área assisti já à passagem de muitos ministros da Cultura e na maior parte das vezes vejo situações indignas em que não se dá importância às conquistas conseguidas que podem não dar frutos imediatamente, mas em que, com a sua continuidade, estes aparecem. A questão da tábua rasa é compulsiva na cultura portuguesa. Já o José-Augusto França, no final dos anos 50, escrevia um artigo importante sobre isso com o título “A lei do eterno recomeço”.

É agora director artístico do Museu Berardo, num local onde trabalhou há mais de 15 anos como conservador do Centro Cultural de Belém. Que diferenças encontra entre esses tempos e hoje?

Para além de o edifício ser o mesmo, uma parte da equipa é a mesma, mas mais completa em recursos humanos. Éramos poucos, num espaço gigantesco e com a urgência de programar a totalidade desse espaço com grande brevidade e sem uma colecção. Houve meios financeiros e tivemos um trabalho descomunal. Era um tempo diferente no contexto artístico nacional. Em meados da década de 90, havia todo um tipo de grandes alterações a decorrer nas práticas artísticas internacionais, depois de um período mais convencionalista que dominou uma parte significativa da década de 80. Havia essa emergência de dar a conhecer o que se estava a fazer e o que procuravam os novos artistas. Esses anos foram muito importantes na museologia portuguesa. Foram criadas várias instituições mais viradas para o domínio contemporâneo como a Culturgest e Serralves, reconstruiu-se o Museu do Chiado… As principais instituições emergiram nessa altura, com excepção da Fundação Calouste Gulbenkian, que já existia. Era preciso dar a conhecer o que se fazia lá fora, que ainda era um mundo distante.

Mas esse paradigma mudou bastante…

Há uma significativa diferença na circulação da informação. Hoje, as viagens e a Internet são coisas diferentes daquilo que eram há 17 anos. As coisas alteraram-se. Houve muitas exposições que criaram públicos novos, mas esse trabalho ainda está no seu começo. Quando nos comparamos a outros países europeus, se olharmos para o tecido institucional que esses países têm e há quantos anos o público visita exposições de arte moderna e contemporânea, falamos de um século. Nós não temos isso. O que se construiu nestes anos foi uma regularização das instituições, das práticas artísticas, dos públicos e da crítica, que entraram num sistema mais complexo, característico dos países europeus…

Fala da crítica, mas ela foi desaparecendo e definhando cada vez mais na comunicação social até chegar aos dias de hoje com um espaço reduzidíssimo, com revistas da especialidade a fechar e com fortes casos de censura até nas publicações generalistas que ainda possuem secções de arte. Ao mesmo tempo que as instituições se consolidam e os públicos se solidificam, o sistema falha quando se chega à crítica e à divulgação da arte contemporânea…

Nos anos 80, a crítica de arte no Expresso chegava a ocupar cinco páginas. A mesma exposição chegava a ser criticada por três pessoas diferentes. Nessa década, que teve também o seu boom na arte contemporânea, verificou-se a importância do trabalho das galerias – visto haver falta de instituições – e também do papel de alguns críticos. O curioso é que se criou um hábito em Portugal, que passou para os anos 90, em que toda a crítica de arte era feita em jornais generalistas. Além do Expresso, eram importantes os textos de António Cerveira Pinto n’O Independente. Quando este boom institucional de 1995 começou a funcionar, apareceram revistas especializadas como a Artes & Leilões. Por outro lado, fez-se um erro colossal que foi acabar com a Colóquio Artes. Isso foi terrível porque era uma revista menos submetida à emergência das situações e tinha um domínio reflexivo, com um manancial histórico e de qualidade. Apesar de tudo, as revistas de arte não conseguiram subsistir. A Artes & Leilões ficou parada e apareceu a Arte Ibérica que também não sobreviveu…

E recentemente o fim da L+Arte… As próprias instituições que lidam com a arte contemporânea não valorizam as publicações que lhes dão apoio editorial… Não existe a consciência de que a revista de arte ajuda à consolidação do mercado.

Obviamente. Isso é uma situação inquietante e estranha que me incomoda seriamente.

São complicadas as relações entre os museus, as galerias, as revistas e os próprios artistas… Todo o sistema da arte em Portugal é desconexo…

Muito desconexo… porque é muito parcelar. Muitas vezes não há a capacidade de articular diferenças. Está tudo muito territorializado de forma medieval. De qualquer modo, é extremamente inquietante que isto aconteça, mesmo no momento de maior boom artístico português, no princípio da década de 2000, quando os agentes especializados internacionais começaram a olhar para Portugal. É preciso ver também que muitos artistas começaram a ter catálogos com um texto de apresentação da sua obra, mais até do que aquilo que era habitual noutros países. Até 2005, quase todos os artistas portugueses tinham catálogos editados. No entanto, a crítica não acompanhou de forma satisfatória este movimento. A crítica, de forma geral, envelheceu muito e ficou presa a modelos de outros tempos, mas ao mesmo tempo dominando os lugares principais. Os jornais mudaram completamente a sua configuração e iniciaram um processo de dieta do trabalho da crítica. Há outra chave da equação com que estou preocupado e à qual me tenho dedicado: o ensino da arte contemporânea ao nível universitário é extremamente deficiente. Não existem especializações em arte contemporânea a partir do pós-guerra. Na Universidade de Letras, onde sou professor, estamos a construir o curso de História de Arte em que todo o século XX é pensado em termos nacionais e internacionais até à actualidade. Mas isto é muito tardio. Não tem havido no ensino superior a capacidade de perceber essa profunda ausência de conhecimentos. No entanto, é este contexto que dá conhecimento, valor e capacidade de argumentação aos críticos de arte. Muito do que aparece hoje é feito de uma forma autodidacta ou através do ensino exterior ao país. Depois, subsiste o problema da falta de público. Porque é que o público não compra revistas de arte contemporânea? É profundamente estranho.

Parece-me que a censura operada nas secções de arte, em nome do desinteresse do público, soa a desculpa para um bloqueio ideológico ao pensamento crítico…

Concordo e não creio que as coisas tenham de ser assim. A ideia comum de que uma arte difícil traz menos público tem-se revelado nefasta para o que deveria ser uma visão estratégica do país. Portugal não tem valor significativo em termos culturais no contexto europeu no que diz respeito ao século XX. A possibilidade de Portugal se afirmar internacionalmente não está em recorrer ao passado e mostrar ao mundo que este está esquecido dos feitos dos portugueses. Penso que substituir isso ao nível do entretenimento mais rasca continua a ser uma péssima opção. É fundamental perceber que o país tem de se impor estrategicamente no mundo. E para fazê-lo só tem possibilidade através dos valores emergentes. O mundo está sempre desperto para o presente e não a dormir no passado, ao contrário do que tem acontecido com Portugal. É aí que há lugar para a afirmação da cultura portuguesa e por isso há que investir fortemente nas franjas emergentes para ganhar uma posição internacional. É natural que estas propostas não sejam as mais fáceis para um público menos familiarizado. Mas se continuamos a responder a isso, contribuímos para o atraso. A ausência estratégica de investimento nos novos valores é inquietante. Estar sempre a rememorar o passado, apesar de também ser importante, não pode ocupar completamente as actividades. As instituições têm de ter um sentido proposicional e criar laços de relação, de troca, com outros congéneres que actuem como plataformas de lançamento, reconhecimento, circulação, crítica e debate sobre a prática artística actual.

O apoio à criação emergente é assim uma questão central nas suas ideias para o futuro do Museu Colecção Berardo…

O Museu Berardo tem uma grande colecção, o que foi central neste processo de transformação da arte portuguesa e do coleccionismo. É a maior colecção de arte moderna e contemporânea internacional que o país tem disponível e serviu até de exemplo para outras que vieram a aparecer posteriormente. É um bem precioso e único que tem de ser estimado, trabalhado e reflectido, o que representa um grande eixo da programação desta casa. Há muito da colecção por ver, rever, organizar. Por outro lado, não podemos alhear-nos do presente e do papel proposicional que uma instituição destas pode ter. Isso está consignado nos próprios estatutos: o apoio à internacionalização dos artistas portugueses. A minha ideia é criar um espaço próprio, dentro do museu, que funcione como uma zona para práticas emergentes e exposições organizadas com outras instituições e curadores internacionais. Depois, haverá um outro tipo de exposições temporárias, de carácter retrospectivo e complementar da colecção que podem trazer grandes nomes do passado ou do presente numa perspectiva mais monográfica.

O mercado que rodeia e manipula os artistas emergentes e a sua criação é muito pequeno e está muito sujeito a divisões. A atenção dos principais curadores e directores artísticos não se concentra nos artistas, mas sim nas galerias mais poderosas. Concorda?

Bem, eu nunca poderia concordar com uma situação dessas, mas é verdade que as tenho observado. O problema que aqui subjaz é a forma como os modelos mercantis da modernidade tomaram conta de todos os actos de significação da vida quotidiana. Mas isso é um problema profundo que só pode implicar uma reflexão crítica bastante radical.

A respeito da projecção internacional da Colecção Berardo, como pretende concretizá-la?

A colecção é objecto de vários pedidos de empréstimo e é referenciada como um museu com obras significativas e importantes para exposições internacionais. Para além disso, tem um papel importante para o país. Se não for aqui, não há outro local para ver um Magritte, um Max Ernst ou um Andy Warhol. A apresentação da colecção noutros lugares é importante, mas acho fundamental que ela sirva Portugal. A internacionalização tem mais que ver com a tipologia das exposições temporárias que podem colocar o museu num contexto internacional de reconhecimento e isso consegue-se com uma programação de qualidade, com boas ligações a outras instituições e com a capacidade de construir um diálogo com essas redes.

Até 2012 vai cumprir o programa já estabelecido pela direcção anterior, mas pode já adiantar algum projecto seu para o futuro?

Ainda é muito cedo para falar nisso. Tenho muitas ideias e projectos que gostaria de realizar e que penso terem cabimento aqui, mas não tenho nada estabelecido de uma forma estruturada e aprovada pelo conselho de administração.

 

Miguel Matos

Ler Mais / Comentar

<!– @page { size: 21cm 29.7cm; margin: 2cm } P { margin-bottom: 0.21cm } –Depois de Paula Rego, Cabrita Reis e Julião Sarmento, Joana Vasconcelos é dos poucos artistas portugueses a chegar ao leilão da londrina Christie’s. Ela é para uns a heroína da arte contemporânea portuguesa, para outros uma criadora comercial perdida no pecado da celebridade. Esta bipolaridade estará à vista de quem quiser apreciar ou julgar na exposição “Sem Rede”, que reúne as principais obras do seu percurso.

Com 15 anos de carreira já és considerada a artista mais importante da tua geração e a primeira a ter uma exposição antológica num grande museu. Consideras-te um caso único?

A minha geração é a do Alexandre Estrela, do Rui Toscano ou do Noé Sendas. Mas é uma geração que não tem muitas pessoas. Há outras mais ricas, como a do João Pedro Vale, da Filipa César ou do Vasco Araújo, cinco anos mais novos. São grupos diferentes. Passando esse factor, há um outro importante: nas carreiras artísticas determinam-se alguns períodos. Costuma-se falar dos primeiros dez anos de existência. Se resistires a estes, já é uma vitória, mas a verdade é que a este período resiste muita gente porque a malta é nova e despreocupada, está cheia de pica e aguenta-se. Depois começam os primeiros encargos familiares ou laborais, apanham o primeiro embate do mercado. Com essas responsabilidades, metade deles desiste até aos 15 anos de trabalho. Daí para a frente já só ficam aqueles que na verdade têm alguma hipótese. Normalmente, a exposição que estou a montar só se faz aos vinte anos de carreira. É a consolidação. E só se faz uma exposição destas aos 20 anos porque só então é que tens quantidade de obra para o fazer e provaste que estás cá para ficar. Eu comecei a expor em 1994. Se contares até 2010, são 16 anos. No entanto, ao contrário de outros, eu tenho mais quantidade e qualidade de obra. Consegui fazer mais obra em menos tempo e por isso posso fazer aos 38 anos o que devia fazer aos 43. Mas isso não faz de mim melhor ou pior do que os outros artistas da minha geração.

A verdade é que em Portugal nunca se faz uma contextualização histórica da nossa arte. Parece que os novos artistas apareceram de repente… Onde estão os fundadores da arte contemporânea portuguesa?

Portugal não é bitola neste campo, porque em Portugal nunca se faz nada como deve ser, com princípio, meio e fim. Se te posicionares num ponto de vista internacional, o que eu estou a fazer é normal. Vamos andar para trás… Portugal tinha uma lacuna muito grande em termos de dar valor aos seus artistas e contextualizar o seu meio cultural num sistema internacional. Quando se percebeu que isto era uma grande bagunça, viu-se que não se tinha dado valor a uma grande geração que tinha sido omitida do panorama internacional, como o Noronha da Costa, o Júlio Pomar, etc… Como era uma geração de ditadura, apagou-se. A arte portuguesa só existia do Julião Sarmento para a frente. Quando se percebeu esse erro histórico, houve várias iniciativas em todos os museus para recuperar um passado perdido, uma malta muito boa que se tinha apagado. Elegeu-se então a Helena Almeida como um bom exemplo. Ela, que fora muito mal tratada e esquecida, foi recuperada. E isso aconteceu não porque toda a gente virou santinha. É que para te inscreveres no mercado internacional, tens que ter história. Foi assim que Helena Almeida se tornou a estrela principal desse grupo, tal como aconteceu com o Júlio Pomar. Toda a gente dizia mal dele, mas depois, quando se percebeu que havia um gajo com 80 e tal anos a produzir, de repente, antológicas do Júlio Pomar havia todos anos. A Lourdes Castro é o fado português: toda a gente achava que ela é que era a nossa grande artista e, depois ela pira-se para a Madeira, xau bye bye. Por causa destas coisas é que se fez a exposição “Anos 70” há pouco tempo na Gulbenkain, porque esta geração está a desaparecer e o vazio é notório. Mas aquilo é apenas para limpar a consciência, devia haver agora uma série de exposições à séria. A coisa é muito grave… nessa recontextualização, de repente percebe-se que não havia uma colecção de arte contemporânea, como agora há a colecção Berardo que tem um papel importantíssimo, dando à capital uma noção internacional. Aparece também o Centro de Arte Manuel de Brito, com a colecção da Galeria 111 para contextualizar essa geração.

Mas vontando ao presente… O facto é que nenhum outro artista português tem no seu atelier uma empresa, uma máquina montada como a tua. Até trazes as tuas próprias gruas para o museu… Não te limitas a produzir objectos, tens todos os departamentos sob a tua alçada.

Isso é porque o país está diferente, mais aberto, mais democrático. Tenho vindo a descobrir que há outros artistas com tanta energia como eu. E se a Paula Rego, a Graça Morais ou a Graça Costa Cabral tivessem tido as mesmas condições que eu tenho hoje, não tenho dúvidas que elas fariam as coisas como eu faço.

No entanto, nenhum artista da tua geração consegue ter um sistema tão forte…

Se viermos para o nosso tempo, esta geração sofre de um mal terrível. O Alexandre Estrela foi para Nova Iorque. Quando voltou, já não sabia onde estava, foi dar aulas. O Noé Sendas é o profissional das bolsas que já nem sabe de que país é. O Rui Toscano saiu da ESBAL, foi parar a uma grande galeria e agora está com o problema de atravessarmos uma crise que nos toca a todos. Depois tens-me a mim que não fiz nada dessas coisas. Fiz uma coisa mais maluca: não fui para fora nem me liguei aos lobbys, sou a independente.

Pois, porque te recusas a ficar ligada a uma galeria em exclusivo…

É preciso explicar que eu estive uns tempos na Galeria 111. Foi lá que me apercebi das gerações anteriores de artistas. Quando eu estudava no Ar.Co era-me dito que dali para a frente é que é bom. Na 111 diziam-me que dali para trás é que era bom. Foi muito engraçado: no Ar.co vi uma cena e quando entrei para a 111 é que vi o resto do filme… a minha cultura nacional ficou mais completa. Na 111 aprendi a respeitar a Graça Morais e no Ar.Co aprendi a respeitar a Ângela Ferreira. Todos constituem uma rede importante que é a nossa cultura.

E isso tem a ver com o teu envolvimento na salvação do Museu de Arte Popular…

Está tudo interligado. Eu aprendi a dar importância a uma coisa maior do que o artista. Quando eu percebi que a cultura portuguesa ia desde o Bordalo Pinheiro até à Susana Anágua, percebi que temos que respeitar todos, cada um no seu papel, nesta rede de croché que é a cultura. Como é que queres que as pessoas venham ao Museu Berardo e entendam a arte contemporânea se não podem passar primeiro pelo passado cultural português? Como é que vão entender isto, se não forem ver as rendas de bilros e as coisas todas do nosso artesanato? Por isso é que eu luto pelo Museu de Arte Popular. Para eu ter evidência no estrangeiro as pessoas têm que entender o meu país. Tudo tem importância para que a nossa cultura seja mais forte.

A tua obra é muito apelativa. Mas, para além do espectáculo visual, há uma componente de crítica à sociedade de consumo muito presente. Achas que as pessoas atinge essa camada de significado?

A criação já não está só nas artes plásticas. Está nas mãos dos designers, dos publicitários, da moda, da joalharia, do cinema, etc. Portanto, os artistas plásticos que estavam na sua redoma, passaram a ter que lidar com um mundo de criação muito mais aberto e vasto. A concorrência hoje em dia é feroz. Aprendi com o design e com a moda a valorizar o primeiro olhar. Isto tem a ver com a contemporaneidade. É a televisão e a publicidade que fazem isto. Tens que captar o olhar das pessoas em 30 segundos: é o chamado first glimpse. Não sou eu que fiz isso, é o mundo que está assim. E eu só olho para o mundo e digo: “Ai é para o first glimpse? Então espera aí que eu também sei fazer”. Porque eu, como artista plástica, tenho obrigação de captar as ideias contemporâneas e aplicá-las às artes. Quando olhas para as minhas peças, elas causam-te um impacto. Depois, a seguir, se tiveres pachorra, vais por-te a pensar. Mas a sociedade de consumo está estruturada de tal maneira que tu tens de consumir antes de pensar. Eu só apenas uma tradutora disso.

Queres dizer que é uma arte democrática e inclusiva? Serve para todos?

Sim, é democrática, mas particular. Se fores um curador podes até analisar o meu trabalho e escrever 50 catálogos à volta de uma peça, mas se fores a senhora da limpeza e quiseres curtir, também podes.

Isso porque o vocabulário usado no teu discurso é comum a todos nós. São coisas com as quais nos relacionamos…

Daí que toda a gente no meio artístico ache que eu sou muito comercial, porque nesse meio entende-se que tu não deves comunicar para as pessoas, e sim apenas para uma elite.

É impossível neste momento não falar do resultado astronómico das tuas peças nos leilões da Christie’s. O “Coração Independente” atingiu 192 mil euros e o sapato “Marilyn” ultrapassou os 573 mil euros… Podes explicar-nos como te viste inserida no circuito comercial internacional e como tem sido a tua experiência dentro do seu funcionamento?

O paradigma do mercado da arte contemporânea está a mudar. Enquanto que antes eram os galeristas que mandavam nas carreiras dos artistas, agora não. Quem manda são os coleccionadores e estes trabalham com curadores e no pensamento deles. É assim que começam a aparecer as grandes colecções. Passa a ter mais importância para o artista estar numa grande colecção do que numa grande galeria. Os curadores que escolhem as peças para os coleccionadores aconselham, escrevem textos, contextualizam a obra e ela é vendida. Assim, não temos que dar 50% da venda a uma galeria. Por outro lado, com a crise actual, a Christie’s já não põe lá uns tarecos à venda só porque os galeristas querem. Tem um curador fantástico para a arte contemporânea que, quando organiza um leilão, monta uma grande exposição. Isto porque a Christie’s quer ser um símbolo de qualidade conceptual e não de valor económico. Quando foi o leilão do “Coração Independente”, eu fui lá e nem queria acreditar naquilo. Os catálogos são lindos de morrer, há uma equipa que se dedica exclusivamente a escrever os textos sobre as obras. E isto é assim porque agora quando vão lá os coleccionadores e levam os seus curadores, ou a Christie’s tem uma grande exposição, com uma curadoria perfeita, ou eles não compram.

E como é que se passa da participação do “Coração Independente” para a do sapato “Marilyn”?

O comprador do meu coração [existem três], através da sua curadora, decidiu emprestar a peça para expor em Moscovo. Quando eles põem o meu coração ao lado de peças do Jeff Koons e percebem que a minha obra tem tanta força como a dele, o curador da Christie’s pôs-se a investigar sobre mim e sobre o meu trabalho. Vieram cá estudar-me, viram o atelier para saber se eu tinha estrutura para aguentar o embate comercial, fizeram-me uma entrevista e nem se falou em dinheiro. Com isso eles querem saber se tens qualidade, se tens obra e continuidade, se és verdadeiro ou não… não é uma avaliação monetária, mas sim de pensamento. E depois, como eu já tiha ido à Bienal de Veneza, tenho peças em grandes colecções internacionais como a Pinault e a Arnault, expus em Inglaterra, França, Japão… Tenho peças na colecção Berardo, que é muito importante… Já tenho o mínimo de requisitos para poder ir ao leilão. Então foram procurar as peças e havia um dos corações que era do Restaurante Eleven. Propuseram a venda e eles aceitaram. Quando foi a exposição, eu estava ao lado de artistas como o Gerhard Richter e o Damien Hirst, coisa que eu nunca tinha pensado. Depois, o sapato foi vendido no seguimento da primeira peça. Eles já tinham uma sala concebida para ele, com o conceito todo da exposição em que o sapato batia certo. Mas ainda há quem diga que eu sou só comercial, que sou o Tony Carreira da arte portuguesa. Eu nunca vi ninguém pimba na Christie’s e não me lembro de ver outro português na colecção Pinault, mas pronto, deve ser eu que sou pimba. Não tenho culpa de ser a única artista de cá a ser vendida nesse leilão, nem fui eu que fui lá bater à porta. Como eu não me insiro nos circuitos habituais, sou mulher e nova, toda a gente pensa que se eu tenho sucesso, é porque sou filha de alguém rico. Nunca é porque eu trabalhei 16 anos no duro e a pagar as minhas coisas. É sempre por outra razão qualquer. Eu posso dizer que tenho tido sorte, mas junto a isso muito trabalho.

Achas que com isto conseguiste entrar na fase da internacionalização?

Isso nunca está conseguido. Com esta exposição mostro que estou a dar tudo por tudo. O facto de haver o leilão pelo meio demonstra que sou economicamente viável, mas eu não estou interessada nisso porque eu aqui já o sou. Não é meio milhão de euros que me interessa. O que me interessa é entrar no circuito artístico internacional e se a Christie’s é uma forma de o fazer, porque não? Esta exposição é fundamental para isso. Quero mostrar aqui que tenho cabeça, que sei pensar, sei produzir, sou versátil e coerente e sei produzir uma exposição.

Ou seja, estás a entrar na fase dos vinte anos em diante…

Exactamente!

Ler Mais / Comentar



Time Out, 11 Fevereiro 2009

Raúl Perez

É como se os sonhos me saíssem pelas mãos”

por Miguel Matos

Raúl Perez tem sido um segredo bem guardado na arte portuguesa. Até agora. O Museu Berardo, em co-produção com a Fundação Cupertino de Miranda abre as portas a um conjunto de obras criadas desde 1960 até agora. São 50 anos de sonhos e criaturas mágicas que saem à rua para nos enfeitiçarem. A Time Out à conversa com um pintor pouco dado a “ismos”.

O primeiro impulso que temos ao ver pela primeira vez as suas obras é associá-las ao Surrealismo. Mas o Raúl não se sente muito confortável com essa associação…

O que me torna próximo dos surrealistas é o meu processo de trabalho. Eu não sou capaz de fazer nada de uma forma racional, deliberada. Quando pego num lápis ou num papel as coisas saem-me. Nunca me fiz a pergunta “o que vou fazer?”. É este processo que me torna parente dos surrealistas. Eu nunca tinha lido nada do Breton antes de começar a pintar. Conheci o Mário Cesariny nos princípios dos anos 60. Ia com um amigo meu no Marquês de Pombal, vi o Mário Cesariny e fui falar com ele. Tinha eu nessa altura o cabelo comprido que me dava pelas costas e me dava direito a ser vaiado pelas ruas. As pessoas paravam para insultar-me. Fui falar com o Cesariny e disse-lhe que gostava muito da sua poesia e que gostava muito de poder conversar com ele. Ele então olhou para a folha que eu trazia pendurada ao pescoço e disse-me “você não tem grande coisa a aprender comigo. Mas eu, o Cruzeiro Seixas, o Pedro Oom, o Mário Henrique Leiria, vamos fazer uma exposição e leitura de poesia na Livraria Buchholz… se quiser apareça lá”. Assim, comecei a conviver com estes artistas. A partir daí começámos a encontrar-nos. Fomos convivendo e comecei a aperceber-me de que o meu próprio processo de trabalho identificava-se com o dos surrealistas, mas isto é muito antigo em mim e não me leva a proclamar-me surrealista até porque detesto ser qualquer coisa. Não tenho partido político nem religião nem clube de futebol. O que é ser surrealista? Acho esquisito, parece um partido político… Eu ponho em primeiro plano a liberdade e a autenticidade. Não me quero envolver nesses “ismos”.

Mas afinal onde tem andado estes anos todos para ser tão pouco conhecido? É muito raro ouvir falar de si.

O que eu faço agora é uma coisa que tem vindo a germinar ao longo dos anos, não veio do nada. Há os pintores “da casca”, que se preocupam com o mundo que os envolve e isso reflecte-se no seu trabalho. Eu sou uma espécie de mineiro à procura do meu ouro, esta coisa que todos nós temos cá dentro. Comecei este processo desde rapazinho. Sempre me conheci a desenhar e a pintar.

Porque esteve tanto tempo sem expôr?

Todas as exposições que tenho feito são em galerias de arte, que no fundo são comerciais, são lojas. Nunca fiz nenhuma exposição sem ser um bocado contrariado porque as coisas de que eu gostava muito não as queria vender e os marchands querem vender. Estes quadros que foram guardados, foram mesmo por causa disso. Podia expô-los mas nunca para vendê-los. Há quadros que apesar de serem meus e serem bons, não me apego a eles, mas há outros dos quais eu não sou capaz de me desligar. Esta exposição e a anterior na Fundação Cupertino de Miranda são as primeiras em que eu escolhi as peças que quero mostrar. É uma exposição planeada por mim e não por um galerista, o que tem outro significado.

Pinta muitas vezes os mesmos símbolos, como por exemplo as torres com asas, pode explicar porquê este motivos recorrentes?

Não há um motivo para isso. Quando estou a pintar não tenho consciência do que faço. Posteriormente é que me apercebo daquilo que um quadro significa. Isto são sonhos. Não são ilustrações de sonhos mas os sonhos em si. Desde muito cedo me apercebi de tudo o que eu desenhava às ocultas da consciência continha uma linguagem e uma filosofia próprias semelhantes às dos sonhos. Era como se os sonhos me saíssem pelas mãos. Fui-me familiarizando ao longo da vida com este processo que se assemelhava a um acto mediúnico e no qual eu representava apenas um simples instrumento. Esta experiência leva-me a postular que a arte é um prolongamento do sonho. Quando estou a fazer isto, comparo-me àquelas mulheres que estão no autocarro a fazer tricô e nem reparam no que estão a fazer. Na minha pintura dou muita importância ao desenho, que me sai espontaneamente. Depois as texturas que faço são como o tricô das mulheres no autocarro. Costumo também ter ao lado um bloco de papel onde anoto ideias sobre as coisas mais incríveis e que se referem à própria pintura. É filosofia. Não é uma filosofia que parte da realidade material mas sim das profundezas. Os sonhos estão imbuídos de filosofia, de poesia…

E os tais elementos simbólicos e recorrentes? Será realmente importante para o observador saber a sua explicação? Eu, por exemplo tenho uma interpretação pessoal, tal como outra pessoa terá uma diferente…

Esta tendência ocidental de querer explicar tudo… Tem de se racionalizar tudo… Estas coisas têm outra linguagem. Se abordarmos isto de uma maneira racional, adulteramos as coisas. A maior parte dos críticos tem um discurso lógico que, ao abordar estes quadros, desvaloriza-os, criando uma imagem adulterada.

Mas a explicação que me está a dar é em si mesma uma explicação válida… a explicação de que estas coisas não se explicam… A Filosofia quer conhecer a realidade. E os sonhos não serão eles também a realidade, assim como os efeitos palpáveis que os sonhos têm em nós, na nossa vida e na arte?

Mas o que é que é a realidade? Os sonhos são muito importantes e são a raíz das coisas. A Filosofia devia partir daí. Todo o acto inconsciente tem a sua origem nos sonhos, são coisas oníricas…

Algumas das obras patentes nesta exposição pertencem à Fundação Cupertino de Miranda, outras são de coleccionadores particulares, mas muitas são suas. Porque guardou estas e não outras?

Porque é importante guardar. Porque significam marcos no meu percurso. Alguns dos quadros que eu guardei são os que eu considero os melhores.

E o que sente pelo facto de ser pouco reconhecido?

Então, quem não aparece…

Assume a sua responsabilidade, portanto. Mas gostaria de ser mais conhecido?

Tenho visto ao longo da vida as reacções das pessoas. Se há quem me compre quadros é porque gostam, mas eu não pinto para viver. De vez em quando vendo um quadro mas não tenho necessidade de vendê-los. Nunca subjuguei a minha actividade ao dinheiro. Tenho uma repulsa incrível a isso. Quanto a reacções, estou à espera… Vejam, eu agora estou a mostrar.

Ler Mais / Comentar