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"leonel moura"



Miguel Matos foi conhecer uma exposição de Arte e Ciência mas não ficou transgénico

Um preto de carapinha loira ou um branco de carapinha não é natural. Ter uma orelha num braço também não é natural, mas ao contrário dos casos anteriores, não é falta de restaurador Olex. É Inside, o cruzamento entre arte e ciência que se mostra na Cordoaria.

Aproximar a arte da vida, desviando o conhecimento da ciência para a produção artística. É este o objectivo da Arte e Ciência um conceito artístico emergente e muito recente. Engloba um conjunto de práticas artísticas que romperam com aquilo a que tradicionalmente se chama Arte Contemporânea. Estas práticas são tão variadas e dão resultados tão diferentes que até agora ainda não se conseguiu encontrar um único nome para designar todo este conjunto. Até agora apareceram vários nomes para as propostas que misturam campos aparentemente antagónicos como estes. Bioarte é a terminologia mais conhecida, mas também lhe chamam sci-art, arte e tecnologia, arte e ciência… No fundo ainda ninguém definiu o que é isto.

“Inside” já está a ser preparada há dois anos e é uma exposição ambiciosa ao reunir os maiores especialistas nestas investigações artísticas. “Esta exposição é um manifesto que tenta apresentar em Portugal uma nova arte cujo conhecimento é muito diminuto”, diz Leonel Moura, Comissário do evento. É assim que no campo das biotecnologias vários artistas usam metodologias aplicadas na medicina ou na manipulação genética para gerarem esculturas, novas formas de vida ou reconfigurações dos corpos, do próprio artista ou de outros seres vivos. É também assim que no campo da inteligência artificial se propõe a possibilidade de gerar uma criatividade artificial, usando algoritmos e robôs.

“Pela primeira vez os artistas não estão a ilustrar a vida, mas a criá-la, seja de formas biológicas ou artificiais, Isto levanta questões que têm a ver com a vida.”, defende Leonel Moura. Através da biotecnologia é possível utilizar a capacidade de manipulação genética para a criação de uma flor com genes de artista ou processos de medicina que permitem implantar uma orelha num braço. No caso da robótica e da inteligência artificial, há robôs que reagem a estímulos exteriores e têm comportamentos autónomos. A importância deste tipo de arte é dar a ver uma realidade que já existe mas que não está à vista da maior parte das pessoas. Trata-se de descontextualizar estas técnicas para atraír a atenção e criar uma nova visão do mundo. “Esta exposição vai parecer muito futurista, mas não é”, diz Leonel Moura. “Tudo o que nós fazemos só é futurista para quem ainda não se apercebeu de que estas coisa já existem realmente. As operações estéticas, os transplantes, a manipulação genética, a robótica, a inteligência artificial… tudo isto já existe”.

Aquilo a que se chama Arte e Ciência começou a surgir nos anos 70 de uma forma muito incipiente mas só neste século é que isto tem ganhado forma. São agora realizadas exposições deste tipo de arte em vários países, apesar da resistência oferecida pelos agentes culturais mais conservadores. O público interessa-se pelo tema e os museus começam a perceber e a reconhecer a sua importância. Na opinião de Leonel Moura, “é muito visível a crise da arte contemporânea na dificuldade que tem em apresentar coisas novas. Defendo que não estamos perante mais uma tendência da arte contemporânea, mas sim uma nova arte, que provoca uma ruptura. Altera o próprio conceito de arte, assim como os seus processos de produção. É claro que estamos a mexer num domínio muito sensível e ainda vamos ver coisas horríveis a serem feitas neste âmbito. Mas também muitas coisas boas. O ser humano precisa de um empurrão para evoluir como organismo. Vamos conseguir superar a evolução natural e começar uma evolução artificial”. Será este o início do período pós-Darwin?

Time Out, Setembro 2009

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Leonel Moura, embaixador português para o Ano Europeu da Criatividade e Inovação, lançou um livro sobre uma lata de dejectos humanos. Para Miguel Matos, isto é pretexto para uma conversa.

30 Gramas é o mais recente livro de Leonel Moura. Anda à volta de uma famosa obra do artista italiano Piero Manzoni: um senhor que em 1961 encheu uma série de latas com 30 gramas de excrementos seus e anunciou o preço de cada uma como sendo correspondente ao seu peso em ouro. Neste livro, a “Merda d’artista” despoleta uma perseguição à verdade. Mas a verdade, como diz o autor, não é o “assunto da arte”.

Este livro fala de temas complicados na arte. Porque é que partiu da ousadia de Piero Manzoni para criar uma história?

A carreira dele é curta, pois morreu cedo, mas fez coisas muito interessantes no final dos anos 50. Por exemplo, desenhou uma linha num rolo enorme de papel, que depois selou e ficou fechado. Mas a sua obra maior é a “Merda d’artista”. Manzoni pertenceu a um movimento artístico italiano contra a arte convencional, em que a própria atitude começa a ser uma obra de arte. Ele fez 90 latas que hoje em dia são compradas pelos museus a preços fabulosos, mas há uma espécie de enigma em relação ao que está lá dentro. Há quem diga que não têm nada. A verdade é que esse assunto nunca foi esclarecido e os próprios museus rotulam a obra sem definir o seu conteúdo. Peguei neste mistério e aproveitei para fazer uma espécie de viagem pela arte mais incompreendida do século XX.

O Leonel também propõe uma rotura na arte. Destaca-se por ser o pioneiro em Portugal a criar arte com robôs…

Sempre tive a ideia de que se eu queria ser um artista a sério teria de ter conhecimentos fora do âmbito da arte. No final dos anos 80, isso tornou-se uma questão radical. Decidi abandonar o meio artístico porque achava que andava tudo à volta das mesmas coisas e era difícil fugir a isso. Larguei as galerias com que trabalhava e cortei relações com alguns artistas. Na arte e na ciência, para se resolver um problema é necessário sair do contexto desse problema.

Mas aquando de Lisboa 94 Capital da Cultura, apareceram várias obras suas de arte pública e são célebres as interpretações de retratos de gente importante como Amália Rodrigues.

O problema de um artista que se torna conhecido por um tipo de obra é que as pessoas querem mais daquilo e nós temos de responder. Ainda hoje há pessoas que vêm ao meu ateliê perguntar se eu tenho Amálias! Aliás, este ano há a grande exposição no Museu Berardo sobre Amália Rodrigues e é claro que vão lá estar os meus trabalhos, é inevitável. Sou perseguido pelo fantasma da Amália. Gostava muito dela do ponto de vista pessoal, mas a minha ideia não era fazer um retrato da Amália. A obra tinha mais a ver com a questão de um país periférico como Portugal e dos seus problemas com a identidade.

E quando se dá a sua retirada, investe no campo da ciência. Por onde começou?

Numa primeira fase, deixei-me fascinar por algumas ideias da ciência. Desde muito jovem sempre li livros sobre ciência e gosto de tentar perceber algumas coisas. O que mais me deu a volta à cabeça foi perceber que as coisas não funcionam em processos lineares ou consequentes. Percebi que tudo funciona numa base caótica, aleatória e de repente é que as coisas se transformam e dão origem a algo que nós conhecemos. Todo o sistema da produção de arte em que se concebe uma coisa com processos lineares até chegar a um quadro é completamente obsoleto. Tenho de fazer obras de arte em que eu desencadeio o processo mas não sei no que vão dar porque isso é que se aproxima da realidade natural. Comecei a interessar-me por algoritmos que simulam comportamentos da vida e geram formas imprevisíveis. Depois acabei por chegar à robótica porque queria sair do computador.

Não chegou a enveredar pela bioarte. Não tem o complexo de Deus, portanto?

Nada disso. Não sou crente, pelo contrário. Estou a simular mecanismos da natureza, mas isso não tem nada a ver até porque eu acho que a natureza não foi criada por Deus. Não quis enveredar pela bioarte porque não me agrada manipular a vida real. Tenho muito respeito pela vida desde a mais pequena bactéria ao elefante.

Com esta vertente artística ainda pouco explorada, está no fundo a questionar profundamente a arte e os seus processos. Tal como Manzoni…

A arte é para construir mitos e novas ideias. Só quando nós fazemos uma coisa que transforma a própria noção de arte é que estamos a fazer arte. A arte a partir do século XX não tem de representar nada. É uma coisa em si própria. E depois de Duchamp ainda mais. Os ready-mades (o urinol, por exemplo) têm interesse não como objectos mas porque desencadearam a transformação da arte. Isto ligou a arte ao conceito de inovação.

O Leonel Moura foi nomeado embaixador em Portugal para o Ano Europeu da Criatividade e Inovação, junto com figuras de renome mundial como por exemplo, o designer Philippe Starck, o arquitecto Rem Koolhaas, a coreógrafa Anne Keersmaeker e Erno Rubik, o criador do cubo mágico. Que balanço faz desta iniciativa?

Tem sido uma experiência interessante. A ideia, desde a primeira reunião que fizemos em Praga, foi fazer um manifesto da criatividade. Em cada país temos promovido conferências e por cá temos a decorrer o Concurso de Ideias Criativas. Mas o essencial do trabalho tem sido redigir o manifesto que está quase pronto e será publicamente anunciado em Setembro. Somos mais de 20 pessoas com entendimentos diferentes sobre o que é a criatividade. Este será um documento interessante pois tem uma série de reocomendações para a União Europeia. Uma das conclusões é que todos os problemas vão dar à educação. Uma das coisas que observamos em Portugal é que a nossa escola está pouco virada para a expresão criativa. Os professores debitam conhecimentos que os alunos memorizam, o que não tem qualquer interesse. Temos de fazer uma grande revolução no ensino, mas no nosso país vai ser muito difícil porque qualquer modificação que se faça tem sempre a oposição dos professores.

Tal como defende a subversão dos mecanismos da arte, Leonel Moura deixou de ser o artista que pinta quadros e é mais como o galerista que representa os seus artistas robôs. Mudou-se para a Lx Factory e prepara para breve mais um livro, desta vez de poesia escrita por um robô.

O Robotarium, ateliê e galeria de Leonel Moura fica na Lx Factory (Rua Rodrigues Faria, 103, H2.0) e está aberto de segunda a sábado das 10.00 às 19.00.

Time Out, 28 de Julho de 2009

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