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"lara torres"
Lara Torres acaba de ver o seu trabalho premiado em Londres com uma série de vídeos em que as roupas se desfazem em água.Miguel Matos falou com a designer.


Eram duas mil candidaturas de todo o mundo para cinco prémios Fashioning the Future Awards. Lara Torres ganhou o Unique Design Award. O prémio que o Centro Para a Moda Sustentável lhe atribuiu tem a ver com o mestrado em Fashion Artefact que a designer esteve a fazer em Londres. Já o trabalho tem a ver com aquilo que Lara sempre fez: uma pesquisa teórica que desemboca numa série de vídeos sobre o desaparecimento, a morte e a memória, mas também sobre a sustentabilidade do sistema industrial da moda. Um trabalho que pode ser lido como um alerta para a forma como se produz vestuário hoje, mas que também pode ser muito mais do que isso.

“An Impossible Wardrobe for the Invisible” é uma série de vídeos em que as roupas, feitas com uma matéria solúvel em água, vão desaparecendo. Tendo em conta que a moda, com o seu ciclo tão rápido, cria produtos de curta duração, é uma metáfora?
É uma questão primordial. Essa rapidez é anti-sustentável. Quando vi a abertura do concurso, achei que o meu trabalho podia ser importante nesse contexto porque o vejo como uma forma de provocação no sentido de este trabalho não ser um produto, dentro do contexto do design de moda. Mas existe uma tomada de consciência: a peça perde-se à tua frente. O designer deve ter a responsabilidade de levantar questões pertinentes. Daí ter concorrido a este prémio, e sei que mo foi entregue precisamente por ser polémico entregar um prémio de design quando o produto não existe, é uma projecção de imagens. Mas o júri considerou pertinente este alerta. O meu trabalho tem muitas outras camadas, mas esta é a mais importante neste contexto.

Tentando definir o teu trabalho como artefacto de moda… o que é que isso significa? Está entre a moda e a arte?
O artefacto de moda tem preocupações conceptuais, éticas e estéticas que fazem parte dos dois mundos. Eu acho que as metodologias têm mais a ver com as artes plásticas mas o questionamento é sobre a moda e sobre a relação com o corpo.

O teu trabalho fala sobre a memória, o desaparecimento e as emoções humanas. Nestes vídeos o vestuário perde-se mas ficam as costuras…A relação entre o vestuário e a memória tem a ver com a relação entre ele e a identidade. O vestuário é uma projecção daquilo que tu és. Tenho trabalhado sobre a materialização dessa memória: tornar a perda física possível de ver. Comecei a ir atrás da ideia da perda até chegar a esse material solúvel, pela relação com o design de vestuário.

Tens feito escultura e vídeo, os teus desfiles são performances… Porque é que continuas a mostrar o teu trabalho na Moda Lisboa em vez de em galerias ou museus?
É uma questão pertinente. Este é um trabalho muito provocador quando olhado dentro do universo da moda. É um grão de areia que causa uma interrupção nessa engrenagem. É claro que, hoje em dia, as necessidades que o meu trabalho levanta em termos de apresentação têm mais a ver com um museu ou uma galeria e não com uma semana da moda. Mas tenho receio de deixar de ser tão disruptivo se o retirar do contexto da moda. Apesar disso, em termos de sobrevivência e compreensão do meu trabalho, seria muito mais fácil apresentá-lo num contexto artístico. Neste momento, o meio da moda é-me muito hostil, da mesma maneira que se sente hostilizado pelo meu trabalho, é recíproco. Eu não consigo pensar em fazer o meu trabalho de outra maneira. Já não consigo pensar em colecções como pensava há cinco anos. Não sou capaz de voltar aí.

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Mas quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis porém mais vivazes, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, chamando-se, ouvindo, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, levando sem se submeterem, sobre suas gotículas quase impalpáveis, o imenso edifício das recordações”. Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust.

Lara Torres tem salientado no seu percurso o desejo de agarrar um gesto, um vestígio, uma presença. Sem se deixar limitar pela provocação que representam os seus “artefactos de moda” no questionamento das fronteiras entre as disciplinas da moda, da arte e da performance, ela segue como uma obsessão o tema da memória.

“Interessa-me evocar a presença de algo que pertence ao passado, algo como uma ruína que pode ser conseguida através da evocação mimética de um objecto/peça de roupa que nos é familiar”. Em séries anteriores, como em “Mimesis / Fac Simile”, Lara pretendia cristalizar um momento, um traço ou marca pessoal de um alguém abstracto. Numa camisola petrificada em cerâmica, a tentativa de não esquecer, de fazer perdurar um elemento significativo de um segundo passado. Parar o tempo ou fazer o tempo perdurar no próprio tempo, nesse discurso sobre a memória que é simultaneamente íntima, individual e social. O passar do tempo na metáfora destes objectos atinge então uma concretização mais apurada e irónica num relógio em látex, feito a partir do molde de um relógio real. O material látex necessita de um cuidado regular de manutenção, com o fim de manter o seu aspecto, e represeneta uma interessante metáfora que sublinha a tentativa de agarrar a lembrança dos minutos. O relógio não é mais do que a representação tridimensional, não funcional e já gasta desse mesmo relógio. É agora apenas uma sombra que urge manter.

Nesta sua fase mais recente, fruto da investigação no contexto do mestrado “Fashion Artefact” que desenvolve no London College of Fashion, Lara Torres deixa essa cristalização e explora uma libertação progressiva da memória. A mudança de materiais e meios é prova dessa evolução, ao abandonar a cerâmica e o látex. Ao contrário de um material que pede manutenção, uma acção consciente do indivíduo para reter e manter, a cera, ela própria, por mais tentativas que se realizem, está condenada a perecer. Como material orgânico e natural, ela presta-se à degradação.

Num passo adiante, Lara Torres complexifica o discurso ao optar por apresentar os objectos de forma menos directa, usando o vídeo. É o largar da materialidade do objecto físico. Letting go.

Ao criar uma escultura em cera, evocativa de uma peça de vestuário masculino (uma camisa), Lara alude ao mecanismo da memória de que Platão falava na sua hipótese do bloco de cera. Platão pensou que a mente guarda impressões da mesma forma como a cera é marcada na sua superfície com um objecto pontiagudo. Para Platão, a impressão feita na cera duraria apenas o período correspondente ao seu processo de erosão. Com o passar do tempo, este mesmo bloco gravado transformar-se-ia numa superfície lisa, como no início, o que, conforme Platão, equivale ao esquecimento completo, o estado inverso do processo decorrido. Mais tarde, filósofos como Henri Bergson e Paul Ricoeur discorreram sobre a memória com teorias que de modo indirecto se espelham no trabalho recente de Lara Torres.

No processo metafórico que deu lugar a “Involuntary Memories / Effacing Series”, as nossas recordações de cera, após derretidas pelo calor da vida e da morte, transformam-se em quase fantasmas. Matéria informe mas, ainda assim, presente. São as coisas que esquecemos do nosso consciente, mas que se mantêm presentes num outro nível, inconsciente. As situações do passado que escolhemos deixar para trás mas que, involuntariamente, fazem parte da nossa construção. Algumas delas fragmentos aos quais nem sabemos aceder por não reconhecermos agora a sua forma nem textura, tal como uma mancha de cera que fica no chão da memória. E isto torna-se mais espectral quando o objecto de discurso já não é apresentado directamente, mas sim através do seu registo em vídeo. A imaterialidade total é alcançada, ficando apenas a luz e o seu movimento. Será alusão inconsciente à mistura de luz e escuridão de que falava Parménides, quando analisava os elementos constituintes da memória?

Nesta série é possível evocar uma das teorias da psicologia acerca da memória que é, de certa forma, ainda análoga às ideias referidas de Platão. Falamos do declínio, tal como o descreveu o investigador Henry Gleitman. Assim como as montanhas sofrem a erosão dos ventos e das águas, também os traços mnésicos sofrem, com a acção do tempo, um declínio gradual. A memória sofreria um desgaste dos seus traços até chegar ao seu total desvanecimento e desintegração. São apenas hipóteses teóricas com qualidades filosóficas e poéticas, a ciência é outra conversa.

Alguns autores defendem que a memória é um elemento constituinte da identidade (individual e colectiva). Será o esquecimento uma forma de dar lugar a novas construções de identidade? “Não penso muito no futuro”, responde a autora… O trabalho de Lara avança num sentido cada vez mais fragmentado e fragmentário. Uma fantasmagoria com contornos quase psicanalíticos em que penetra, cada vez mais fundo, sondando os rios subterrâneos do inconsciente e correndo o risco deliberado de neles perder o pé. Uma narrativa progressivamente destruída. Restam elementos soltos, como recordações à espera de vida.

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