— Folha de Sala

Arquivo
"joalharia"

Eduardo Nery desenhou as“Linhas Paralelas” que Alexandra Corte-Real transformou em jóias. Miguel Matos mostra-lhe o resultado.

Eduardo Nery, mestre da optical art portuguesa, tem pautado a sua carreira pelo recurso às mais diversas técnicas e suportes. Trabalha não só em desenho e pintura sobre tela, como em cerâmica, escultura, azulejaria e grandes projectos de arte pública. As suas linhas dinâmicas e coloridas, que assumem frequentemente dimensões quase monumentais (nos murais que tem feito, por exemplo), foram agora encolhidas milimetricamente à escala de um dedo, uma orelha, um pulso. Os desenhos de Eduardo Nery, transformados pela joalheira Alexandra Corte-Real são obras pensadas para uma função específica, articulando as linguagens dos dois artistas.

Para quem chega a este parágrafo com o sobrolho levantado, que o baixe pois para Nery, a joalharia é um assunto sério e que há muito lhe interessa, uma vez que se considera um artista e ao mesmo tempo um designer. Mas foi com a produção da taça para a Vista Alegre, no ano passado, que ganhou ânimo para acreditar que era capaz de fazer jóias também. “Em ambos os casos, estou a usar o dourado, cor que tenho usado desde os anos 70. Tenho um fascínio muito grande pelo ouro, pelo seu sentido metafísico e simbólico. A minha última exposição de guaches tinha imensas obras em que usava o ouro e estas jóias vêm no seguimento dessas duas experiências: os guaches e a taça da Vista Alegre.”

“Ocorreu-me a ideia e convidei o Eduardo”, diz Alexandra Corte-Real sobre como surgiu tudo isto. “Ele ficou a olhar para mim, pensou e depois aceitou. Para ele foi um desafio porque representou entrar numa área diferente. Para mim também foi desafiante porque tenho por hábito desenvolver o meu trabalho do princípio ao fim. Se ele aceitou que eu fosse intervir, eu tive de aceitar que a ideia-base seria dele.” O brilho dourado, que desde há décadas sublinha a obra de Nery, aparece agora sob a forma de jóia. A partir do convite de Alexandra, criou formas que bifurcam: dão lugar a objectos em prata e em prata dourada. “Estes materiais levaram-me a criar cores que fossem contrastantes com eles e ao mesmo tempo os integrem. As obras voltam à questão inicial das formas e do movimento na optical art. Ao desenhar, eu já pensava que esse desenho resultaria num pendente, em brincos ou botões de punho. No entanto, quem tomou essas decisões foi a Alexandra, pelo seu conhecimento da escala e do grau de dificuldade técnica”, explica o artista.

Não se trata aqui de um trabalho de colaboração, mas sim de co-autoria. “A Alexandra teve tanta autonomia no seu campo como eu tive a desenhar”, diz Eduardo Nery. No fundo, este projecto foi um grande desafio duplamente sentido. Para Nery, foi uma questão de dimensões, ao passar de uma escala de pintura para objectos tão pequenos. Por outro lado, para Alexandra Corte-Real, o desafio de transformar um desenho numa jóia, não fazendo apenas ajustes ou intervenções funcionais mas sim prolongando linhas e projectando as formas para que continuasse a haver o mesmo equilíbrio do trabalho original. “Este trabalho não é apenas uma adaptação”, explica a joalheira. “Não me limitei a acrescentar uma função, mas desenvolvi a peça.”

A jóia é, por definição, uma obra que se relaciona directamente com o corpo. Que preocupações teve Eduardo Nery ao desenhar para tal finalidade? “A única preocupação que tive foi a de não fazer peças agressivas. Ficou de lado uma ideia que tive para um colar. Nesse desenho eu não consegui encontrar as formas adequadas, uma vez que os seus ângulos se podiam espetar no pescoço. De resto, foi apenas uma questão de escala.”

Entre Nery e Corte-Real, “Linhas Paralelas” é uma exposição híbrida, de autoria mista. Joalharia de autor para quem não a considera como manifestação artística. Conhecendo o gosto da ASAE em apreender jóias de autor como fez em Serralves, reza-se para que a exposição chegue intacta ao seu último dia na Ermida de Belém.

“Linhas Paralelas” está patente na Ermida da Nossa Senhora da Conceição (Travessa do Marta Pinto, 21) de 5 a 20 de Dezembro. Aberta de terça a sexta das 11.00 às 17.00 (encerra para almoço das 13.00 às 14.00). Sábado e domingo das 14.00 às 18.00. A entrada é gratuita.

Time Out, 1 de Dezembro de 2009

Ler Mais / Comentar

por Miguel Matos

A jóia como charneira entre a esfera pública e a esfera privada é o conceito por detrás da investigação e produção artística de Ana Cardim. A jóia tem sido desde sempre associada ao seu portador. A um corpo, logo, a um lugar íntimo, mas que ao mesmo tempo se relaciona num universo social, público, aberto à comunicação. Mas a jóia pode permanecer íntima pelas suas características semânticas ou herméticas ou pode abrir-se à interacção com outros que não seus portadores ou pode até funcionar como mecanismo ou dispositivo.

Introduzindo o conceito de “jóia-dispositivo”, Ana Cardim (Lisboa, 1975) entende que uma jóia possa operar através de plataformas transversais que – sem perder o seu referente original – ultrapassem as fronteiras comuns do conceito de Joalharia Contemporânea, tocando dinâmicas vigentes no quadro teórico e nas prácticas da designada Arte Actual. Ana explica: «Uma “jóia-dispositivo” é uma jóia que, através do seu uso, gera discurso crítico na esfera pública. É sobretudo um veículo de intervenção social que visa captar subjectividades e propôr novas vias de construção de sentido face a uma contemporaneidade que se apresenta sob o domínio do urbano nas suas variadíssimas vertentes e consequências sociais». Assim sendo, são de referir no contexto das suas práticas artísticas as peças Urban Help, Clean Your Mind e Garbage Pin, este último sendo um projecto que esteve recentemente em exposição na Galeria Klimt02 em Barcelona, depois MCO Arte Contemporânea, no Porto, e Galeria Articula, em Lisboa, passando agora para uma itinerância internacional. «Esta potencialidade da jóia reconvertida em espaço de sociabilidade e/ou lugar de discussão – capaz de estabelecer diálogos dinâmicos, de criar e recriar opinião pública –, é a via prática que ilustra o que defendo a nível teórico e que se pode observar nos meus últimos trabalhos», diz a joalheira.

Para Ana, o facto de muitas vezes a joalharia ser considerada um “parente pobre” da arte, é uma causa de revolta. Responde com peças conceptuais, que não são apenas adornos (embora reconheça o adorno como uma das vertentes intrínsecas da jóia). «Realizam-se muitas “coisas” no âmbito da joalharia que não podemos de nenhum modo inserir num quadro teórico de filosofia de arte actual. Além disso, o preconceito existe de modo alicerçado: quando ouvimos a palavra” jóia” remete-nos em geral para uma ideia de algo de puro adorno, uma “arte menor” artesanal, uma mera decoração estética ou um objecto de afirmação de status social. Porém, há que ter em conta que nem sempre é assim. Há de entender que jóia de puro adorno estético vai existir sempre, da mesma forma que sempre existirão belas pinturas para condizer com o tecido de um sofá ou com os cortinados de uma sala, o que não põe em causa toda uma outra produção pictórica que se reconhece no âmbito das artes. O que gostaria de trazer à luz, numa tentativa de reconhecimento por parte de críticos e teóricos de arte contemporânea, é que há jóias e “jóias”, ou seja, que há belos adornos de estética corporal mas que há também uma enorme produção de peças que veiculam uma inequívoca profundidade estético-conceptual. Olhar para elas como produção artística contemporânea, enquadrá-las e promovê-las nesse sentido, é necessário e urgente».

Para compreender a proposta de Ana Cardim importa descrever o funcionamento destes “mecanismos” como é o caso de Urban Help – Jóia Ansiolítica. Esta peça é um cinto que nos faz transportar um contentor. Dentro deste recipiente redondo e transparente, de aspecto clínico e funcional, encontramos um remédio contra crises de nervos. O potador do dispositivo apenas necessita de puxar para fora do contentor um disco daquele famoso plástico das bolhinhas e rebentá-lo até que a tensão se dissipe. Cada contentor contém sete discos recarregáveis. É um medicamento natural, sem contra-indicações e reciclável, pois o plástico, após a utilização, serve de enchimento para almofadas, também elas úteis para o relaxamento e, portanto, meio coadjuvante de tratamento.

Também dentro de uma lógica de funcionalidade social e psicológica encontra-se Clean Your Mind, jóia que consiste num grande pin que suporta um rolo de papel higiénico. A ideia é escrever nesse papel o problema que nos perturba o espírito e lançá-lo na sanita, como se fosse um ritual de purificação. A artista apresentou esta peça numa performance pelas ruas de Barcelona, por onde passeou uma retrete ambulante e pediu aos transeuntes que cumprissem este ritual de depuração mental. Estamos assim no âmbito de uma arte relacional, ligada à joalharia contemporânea / de autor e que expressa a ambivalência e transdisciplinaridade que esta área implica.

Mas o culminar desta concepção relacional da joalharia está em Garbage Pin Project. Tudo tem origem num pin criado por Ana Cardim. É um objecto minimal, um aro em metal que suporta um mini-saco de plástico, um pequeno saco transparente. Representa um caixote de lixo portátil, que carregamos connosco e que serve também de contentor visível para os outros. Vem com recargas de saquinhos, o que faz com que possamos depois fechar cada um deles e guardar ou deitar fora, consoante a nossa intenção. Serve, se quisermos, para comunicar através dos objectos que nele introduzimos. É um statement irónico sobre a nossa sociedade de desperdício, de consumismo e obsolescência. «A prata como material nobre e valioso, recurso natural e reciclável, é aqui confrontada com o plástico: material ordinário e barato, de origem sintética, responsável por uma grande parte da destruição do nosso eco-sistema», explica Cardim, salientando o carácter polissémico, paradoxal e de conflito na peça. O mesmo recipiente que para uns pode ser um estado intermédio de desperdício, para outros é um relicário, para outros ainda um veículo crítico.

Foi a pensar dos diversos usos e intenções que o Garbage Pin encerra que Ana Cardim pediu a 90 amigos e artistas que fizessem uso do Kit Garbage Pin. O dispositivo foi assim entregue a outros criadores e posto em funcionamento sem o controlo da artista. Cada utilizador encheu cinco saquinhos daquilo que considerou pertinente: lixo diário, despojos/dejectos do próprio corpo, items preciosos, recordações, etc num registo quase autobiográfico de cada um ou de afirmação social. Neste projecto entraram artistas de Portugal, Espanha, Itália, Reino Unido, Holanda, Suécia, Alemanha, Bélgica, Luxemburgo, Áustria, entre outros países. Criou-se uma «plataforma de sentido partilhado». O resultado é exibido internacionalmente sob a forma de instalação e no catálogo que tem o inteligente subtítulo Worth VS. Waste. «Esta potencialidade da jóia reconvertida em espaço de sociabilidade e/ou lugar de discussão – capaz de estabelecer diálogos dinâmicos, de criar e recriar opinião pública – é a via prática que ilustra o que defendo a nível teórico e que se pode observar nos meus últimos trabalhos» – Ana Cardim em manifesto!

Ler Mais / Comentar