— Folha de Sala

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"filomena soares"

“Custa muito ser genuína, minha senhora. (…) Somos tanto mais genuínas quanto mais nos parecemos com o que sonhamos”, dizia a personagem de Agrado no filme de Almodóvar Tudo Sobre a Minha Mãe. Esta frase vem a propósito daquilo que julgamos ser o autêntico e o falso. Nisto se inclui a mentira como forma de sobrevivência ou a verdade como impossibilidade, assim como os artifícios com os quais contruímos a nossa identidade. Vasco Araújo reflecte sobre os temas da verdade e do real, do animal e do social na sua exposição “Mente-me”.
Este projecto trata do ponto que separa uma coisa do seu oposto. Usar essa ideia para falar da verdade é assumir que a verdade pode ter dois lados. O título “Mente-me” refere-se não só ao mentir aos outros, mas também ao mentirmos a nós próprios. A exposição reúne fotografia, vídeo e escultura, atestando a multiplicidade de linguagens e suportes a que o artista recorre para a representação plástica de uma ideia, associando imagens a textos literários de correspondência ambígua. 

Vasco Araújo tem tido um percurso fulgurante nos últimos anos, com destaque para a sua participação na Bienal de São Paulo, as exposições em Paris, Boston e Vigo, para além da Casa da Cerca e da Fundação Calouste Gulbenkian. Neste momento é um dos nomes mais vincados da sua geração. Na preparação para a exposição individual na Galeria Filomena Soares, Vasco confessa que a seguir precisa de descansar. Mas será isto verdade ou estará a mentir? “Mente-me” é o nome do conjunto de trabalhos que mostra ao público a partir de dia 20.

Todo o trabalho de Araújo tem uma dimensão teatral e “Mente-me” não constitui excepção. No centro está um vídeo em que várias personagens discutem em torno da procura do homem verdadeiro. A dada altura, a personagem central, o velho, diz: “Um homem simples que não tem senão a verdade a dizer é olhado como o perturbador do prazer público. Evitam-no, porque não agrada; evita-se a verdade que anuncia, porque é amarga; evita-se a sinceridade que professa porque não dá frutos senão selvagens; temem-na porque humilha, porque revolta o orgulho, que é a mais cara das paixões. Faz com que nos vejamos tão disformes como somos.”

Esta busca é um eco que vem da Grécia antiga. O filósofo Diógenes de Sinope andava com uma candeia em Atenas à procura do homem verdadeiro. Nesta versão contemporânea, a acção passa-se na floresta à hora do crepúsculo, período de tempo em que não se sabe se é de dia ou de noite. Estas obras tratam dessa indefinição, pois a verdade para uma pessoa não o é necessariamente para outra. No vídeo, as personagens mentem aos outros e a si mesmas. A questão da falsidade é levantada também por um par de gémeos (verdadeiros ou falsos?) que perguntam a um travesti se o seu cabelo é real ou é uma peruca. Mas o que significa isso do real? O cabelo falso não existe na realidade? Não condiz mais com a imagem que o travesti tem de si próprio e que quer projectar aos outros? A obra levanta questões acerca da identidade, do preconceito e das convenções sociais, o artifício, a personagem, a confusão entre o real e o imaginário…

Para além do vídeo “Telos”, em que a filosofia se junta à ironia, há obras de escultura, fotografia e textos, muitos textos que vale a pena descortinar. Há uma escultura que representa um homem de duas cabeças. “É uma história que eu inventei. Um fala o outro pensa. O que fala diz tudo o que lhe apetece e o outro pensa que o primeiro deve ser assertivo e não dizer tudo o que diz”, explica o artista. Existe nesta série uma duplicidade constante que faz parte da vida. Se não podemos dizer a verdade a toda a hora, também nos ensinam que não devemos mentir. Isso obriga-nos a trabalhar para encontrar um equilíbrio nessa dualidade. “Mente-me” apresenta histórias de ambiguidade. Entre a verdade e a mentira está a ficção. No final, a verdade é reconhecer que muitas vezes mentimos.

 

 

Miguel Matos
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Miguel Matos ficou baralhado entre a realidade e a ficção com as novas obras de Pilar Albarracín.

São paradoxos surpreendentes, as chamadas “inverdades”. Imagens que contam histórias falsas e questionam aquilo que é verosímil. Assim tem trabalhado ultimamente a artista espanhola Pilar Albarracín. “300 Mentiras – Primeira Parte” é a exposição que traz cenas fortes, espetadas nos nossos olhos a partir das paredes da Galeria Filomena Soares. Sim, espetadas, porque a obra de Pilar desde sempre que não prima pela suavidade, mas antes pela contundência – quem sabe por herança histórica do seu país…

A maior parte dos artistas baseia o seu trabalho numa busca incessante da verdade. Pilar Albarracín procura a mentira! A fotografia é, por excelência, um meio de documentar a realidade, mas para Pilar é um instrumento de construção de ficções, de narrativas. Um meio que interroga a sociedade e as suas regras, o seu funcionamento e valores morais através da subversão de símbolos. A condição feminina, os estereótipos da cultura contemporânea cruzados com os da tradicional e a luta contra a submissão são alguns dos temas que desenvolve e sobre os quais discursa em formato de fotografias, vídeos, performances, objectos ou instalações. Neste caso, as “300 Mentiras” são todas fotográficas e abraçam a história social e a parafernália das imagens pop.

Pilar Albarracín está neste momento em destaque em Lisboa: é ela a artista que abre e encerra a exposição “She is a Femme Fatale”, no Museu Berardo, patente até ao final de Janeiro. Aqui aparece em auto-retrato vestida de toureiro, num questionamento da feminilidade e do poder. Finaliza com uma instalação de dezenas de panelas de pressão que assobiam, mais uma vez aludindo ao papel doméstico muitas vezes destinado à mulher pelos valores mais conservadores. Agora, nesta que é a sua série mais recente, Pilar mente. Quais são as mentiras que tem para contar? São mentiras que reconhecemos em outros contextos como verdades, como acontecimentos que marcaram a actualidade em algum ponto da história ou, por outro lado, imagens que se apropriam de referências cuja origem o observador já não identifica. São testemunhos de momentos da História que poderiam ter acontecido. Mas será que aconteceram, afinal?

Um monte de gente encapuzada, uma multidão à espera de passar a estrada como macacos, uma mulher vítima de repressão policial, uma figura feminina rebelde… Cenas facilmente reconhecíveis pelo que chega na TV. No fundo, “300 Mentiras” aborda também as realidades construídas pelos meios de comunicação social e mistura a mentira com a versão “oficial” dos acontecimentos. Como explica Elena Sacchetti, investigadora do Centro de Estudos Andaluzes, “cada ‘mentira’ (…) é atravessada por conteúdos mais abrangentes nos quais a artista se apoia: a identidade procurada, negada ou afirmada; as culturas baseadas no género; a tensão entre a vida e a morte; a luta pelo poder como fenómeno ancestral e actual; as assimetrias sociais, de género, étnicas e de estatuto social; a submissão ao poder estabelecido”. Uma exposição entre a realidade e a invenção, a imagem e a imaginação.

“300 Mentiras” está patente na Galeria Filomena Soares (R. da Manutenção, 80) de 21 de Janeiro a 6 de Março. Aberta de terça a sábado das 10.00 às 20.00 horas. A entrada é gratuita.

Time Out, 19 de Janeiro de 2010

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