— Folha de Sala

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"eduardo nery"





Luz Crepuscular

Em 1973, Eduardo Nery e Noronha da Costa expunham lado-a-lado no Centro Cultural Português da Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris. Apesar de amigos, pouco tinha em comum a pintura de um com a de outro. 37 anos depois, na Galeria António Prates, em Lisboa, os dois artistas reencontram-se. Lado-a-lado expõem pela segunda vez e, através de uma empatia desfasada no tempo, as suas obras aproximam-se…

“Toda a pintura distribui de graça uma certa qualidade de silêncio”, escreveu um dia Eduardo Lourenço . “Mas certa pintura inscreve esse silêncio em qualquer coisa a que convém o nome sempre suspeito de ‘mistério’”1. Para as obras que se juntam nesta exposição será talvez adequado adicionar a palavra “espíritual”. É uma experiência metafísica aquela provocada pela contemplação das auras espectrais criadas por Eduardo Nery. A par com estas, o olhar prolonga-se em efeitos de infinitude espacial nas telas de Noronha da Costa. Muitos considerarão uma ligação pouco provável. Um rendez-vouz imprevisto entre dois pintores da mesma geração, mas paralelos em percursos. No entanto, após o confronto, a lógica aparece como evidente.

Ao longo da sua demanda no questionamento das condições de existência da imagem, tendo como trunfo uma manipulação exímia da luz, Eduardo Nery passou por diferentes fases, quer em técnicas quer em campos estéticos. Uma das suas fases mais interessantes e mais longas (de 1979 a 1992), mas nem por isso das mais conhecidas, é a da pintura a spray. Neste período – mostrado ao público pela primeira vez em 1980 aquando da exposição “Espaço-Luz”, na Galeria Quadrum, em Lisboa – Eduardo Nery cria paisagens cósmicas e de efeitos tridimensionais que encontram pontos de convergência na fase mais recente de Noronha da Costa, inaugurada muito mais tarde, em 2005, na exposição “Piero della Francesca após Lúcio Fontana” na Sociedade Nacional de Belas Artes. Apesar do longo historial de amizade e convivência, os dois autores tinham perdido o contacto pessoal e profissional por contingências da vida, tendo o desafio deste frente-a-frente constituído uma surpresa para ambos. As obras destes artistas, baseadas na vertigem da luz que as constitui como que numa obsessão, dirigem-se progressivamente “para as mais fundas interrogações sobre a natureza crepuscular de toda a imagem e, necessariamente, para a inquietação filosófica – e mesmo existencial – que acompanha, em matéria de reflexão e de pensamento, o percurso das suas imagens”2. Este excerto, escrito a respeito de Noronha da Costa por Bernardo Pinto de Almeida, por coincidência ou não, é também aplicável sem grandes desvios à fase de pintura a spray de temática cósmica de Eduardo Nery. As paisagens celestes destes pintores, imersas quase sempre num azul trémulo mas tranquilo, chamam o observador para a contemplação. São obras serenas e silenciosas, em direcção ao infinito, ao transcendente. Apelam à introspecção sem deixarem, no entanto, de assumir uma atitude de dúvida em relação à própria pintura. E aqui reside outro elemento central que une Eduardo Nery e Noronha da Costa desde sempre: o questionamento da própria pintura pela desintegração e desconstrução experimental da imagem.

Na audácia de agrupar artistas por aquilo que eles possam ter em comum, inevitavelmente alude-se a uma tendência ou um estilo, tenha ele nome ou não, seja ele previamente existente ou apenas fruto das circunstâncias. Cria-se assim um campo de intersecção delimitador de um espaço de diálogo. Para Arnold Hauser, “o conceito de estilo deriva do facto paradoxal de os esforços de vários artistas, trabalhando separadamente e muitas vezes independentemente, terem revelado uma direcção comum de as suas aspirações individuais estarem inconscientemente subordinadas a uma tendência impessoal, supra-individual e de – contradição aparentemente insolúvel da história de arte – um artista ao dar largas aos seus próprios impulsos, produzir algo que vai para além do que na verdade pretendeu”3. Neste caso, a diluição da imagem através da técnica do spray é a marca de estilo que une estes dois criadores. Mas além da forma e da técnica, há qualquer coisa mais que os une e que pertence ao “sentido secreto” da obra que produzem.

Noronha da Costa e a Paisagem Desintegrada



Na pintura, a chamada “arte do espaço”, o movimento sem deslocação efectiva é estabelecido pela vibração ou irradiação. A própria técnica da pintura a spray resulta em degradés e dispersões cromáticas que servem esse propósito criando ilusões de volumes e sombras. Através da sobreposição de planos e pela vibração das cores em diáfanas camadas de tinta, a pintura de Noronha da Costa (tal como a de Eduardo Nery) tem aquela capacidade que Merleau-Ponty referia de “sugerir uma mudança de lugar, como o rasto de uma estrela cadente sobre a minha retina me sugere uma transcrição, um mover-se que ela não contém”4. O quadro terá de ser capaz de apresentar ao observador uma série de imagens que em conjunto sugiram o movimento que na realidade não está contido em si e que seria fornecido pelos movimentos reais. A representação desse movimento implícito, pelas problemáticas que levanta, e pelas ilusões que cria, abre-se ao universo das interpretações subjectivas e das sensações. É nesta perspectiva que Noronha da Costa se aproxima da op art, ainda que de forma subtil, ao fazer-nos crer na tridimensionalidade da sua pintura, na falsificação das perspectivas e no cinetismo das formas. São como “atitudes instáveis em suspenso entre um antes e um depois, numa palavra, os exteriores da mudança de lugar que o espectador leria no seu traçado”5.

Noronha da Costa sabota os mecanismos de representação na pintura e celebra assim a sua morte. Pratica o simulacro da imagem e destrói a referencialidade da ideia de pintura como um absoluto inquestionável. Neste caminho, as cores, as profundidades, transparências ou perspectivas são “baralhadas” de maneira aparentemente aleatória. Noronha da Costa não abdica destes elementos; apenas os subverte e, no caso destas mais recentes pinturas, até a figuração, presente em quase todas as suas fases anteriores, desaparece progressivamente. Não obstante as sucessivas desintegrações da imagem, existem ainda vestígios de elementos vindos da sua pintura anterior. Eles vivem agora como auto-citações do que constitui o leitmotiv mais associado ao artista: a paisagem marítima quase indecifrável, o céu crepuscular, a neblina, o “embaciamento” da tela. O sentido geral desta pintura é de um caminho em direcção à abstracção em cujos planos entram, aqui e ali, elementos geométricos. Mantém-se um certo paisagismo difuso, com elementos absurdos e alusões à anti-pintura. No fundo, estas obras fazem uma súmula de todas as anteriores experiências pictóricas do artista.

Compreendendo uma carreira com mais de 50 anos, verifica-se que Noronha da Costa decidiu muito cedo adoptar a técnica do spray como omnipresença na sua pintura, e com isso se tornou reconhecido, reconhecível e inconfundível entre os protagonistas da arte contemporânea portuguesa. Também é verdade que, ao longo do seu percurso, outros criadores, com maior ou menor proximidade, em alguma altura das suas carreiras (e porventura em outras técnicas ou conceitos) se aproximaram do seu universo plástico e/ou filosófico. É, por exemplo, o caso de Lourdes Castro quanto à representação da ausência e à captação fantasmática da figura através da da sombra. Cruz-Filipe também andou perto das questões que interessam Noronha da Costa, com referências a imagens românticas de mares e paisagens em planos sobrepostos. Mas um outro artista, e de forma acentuada, teve um momento especial e específico no seu percurso que, pela técnica e pelo espírito, serve de razão para o encontro com Noronha da Costa. Essa inegável afinidade estética dá-se com Eduardo Nery, nome incontornável na nossa cultura artística.

Eduardo Nery e o Cósmico Sublime

A exposição dos dois artistas em Paris aconteceu durante a época em que Eduardo Nery se encontrava dedicado a uma pintura de elementos insólitos e de espaços absurdos, chamada de “metafísica”. Posteriormente – e até hoje – entrou num outro período em que aprofundou as suas experimentações e sobreposições em fotografia. Depois de uma pintura de complexidade e espectacularidade, o artista provoca-nos com um profícuo conjunto de trabalhos de uma assumida anti-pintura (o que adiciona mais um ponto em comum com Noronha da Costa). Eduardo Nery desafia o suporte, revalida a moldura, questiona e violenta a superfície da tela em agressões que retomará mais tarde. Como consequência destes avanços e retrocessos na tentativa de reposicionamento de um impossível ideal pictórico, Nery faz um corte no caminho, despojando-se da figuração e de demais artifícios. Em 1979, vindo de uma multiplicidade de técnicas e resultados, a sua obra mostrou-se mais limpa, mais etérea. Volta à pintura, desta vez utilizando o spray e investindo numa temática cósmica que coloca em jogo o espaço e a luz. Aliás, Eduardo Nery nunca se distanciou muito da temática cósmica, o que se pode observar nas obras gestuais dos anos 50 e 60 (e depois já em anos 2000). A própria pintura op de Nery tem a ver com um sentido cósmico, ao sugerir uma expansão da visão, criando espaços sem limites nem referências de composição que possam guiar o olhar do observador a pontos preponderantes. Este mesmo princípio é retomado nas obras a spray, embora redefinindo o seu uso habitual da geometria e adoptando uma estrutura mais fluida, menos sistematizada. O uso de redes em algumas destas pinturas permite ao pintor exercer ainda o seu fascínio por texturas e motivos repetitivos – vestígio ainda da modulação característica da op art. Outro elemento remanescente é a presença de cubos e pirâmides à volta dos quais se formam feixes de luz que imitam o rasto de uma trajectória ascendente. Nunca desistindo de interrogar o estatuto da pintura e do desenho, Eduardo Nery não só sobrepõe finas e dispersas camadas de tinta, mas também provoca rasgões, como feridas no papel. O improviso volta a tomar conta da obra. Com a técnica de rasgar e colar em sucessivas camadas, o autor desprende-se do controlo de resultados. O papel segue a sua própria direcção na dilaceração que o pintor inflinge e isto cria um novo gestualismo. O acto de desenhar rasgando representa um lado espontâneo e aleatório, tal como o spray, cujo resultado é também impossível de controlar e antever.

O que caracteriza estas imagens de natureza espectral é um sentido de espaço ilimitado. Paradoxalmente, embora encerrado dentro de uma superfície plana e rodeado por uma moldura, esse espaço expande-se potencialmente em todas as direcções. Eduardo Nery trabalha o plano, mas fá-lo vibrar em profundidade, para além da gradação luminosa. A impermanência, a desintegração da imagem, a sua montagem e desmontagem são palavras de ordem para este artista, dentro da tendência para o transcendente e para o espiritual. “Por isso, o que se reconhece como aura e respiração e aragem dos astros se ouve, mas como emanação da matéria só alguns vêem. Etéreo é o princípio irradiante do visível, porém o seu outro lado subtil, existente, só como aura é visível. É o outro lado do visível que, na pintura estranha e bela de Eduardo Nery, se anuncia e finalmente se vê”, escreveu Fernando de Azevedo no catálogo da exposição “O Outro Lado do Visível”, na Galeria YGrego, em Lisboa6. Os conceitos de indeterminação espacial e temporal são cruciais para entender o que Nery queria exprimir – mais do que representar: a energia cósmica ou astral. Eis o mote para a maior parte do seu trabalho, que se torna visível na pintura metafísica, na pintura a spray e contemporaneamente na fotografia.

Eduardo Nery propõe nestas imagens uma temática ligada à ciência e à teoria quântica, numa aproximação aparentemente contraditória (mas só aparentemente) à ideia de Deus. Esse interesse é constatável em títulos como “Exalação Cósmica”, “Criação Contínua” ou “Universo em Expansão II”. Uma ideia-chave no trabalho de Eduardo Nery é a constante procura da energia e nisso se compreende as imagens de auras que não são senão energia irradiada a partir de corpos com vida. O que fascina nestes trabalhos é que Eduardo Nery consegue associar a ciência à espiritualidade, uma ligação tantas vezes tentada como falhada. Nos seus eixos verticais evoca o axis mundi, o eixo que liga o céu à terra e representa uma viagem que pode ser ascendente ou descendente, material ou espiritual. Nas linhas horizontais, ele traz-nos uma sensação de paisagem sob a luz de um qualquer crepúsculo. A luz como metáfora de transmutação. Eduardo Nery reitera a sua “necessidade individual de tornar verdadeiras a memória e a própria ilusão do mundo”7. Esta exposição insinua que Eduardo Nery e Noronha da Costa são, em silêncio, cúmplices dos mesmos mistérios.

Miguel Matos

2. ALMEIDA, Bernardo Pinto. Noronha da Costa ou a Consciência do Tempo. Ed. Caminho, Lisboa, 2006.

3. HAUSER, Arnold. Teorias da Arte. Editorial Presença, Lisboa, 1988

4. PONTY, Merleau. O Olho e o Espírito. Vega, Lisboa, 2006

5. idem

6. AZEVEDO, Fernando. O Outro Lado do Visível. Galeria YGrego, Lisboa, 1990

7. SOUSA, Rocha. Indagação sem Heterónimos Entre a Geometria e o Sonho, in Colóquio Artes, nº69. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Junho de 1986

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Miguel Matos usou o pretexto de uma nova exposição para conversar com Eduardo Nery sobre um zigue-zague de temas e controvérsias.

A luz é o elemento que penetra no olho para criar imagens no cérebro. Eduardo Nery tem baseado a sua investigação no modo como a retina absorve e descodifica aquilo que a estimula. Nas suas colagens, pinturas, tapeçarias, azulejos, vitrais e outras técnicas, é uma manipulação retiniana aquilo que o define. E a luz manipulada atinge o seu climax no medium que a ela mais directamente se liga: a fotografia. As fotografias de “Vida Dupla, Casa Arrumada” são fotografias de dupla exposição derivadas das colagens dos anos 70, “O Museu Imaginário na Sociedade de Consumo”, que incluiam títulos tão irónicos e divertidos como “A Batata Frita na Existência Humana”. Nessas obras misturava e punha em colisão obras da pintura antiga com imagens vindas da publicidade e da comunicação social. Naquela altura uma crítica à sociedade de consumo era a coisa mais natural, e hoje? A exposição que inaugura esta semana na Ermida de Nossa Senhora da Conceição é testemunha de um percurso diversificado, mas pouco reconhecido. Uma provocação poética e ideológica que permite debater os fantasmas da sociedade.

O Eduardo tem uma dualidade constante na sua obra. Se por um lado há obras em que reflecte sobre a pintura, questionando-a e pondo em causa as noções de espaço, consegue também em outros trabalhos fazer um comentário social. Neste momento, recorrendo à técnica da dupla exposição, volta à crítica da sociedade de consumo… Para muitas pessoas, o objecto artístico não passa de um veículo de afirmação de status. Como comenta isto?

Primeiro, uma pintura é um objecto, não há volta a dar-lhe. Pode ser um objecto particularmente rico em conteúdos espirituais, mas em termos materiais é realmente um objecto. A maioria das pessoas vê a pintura como uma coisa em que se pode empatar dinheiro e que é rentável em termos de mercado. O conteúdo intelectual ou emocional não é para elas o mais importante. É apenas um investimento ou um bem sumptuário como os carros, as propriedades ou os barcos que compram.

 

O pior é quando as pessoas se transformam em objectos ou vivem para eles.

Esse é o ponto fundamental que procurei explorar. As pessoas estão de tal maneira envolvidas com os objectos que se transformam elas próprias em objectos. Como os modelos que posam para as fotografias de publicidade: já são objectos. Tornam-se dependentes destes e dos objectivos que estão por detrás da imagem. As mensagens económicas, o marketing, a sociedade de consumo e o poder económico são quem alimenta tudo isto. Portanto, as pessoas são esvaziadas da sua individualidade e personalidade, passando a funcionar sobretudo a um nível comportamental definido pela sociedade de consumo.

São seres humanos funcionais, portanto. Vivem para servir os objectos.

E são o prolongamento desses objectos. Este trabalho tem a ver com a antepenúltima exposição que fiz em Lisboa, na Galeria Arte Contempo e tratava da metamorfose do homem em animal. Todos nós temos um lado animal que rejeitamos por nos sentirmos acima desse nível, mas a verdade é que, quando menos se espera, esse animal vem ao de cima. Todas as séries de fotografias e colagens têm focado qualquer coisa que ainda não disse. Esta exposição é sobre o tema do humano a desumanizar-se.

Isso tem muito a ver com a ironia que utiliza sempre na sua obra… mas os portugueses não convivem muito bem com a ironia, ao contrário dos ingleses por exemplo…

Quando eu era mais novo, muita gente adorava contar anedotas. Hoje em dia não tenho à minha volta pessoas que o façam. Acho que as pessoas nunca tiveram sentido de humor ou estão a perdê-lo com os seus quotidianos. Estão ensimesmadas com as suas coisas. A ironia é uma provocação, mas é também um olhar novo de quem rejeita sentir-se esmagado pelo status quo. Posso dizer que a minha ironia começa em obras que nem passam pela cabeça das pessoas. Em 1970, muitas das obras do final da minha fase Optical Art eram irónicas: entrei para dentro da perspectiva depois de a estudar a fundo e a minha ironia era sabotar o próprio sistema, mas para isso era preciso conhecê-lo muito bem. Por exemplo, em muitos dos meus trabalhos da série “Sólidos no Espaço”, as perspectivas parecem ir contra nós, como parecem ir para trás, como um objecto que devia estar atrás e está à frente, numa perspectiva invertida. Viro tudo ao contrário. Não é a ironia que as pessoas sentem imediatamente nas minhas colagens ou fotografias ao brincar com temas que dizem respeito aos seus quotidianos. São formas de pôr em causa os sistemas de representação na arte, a perspectiva e o claro-escuro. Esse olhar irónico é quase niilista na sua negação, mas também tem a ver com o facto de ter entendido muito bem o dadaísmo e incluir o fantástico.

E por falar em dadaísmo e fantástico, a sua obra tem muito de surrealismo e de metafísica, não é verdade?

Mas diga isso em público a ver se alguém percebe. É que não há meio de finalmente se entender isso. O paradigma do que diz é o quadro que está na Brasileira do Chiado: é um bom exemplo daquilo que fiz nesse período e está cheio de ironia e de situações metafísicas. Eu ando completamente perto dos surrealistas, mas nunca fui associado a eles porque as pessoas adoram formatar. O Eduardo Nery é o pai da Op Art ou o mestre da arte pública e não existe mais nada.

Mas de facto, o fantástico, o humor e a ironia são as traves mestras do surrealismo…

E depois pode ir até ao absurdo, como se pode ver em muitos títulos meus. Algumas imagens são intencionalmente incongruentes, assim como as fotografias que estou a fazer agora. Sei bem que estou a sabotar várias coisas. Esse lado irrequieto que há em mim vem desde criança e há-de acompanhar-me até ao fim da minha carreira. É a única maneira de me sentir vivo numa sociedade cada vez mais deprimida e esmagada pelos problemas do quotidiano. Vejo isso como um factor positivo capaz de rejuvenescer até a própria arte.

Parece que o Eduardo tem a obsessão de desconstruir, desfazer, partir a imagem, não é?

Sim, para depois recolher os fragmentos. A primeira vez que desconstruí e recombinei uma obra foi com os azulejos com imagens do século XVIII. São as “Figuras de Convite” que estão na estação do Campo Grande, que eu não teria feito se não tivesse feito antes disso o trabalho das colagens dos anos 70. Quando eu destruo, depois reconstruo os fragmentos.

A fragmentação atravessa a sua obra, mas numa multiplicidade de técnicas e linguagens diferentes…

Num artigo sobre mim na revista Colóquio Artes, Rocha de Sousa fala da existência de heterónimos na minha obra. Eu também acho que tenho vários heterónimos, mas, ao contrário de Fernando Pessoa, não lhes dei outros nomes. Talvez o devesse ter feito porque assim as pessoas hoje percebiam como é que um homem pode ser fotógrafo e pintor ao mesmo tempo.

Mas hoje há a designação do “artista visual”, que abarca todas as áreas. É mais abstracta e mais correcta…

Eu qualquer dia ponho isso nos meus cartões de visita. É que não sou só pintor. Também sou designer, como se viu na recente exposição de jóias na Ermida. Mas há dois heterónimos essenciais, que são extremos mas combinam-se a torto e a direito: são os lados racional e intuitivo. Por um lado, o jogo com a rapidez e a espontaneidade. Foi por aí que comecei, em obras gestuais que retomei mais tarde. Essa espontaneidade e automatismo são o lado oposto do design rigoroso que é o heterónimo oposto. Se eu estiver muito tempo a fazer uma das duas coisas tenho que voltar para a outra senão entro em desequilíbrio.

Trabalhou a antipintura na mesma altura em que Helena Almeida e Noronha da Costa estavam a trabalhar essa problemática. Desde os anos 70 que se discute a morte da pintura, com sucessivos funerais e reencarnações. Isso ainda faz sentido para si?

A pintura existirá sempre. Já lhe deram certidões de óbito vezes sem conta e ela continua aí.

São frequentes as comparações entre o seu trabalho e o de Vasarely, considerado o decano da Op Art. O que tem a dizer em sua defesa?

O meu trabalho no campo da optical art é completamente original e só espero que um dia alguém ponha as datas e as obras lado a lado para ver quem é que fez primeiro. Sou criticado de ter copiado o Vasarely, mas as obras dele que são parecidas com as minhas são posteriores. A minha op art centrava-se no campo da investigação da percepção, da cor e da luz e nos degradés que comecei a fazer em 1965, dois anos antes de Vasarely. Apreendi a disciplina dos degradés (que se encontram em muitas das minhas pinturas, no azulejo, na arquitectura e na serigrafia) não com Vasarely, mas sim com as minhas experiências em tapeçaria. Em 1960 fui para França trabalhar com Jean Lurçat, renovador da tapeçaria francesa do século XX. Aprendi com ele ao estudar as suas tapeçarias. Nas pausas de almoço ou nos fins de semana eu dedicava-me a estudá-las e ver como ele conseguia dar efeitos de relevo ou de vibração de luz.

E nesse tempo chegou a ter contacto com a obra de Vasarely?

Eu sempre tratei a cor agarrada à luz e joguei com os degradés em todas as cores ao contrário de Vasarely que inicialmente usava cores soltas. Fiz os degradés Op Art em 1965 e eles só aparecem em Vasarely dois anos depois. Em 1966, o José Augusto França levou slides do meu trabalho para a Galeria Denise René [a galeria que centralizava o movimento Op na Europa]. Portanto eu sei que a Denise René e os seus artistas viram os meus slides, embora eu não tenha estado lá para testemunhar. Mas posso ter contribuído para que o Vasarely tenha olhado para mim. Não posso afirmar mas posso pôr a hipótese de ter sido tudo ao contrário. Eu só peço que as pessoas sejam honestas comigo e reconheçam a minha originalidade. Tive o azar de ter nascido em Portugal, porque se tivesse nascido num país que não estivesse bloqueado no tempo de Salazar, entrava logo nos circuitos internacionais, coisa que não consegui. Toda minha obra a partir de 1967 não tem nada a ver com Vasarely pois entrei em diferentes áreas. Se o meu trabalho no campo da arte concreta é completamente original, então porque é que eu iria copiar o Vasarely numas coisas e não em outras? Vou ser sempre associado a ele até ao fim da vida enquanto as instituições não decidirem fazer a justiça de mostrar todo o meu trajecto até agora.

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Eduardo Nery desenhou as“Linhas Paralelas” que Alexandra Corte-Real transformou em jóias. Miguel Matos mostra-lhe o resultado.

Eduardo Nery, mestre da optical art portuguesa, tem pautado a sua carreira pelo recurso às mais diversas técnicas e suportes. Trabalha não só em desenho e pintura sobre tela, como em cerâmica, escultura, azulejaria e grandes projectos de arte pública. As suas linhas dinâmicas e coloridas, que assumem frequentemente dimensões quase monumentais (nos murais que tem feito, por exemplo), foram agora encolhidas milimetricamente à escala de um dedo, uma orelha, um pulso. Os desenhos de Eduardo Nery, transformados pela joalheira Alexandra Corte-Real são obras pensadas para uma função específica, articulando as linguagens dos dois artistas.

Para quem chega a este parágrafo com o sobrolho levantado, que o baixe pois para Nery, a joalharia é um assunto sério e que há muito lhe interessa, uma vez que se considera um artista e ao mesmo tempo um designer. Mas foi com a produção da taça para a Vista Alegre, no ano passado, que ganhou ânimo para acreditar que era capaz de fazer jóias também. “Em ambos os casos, estou a usar o dourado, cor que tenho usado desde os anos 70. Tenho um fascínio muito grande pelo ouro, pelo seu sentido metafísico e simbólico. A minha última exposição de guaches tinha imensas obras em que usava o ouro e estas jóias vêm no seguimento dessas duas experiências: os guaches e a taça da Vista Alegre.”

“Ocorreu-me a ideia e convidei o Eduardo”, diz Alexandra Corte-Real sobre como surgiu tudo isto. “Ele ficou a olhar para mim, pensou e depois aceitou. Para ele foi um desafio porque representou entrar numa área diferente. Para mim também foi desafiante porque tenho por hábito desenvolver o meu trabalho do princípio ao fim. Se ele aceitou que eu fosse intervir, eu tive de aceitar que a ideia-base seria dele.” O brilho dourado, que desde há décadas sublinha a obra de Nery, aparece agora sob a forma de jóia. A partir do convite de Alexandra, criou formas que bifurcam: dão lugar a objectos em prata e em prata dourada. “Estes materiais levaram-me a criar cores que fossem contrastantes com eles e ao mesmo tempo os integrem. As obras voltam à questão inicial das formas e do movimento na optical art. Ao desenhar, eu já pensava que esse desenho resultaria num pendente, em brincos ou botões de punho. No entanto, quem tomou essas decisões foi a Alexandra, pelo seu conhecimento da escala e do grau de dificuldade técnica”, explica o artista.

Não se trata aqui de um trabalho de colaboração, mas sim de co-autoria. “A Alexandra teve tanta autonomia no seu campo como eu tive a desenhar”, diz Eduardo Nery. No fundo, este projecto foi um grande desafio duplamente sentido. Para Nery, foi uma questão de dimensões, ao passar de uma escala de pintura para objectos tão pequenos. Por outro lado, para Alexandra Corte-Real, o desafio de transformar um desenho numa jóia, não fazendo apenas ajustes ou intervenções funcionais mas sim prolongando linhas e projectando as formas para que continuasse a haver o mesmo equilíbrio do trabalho original. “Este trabalho não é apenas uma adaptação”, explica a joalheira. “Não me limitei a acrescentar uma função, mas desenvolvi a peça.”

A jóia é, por definição, uma obra que se relaciona directamente com o corpo. Que preocupações teve Eduardo Nery ao desenhar para tal finalidade? “A única preocupação que tive foi a de não fazer peças agressivas. Ficou de lado uma ideia que tive para um colar. Nesse desenho eu não consegui encontrar as formas adequadas, uma vez que os seus ângulos se podiam espetar no pescoço. De resto, foi apenas uma questão de escala.”

Entre Nery e Corte-Real, “Linhas Paralelas” é uma exposição híbrida, de autoria mista. Joalharia de autor para quem não a considera como manifestação artística. Conhecendo o gosto da ASAE em apreender jóias de autor como fez em Serralves, reza-se para que a exposição chegue intacta ao seu último dia na Ermida de Belém.

“Linhas Paralelas” está patente na Ermida da Nossa Senhora da Conceição (Travessa do Marta Pinto, 21) de 5 a 20 de Dezembro. Aberta de terça a sexta das 11.00 às 17.00 (encerra para almoço das 13.00 às 14.00). Sábado e domingo das 14.00 às 18.00. A entrada é gratuita.

Time Out, 1 de Dezembro de 2009

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