— Folha de Sala

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Veio do Mali e chegou à Gulbenkian a exposição “Fronteiras”: um conjunto de 180 obras em fotografia e vídeo de 53 artistas africanos e afro-americanos, que estiveram representados na última edição dos Encontros de Bamako, produzida em 2009. Segundo António Pinto Ribeiro, comissário do Programa Gulbenkian Próximo Futuro, trata-se da “maior exposição de fotografia africana alguma vez mostrada em Portugal”. E é também uma exposição que nos mostra uma África multifacetada em questões sociais e políticas ou étnicas.

O tema da exposição aborda um território cuja história é feita de fronteiras impostas, acarretando rupturas e conflitos (grande parte das fronteiras dos Estados africanos resulta das decisões imperialistas europeias, decretadas na Conferência de Berlim, em 1884). A relação de África com o resto do mundo é, assim, feita de preconceitos e incompreensões mútuas, mas mesmo dentro do próprio continente, as condições de vida obedecem a situações difíceis que transformam a vida numa prova de obstáculos. “Fronteiras” não se centra apenas nestas dificuldades e exalta também as construções imaginárias dos povos, interpretadas pelos artistas. São postas em causa as tradições na contemporaneidade e os mitos ancestrais remanescentes. São visões e transformações da realidade que sofrem depois uma absorção condicionada pelo observador europeu, sendo que o que fica na memória é já uma ficção subjectiva. No fundo, a pergunta “O que é uma fronteira?” é aqui posta, seja ela em sentido literal, territorial e físico, como em sentido psicológico. Sendo que a fronteira é um limite ao ser humano, impedimento de passagem e barreira, é curioso ver que estas fotografias e vídeos são habitados na sua maioria por pessoas nas suas histórias do dia-a-dia.

De entre os países mais representados nesta mostra, destacam-se o Mali, a Tunísia, África do Sul, Nigéria, Congo e Marrocos. Como exemplos da diversidade patente, há que assinalar Ismaïl Bahri, da Tunísia, que apresenta o vídeo Ressonâncias (2008), cuja ambiência poética se traduz em imagens lentas e hipnóticas, com apontamentos caligráficos dentro e sobre a água de uma banheira. Como retratos parciais de um continente, saliente-se a excelente composição das fotografias de Ali Mohamed Osman que mostram o Porto do Sudão e imagens dos seus recursos aquíferos, assim como as fotografias que Armel Louzala fez em 2008 da destruição operada na República do Congo. Uche Opkpairoha, da Nigéria, faz o registo de como se vive debaixo de uma ponte e Mohamed Bourouissa (Argélia-França) mostra-nos cenas de tensão na comunidade africana dos subúrbios de Paris. Nos Blocos Quadrados (2009) de cimento numa praia em Argel, Kader Attia, fotografou meninos cujo olhar segue os barcos que fazem a ligação entre a Europa e a África, sonhando com a fuga para uma vida melhor. No geral, esta exposição é tudo menos simples, tudo menos pacífica e as problemáticas levantadas estão longe de se verem resolvidas. Basta referir a abordagem de elementos fracturantes da sociedade como os tabus da homossexualidade ou os mitos associados aos gémeos e aos albinos, causadores de segregação.

É marcante a selecção de obras, a sua diversidade, qualidade e pertinência de discurso. Entre a geografia e as questões sócio-políticas de todo um continente, a exposição “Fronteiras” poderá representar um momento de charneira na visão que podemos ter acerca da fotografia africana e da arte contemporânea africana em geral, ao mesmo tempo que promove o debate acerca de um enorme conjunto de temáticas, quase sempre sensíveis e multidimensionais.

 

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Manuel Luís Cochofel fez o retrato de uma mulher solitária que Miguel Matos conheceu na Galeria Pente10.

Valentina está cansada da vida que tem e de carregar sozinha as compras do supermercado ladeira acima. A cama é fria à noite e ninguém apanha as canas do seu fogo de artifício. O monitor é o refúgio onde desabafa as suas fantasias e busca, busca… Um dia cria Valentina 170167, na esperança de que esse heterónimo virtual traga nova vida e um sentido à Valentina real. Fotografa-se e corresponde-se com outros homens e mulheres com números em vez de apelidos. Hoje recebe uma nova mensagem e à noite entrega-se a um desconhecido na esperança de casamento.

Esta história pode ser ficção. Mas Valentina 170167 é real. Não sabemos quem é, mas podemos contactá-la através do site onde ela busca um marido, um companheiro, o remédio para a solidão.

O fotógrafo Manuel Luís Cochofel trouxe Valentina 170167 para fora do monitor. Criou uma narrativa visual que extrapola para todos os utilizadores desse site que com ela se possam ter cruzado numa exploração de um universo que é público e privado. São retratos roubados. Imagens que descontextualizou ao fotografar o monitor de um computador. Cochofel recria a intimidade desta personagem através de um fio condutor que liga vários ambientes e introspecções.

“Criei o retrato interior de uma Valentina mas já nem sei qual delas era realmente a Valentina 170167. Há alguém que existe e que põe fotografias na internet à procura de marido. Espero recriar o estado de espírito de uma pessoa solitária, com dificuldades de relacionamento e que utiliza a net para encontrar a felicidade. Esse estado de espírito é criado através de imagens que são o repositório de memórias, de sonhos, de pessoas com quem ela se cruzou”, explica. Manuel Luís Cochofel fotografa sem compromissos desde 2000 e dessa liberdade misturada com uma curiosidade técnica resulta um corpo de trabalho curto e recente mas cheio de intensidade pictórica. Tem 43 anos, é músico e faz parte do Lisbon Underground Music Ensemble. Da música para a fotografia, tudo aconteceu também na internet. “Em 2000 registei-me num site de fotógrafos que foi a minha escola inicial. Comecei a fazer os meus primeiros bonecos e a pôr no site… Mas principalmente ia vendo outras fotografias e a internet resolvia as minhas dúvidas.” Desde 2005 que Manuel faz experiências de fotografar o monitor do computador lá de casa. Estes são retratos de criaturas que vivem submersas em píxeis. Uma camuflagem proporcionada pela trama do computador que traz voyeurismo, tridimensionalidade e um jogo de padrões difícil de conseguir ao nível técnico. E embora as imagens em si sejam desprovidas de emoção, elas criam um ambiente pesado e triste.

A exposição divide-se em duas partes. A primeira é constituída por imagens, retratos e corpos roubados do site matrimonial. A segunda é um retrato interior da personagem Valentina em que descemos à sua intimidade através de metáforas visuais de locais abandonados ou evocativos de experiências. No final há um desenlace que é feliz, mas só aparentemente. Um retrato de casal que denota uma tensão e deixa a narrativa em aberto. Será que Valentina encontrou o companheiro que desejava ou resolveu render-se ao que lhe apareceu à frente?

“The Inner World of Valentina 170167” está patente na galeria Pente10 (Travessa da Fábrica dos Pentes, 10) de 27 de Janeiro a 21 de Março. A entrada é gratuita.

Time Out, 20 de Janeiro de 2009

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“Red or Blue” é a exposição que revela o artista Daan van Golden ao público português. Miguel Matos faz-lhe a visita guiada.

Daan van Golden (Roterdão, 1936) é um artista venerado na Holanda desde a década de 1960, mas só chegou agora à Culturgest, no âmbito da sua missão de divulgação de nomes menos conhecidos.

No início da carreira, van Golden adopta um estilo de expressionismo abstracto, mas com um trabalho ainda imaturo. É isso que ele próprio percebe numa viagem ao Japão em 1963. Esta estadia foi uma experiência de desenraizamento em relação ao seu contexto social e artístico, um distanciamento que ditaria as regras da sua arte até hoje.

“Quando ele lá chega, toma consciência de que o seu trabalho estava esgotado”, explica Miguel Wandschneider, responsável pela vinda da exposição a Lisboa. “No Japão, ele é influenciado pela meditação e pela filosofia Zen, começando a desenvolver um trabalho em que concebe a actividade artística como uma espécie de meditação. Um dia, encontra no chão do seu ateliê uma amostra de tecido e copia-a para uma tela. Reproduz padrões abstractos encontrados em papel de embrulho em lenços ou toalhas de mesa.” A ligação com a filosofia Zem dá-se neste trabalho de quase mimetismo, com uma dimensão meditativa, devido à sua lenta elaboração. “Há uma grande meticulosidade e rigor que envolve um esvaziamento mental”, diz Wandschneider.

Não se colando a nenhum movimento artístico, Daan van Golden pisca o olho à Arte Pop europeia e à Op Art, passando pelo minimalismo e pela arte conceptual. Mondrian, Pollock, Matisse, Giacometti e Yves Klein são também referências que ele usa sem pudor. Como se mistura tudo isto? Primeiro que tudo, as quadrículas que ele encontra nas toalhas de mesa acabam por ser derivações das linhas geométricas que Mondrian tinha explorado.

Depois, Golden encontra figuras em imagens alheias que supostamente não possuem um lado figurativo. Em fotografias de flores ele encontra rostos e num pequeno fragmento de uma composição abstracta de Jackson Pollock ele descobre gente, pássaros ou raposas e copia estes detalhes para telas, aumentando a sua escala. Redescobre motivos, isola-os e apropria-se disso. A certa altura ele descobre figuras de pássaros nos veios e nós de uma tábua de madeira. Acaba por emoldurar essa tábua e considera-a como objecto artístico, na tradição do object trouvé.

Mais à frente nesta exposição, um marco na sua vida: em “Golden Years”, o artista colecciona recortes de fotografias em jornais com a respectiva legenda. Selecciona uma imagem de cada ano da sua vida, por entre as imagens guardadas numa caixa. O resultado é uma série cronológica que acaba por ser uma história subjectiva da fotografia. “Esta obra é um atlas da sua vida e da própria fotografia”, diz Miguel Wandschneider. Fotógrafos emblemáticos são mais uma vez apropriados numa viagem por imagens de guerra, ícones de beleza e do espectáculo, pela música rock e pelas divas do jazz. Personagens como Brigitte Bardot, Andy Warhol, Elvis Presley, Bob Dylan, os Rolling Stones, Bill Gates e Keith Haring contam a história do século XX.

O lado pessoal de Daan van Golden não é directamente explorado nesta exposição, mas acabamos por conhecê-lo intuitivamente. Tal como em “Golden Years”, uma outra linha de tempo é criada com a obra “Youth is an Art” que não é mais do que uma série de fotografias espontâneas do quotidiano da filha e das viagens que fez com o pai, desde o nascimento à idade adulta. “Red or Blue” traz à evidência que no trabalho de Daan van Golden há sempre uma disponibilidade para acolher os acasos do quotidiano na arte.

“Red or Blue”está patente na Culturgest até 6 de Setembro. Aberta de segunda a sexta das 11.00 às 19.00. Sábados, domingos e feriados das 14.00 às 20.00. Encerra terças. 2€.

Time Out, 4 de Agosto de 2009

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Miguel Matos leu e recomenda o livro sobre Miguel Branco. Leve os óculos e visite também a exposição na livraria da Assírio & Alvim.

A fábula começa na rua Passos Manuel. Ao entrar pela porta da livraria Assírio & Alvim, o olhar foge para pequenos rectângulos nas paredes do fundo, na galeria. Uma pequena e simpática corça em bronze diz olá e apresenta o visitante aos seus amigos, representados à sua volta em minúsculas pinturas. São caveiras, macacos, avestruzes, galinhas e personagens ocultas que perturbam e intrigam. O que fazem eles aqui? São testemunhas do lançamento do livro sobre quem as criou.

Esta é a primeira monografia sobre a obra de Miguel Branco, contando com dois textos sobre os 25 anos da sua produção artística. Finalmente todas as criaturas de Branco estão reunidas numa análise a quatro mãos. São dois os autores: Manuel Castro Caldas, presidente do Ar.Co (escola onde Miguel Branco lecciona Pintura) e Mark Gisbourne, crítico de arte. Ao longo destas 144 páginas, faz-se uma leitura exaustiva e cronológica da obra do artista, percorrendo as várias fases, as várias séries temáticas, as diferentes abordagens e influências. Manuel Castro Caldas cede, aqui e ali, à tentação comum aos teóricos de arte: complicar o texto com referências que apenas entendidos poderão achar interessantes. No geral, consegue descrever e analisar a obra de Miguel Branco, mas fica-se pelas teorias e processos, deixando assim de lado a oportunidade de realçar a matéria mágica e intrigante de fábulas e mistérios que vivem encerrados nas peças do artista. Um texto objectivo, meio desencantado, como se Miguel Branco não fosse capaz de provocar sensações com as suas imagens.

No segundo texto, o inglês Mark Gisbourne já entra por análises mais livres e de cariz biográfico, mas também ele parece um pouco preso aos caminhos percorridos. Não se esquece, no entanto, do carácter enigmático da obra de Miguel Branco. Sendo assim, são dadas ao leitor as ferramentas de contextualização para que possa entrar pelo seu próprio pé na exploração deste mundo que engloba elementos aparentemente díspares como o rococó e o cinema de série B. Referências e contra-referências explicadas nestas páginas e que se revelam com o avançar das séries e dos trabalhos seja em pintura ou em escultura.

Num único parágrafo, Mark Gisbourne consegue sintetizar o trabalho deste artista: “o mundo de Miguel Branco é um verdadeiro arquivo de ideias e fontes, abarcando tudo, desde a arte da Renascença até aos cartoons manga, do horror gótico até aos espectáculos do bizarro ou à ficção do fantástico”. Salienta ainda o parentesco com os surrealistas belgas, como Magritte, e fala de uma tendência para a aproximação ao fantástico e à ficção científica, após temas de criminalidade, sadomasoquismo e “personagens transgressoras de cabeça tapada de negro”.

Segundo Gisbourne, “Branco não descarta soluções e influências que venham do seu interesse por formas históricas da arte, tais como a caricatura, a pose e o fingimento ou a máscara, mas elas serão expressas de modo cada vez mais intenso e livre nas suas madeiras de pequena dimensão que se tornaram as suas superfícies de eleição.”

Com uma qualidade excepcional na reprodução das imagens, o livro de Miguel Branco é em si um objecto precioso, documento biográfico do autor e explicativo do aparecimento daqueles animais insólitos dispostos em cenários abstractos, esqueletos grotescos e criaturas mascaradas que espreitam e se deixam observar em dimensões de miniatura. Ao vivo, esta pequena escala obriga o observador a aproximar-se de tal maneira à imagem que esta se perde e dilui. Agora pode levar estes bichinhos e personagens mascaradas para casa, mas certifique-se de que não saltam das páginas para os seus sonhos…

A exposição “Trabalhos Recentes” de Miguel Branco está patente na livraria Assírio & Alvim (Rua Passos Manuel, 67 B) até ao final de Junho. Aberta de segunda a sábado das 10.00 às 13.00 e das 14.00 às 19.00 horas. A entrada é gratuita e se comprar lá o livro ainda tem 10% de desconto.

Assírio & Alvim / ADIAC
30€

Time Out, terça-feira, 19 de Maio de 2009

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Miguel Matos ficou surpreendido com a nova exposição de Carlos Calvet e fez-lhe perguntas sobre a sua arte.

De entre os poucos surrealistas portugueses vivos e assumidos, Carlos Calvet é o segundo no pedestal, logo a seguir a Cruzeiro Seixas. Esta semana, na Galeria Valbom, ele demonstra que se pode surpreender tudo e todos depois de 60 anos de pintura. Para quem se habituou às paisagens metafísicas de cores garridas e às explosões apocalípticas dignas de capas de livros de ficção científica, esta nova visão geométrica é uma surpresa. Eis a conversa tida enquanto se desembrulhavam quadros para a montagem.

Segundo consta, o Carlos entrou na exposição dos surrealistas em 1949 de uma maneira muito informal… Conte lá como foi isso.

Na altura não estava muito integrado no grupo mas convivia um bocado com o Mário Cesariny, o Cruzeiro Seixas e o Mário Henrique Leiria. Participei na exposição com um quadrinho que nem entrou no catálogo. O convite foi feito à última hora. Eu andava a estudar arquitectura e não nos encontrávamos muito. Arranjou-se uma moldura improvisada e lá entrei na exposição. Fiz um quadro engraçado que se chamava “Bicho que dá nas Praias”. O Cesariny gostou tanto que ficou com ele durante muitos anos até à altura em que foi viver para Inglaterra. A pintura era sobre papel e, quando ele voltou, passados alguns anos, o papel tinha-se desfeito, talvez com a humidade. Perdeu-se para sempre.

Como é que aos 80 anos passou de uma pintura essencialmente figurativa e surrealista para um registo geométrico e abstracto?

Passei por várias fases, com muitas experiências pelo meio e já tinha feito tentativas destas ao princípio. É realmente uma visão modificada, mas eu gosto de criar paradoxos na imagem.

O que é que torna a sua pintura tão enigmática? Será pelas escalas diferentes na mesma imagem que dão outros significados aos objectos representados? Como as mãos enormes que parecem causar uma intervenção divina…

A mão é realmente um instrumento com um poder simbólico imenso. São os objectos do mundo exterior que adquirem uma qualidade semântica e metafórica e que enriquecem a atitude expressiva.

E afinal a sua pintura é surrealista ou metafísica?

Essas coisas não estão afastadas. O Chirico era metafísico… O surrealismo é muito vasto e variado, com tantas possibilidades que se impregna… Quem experimentou ficou preso pelo surrealismo. Pode haver uma atitude surrealista concentrada numa determinada expressividade única, pessoal, e outra que é muito mais absorvente das variedades possíveis.

No fundo, quer queiramos quer não, a dimensão onírica faz parte de todos nós…

Pois faz e sempre foi uma das grandes riquezas da arte, a exploração dos conteúdos do inconsciente. O inconsciente aparece sempre disfarçado na arte, de maneira metafórica.

E estas novas imagens de formas que parecem puramente geométricas, também têm origem no inconsciente?

A geometria está ligada ao mundo dos arquétipos platónicos, pitagóricos e também à psicanálise moderna com o Jung. O mundo arquetipal é composto por formas fundamentais que estão na origem de tudo. São materiais que aparecem de variadas maneiras mas com o seu sentido próprio, que se refere a esses arquétipos.

Daí a mistura, em alguns quadros, do geométrico abstracto com o figurativo?

Isso cria uma dualidade que é estimulante para o pensamento e para o prazer da visão. É um paradoxo.

Como é que nasce uma das suas imagens?

Tenho centenas de esboços. Trabalho com um bloco de algibeira e desenho onde calha, em qualquer sitio, quando e onde me apetece. São apontamentos que depois passam a ser quadros, mais tarde ou mais cedo. Faço tudo ao gosto, não trabalho com regras geométricas. Uma regra matemática até pode estragar a expressividade, que está ligada à emoção.

Acha que as pessoas ainda estão interessadas no surrealismo?

Parece que sim, mas a mim não me interessa essa questão. As pessoas gostam do que eu faço e isso chega-me.

“Carlos Calvet – Pinturas Recentes” está patente na Galeria Valbom (Av. Conde Valbom, 89 A) de 9 de Maio a 30 de Junho. Aberta de segunda a sábado das 13.00 às 19.00 . A entrada é gratuita.

Time Out, terça-feira, 5 de Maio de 2009

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Hoje visitei a Lara no seu atelier… Aqui vai o texto que escrevi sobre ela há um ano sobre “Fac Simile / Mimesis”:

A impressão da vivência pessoal marcada numa camisola. Os vestígios de um relógio. A reminiscência do tempo numa camisa já usada… O vestuário como registo de memórias é o ponto de partida para a exposição “Fac Simile”, de Lara Torres. A roupa como comunicação não verbal, como primeira camada pessoal. “Relacionamos as roupas com a altura em que foram adquiridas, com acontecimentos ou com determinadas épocas”, diz a criadora. É daqui que tudo parte para frames tridimensionais em tecido, porcelana, látex e prata.

Finalizado o curso de moda, Lara Torres, venceu o concurso Sangue Novo da Moda Lisboa, que lhe possibilitou estagiar durante três meses com Alexander McQueen, em Londres. Voltando a Portugal, apresenta colecções regularmente na Moda Lisboa. Mas o trabalho que Lara apresenta esta semana, apesar de se basear num conceito de vestuário, pouco tem de moda. O projecto “Fac Simile” é realizado em conjunto com Mário Nascimento (ceramista) e Catarina Dias (joalheira). “Desde 2005 que desenvolvo uma investigação sobre a relação entre o vestuário e a memória. E embora as colecções possam ter um aspecto diferente, é sempre a mesma base de pesquisa.”

Fac Simile” representa o caminho percorrido até chegar a uma colecção de moda. Só que esta experiência inscreve-se num outro domínio de interesse, com uma linguagem mais aparentada com as artes plásticas. “Para mim todas essas fronteiras e separações não fazem sentido. Quando faço uma exposição estou a utilizar um formato que não pertence à moda e sim às artes plásticas, mas porque existe um conteúdo que precisa dessa forma. Quero resolver o problema da relação das pessoas com a moda quando a encaram como uma futilidade. Quero atentar contra isto, porque me incomoda. Por ser vestuário, as pessoas tendem a pensar que o meu trabalho é pouco sério.

Assim, decidi mostrar tudo o que foi feito antes de concretizar este projecto que culmina na Moda Lisboa com a performance “Mimesis”. A exposição é feita no meu atelier e mostra as coisas que correram mal, as experiências, os fracassos. Na moda, normalmente apenas se vê o produto final, mas o processo é o mais importante. Decidi mostrá-lo para que as pessoas percebam por-que é que a minha roupa lhes pode parecer tão estranha.”

Os três criadores juntaram as áreas de forma a que se perdessem os contornos entre elas. Isto foi possível porque Lara Torres conseguiu um apoio da Direcção-Geral das Artes, o que já de si denuncia não só o carácter peculiar de “Fac Simile”, como a abertura que começa a haver nas instituições estatais. Lara não se proclama artista, mas utiliza as ferramentas da arte. Por outro lado, as peças expostas são objectos e não roupas. Não se destinam a ser usadas no corpo e possuem uma profundidade plástica e conceptual que transformam o todo num conceito artístico, uma entidade híbrida, experimental e transversal (características da arte contemporânea).

Faz sentido investigar o lugar do vestuário e a sua relação com o homem. A questão da memória tem a ver com isso. Comecei a pensar nesta ideia quando vi uma foto-reportagem sobre os conflitos na Bósnia, acompanhando os destroços do que tinha acontecido. Impressionou-me brutalmente. Era uma recolha dos corpos e das peças que os podiam identificar. Havia mortos e sacos com objectos pessoais, roupas. Por vezes só através do vestuário é que os familiares conseguiam identificar as vítimas. Foi daí que parti para a investigação da memória e da identidade. Uma busca quase arqueológica em que cada camada de trabalho oferece conhecimentos e descobertas sobre os próprios materiais.”

Um inventário de fragmentos e objectos íntimos, como memórias desfocadas com o passar do tempo. “Fac Simile” é uma exposição surpreendente e poética.

Time Out, 4 de Março de 2008

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A arte em versão ao domicílio (tipo, vamos a casa)

Precisa de estímulo artístico? Miguel Matos receita-lhe várias doses de um remédio criativo chamado Sitexcape

A arte pode assumir as formas mais diversas e pode suscitar os encontros mais inesperados. É de encontros que vive um projecto recente chamado Sitexcape.com. Como dá para ver pelo “.com” é um site, pois claro. Mas aqui reside uma plataforma de troca de experiências e conhecimentos, pessoais, teóricos, práticos e quase sempre artísticos. “A ideia do sitexcape é ser um ponto de encontro de ideias e experiências de criação”, explica Natércia Caneira, artista e criadora deste site que envolve outros autores como Orlando Franco, Susana Anágua e Bábara Assis Pacheco, entre outros. “Queremos promover situações criativas. Não no sentido de uma galeria, uma revista ou um simples website. Queremos criar situações paralelas ao que normalmente é entendido como arte”.

No Sitexcape, workshops, precursos culturais, tertulias e residencias artisticas são elaborados com uma forte componente experimental. O projecto mais interesante será as reuniões de amigos em casa de coleccionadores de arte, com a intervenção dos artistas deste colectivo. Em Portugal temos escondidos em suas casas coleccionadores privados com obras muito importantes que só são mostradas aos seus amigos em jantares privados. São pessoas endinheiradas que estão fartas de sair e fazem festas em casa. O sitexcape aparece nestas festas e dinamiza a noite com as peças de arte e as palavras trocadas em casa. “As pessoas compram obras de arte mas por vezes não sabem muito bem porque gostam daquilo e não possuem bagagem para entender e fazer ligações. Compram por gosto. O que nós fazemos é ir lá a casa e esclarecer as coisas. Às tantas cria-se uma dinâmica em que de repente estamos a falar de política, de história… Avança-se para uma série de conversas que partem da arte para outros temas e em que todas as pessoas participam. Costumo levar outro artista comigo e trabalho também com pessoas da área de teatro, de história de arte… tudo depende da colecção que as pessoas têm em casa. Nao há limites de tempo para a conversa. Dura o tempo que tiver de durar”, diz Natércia. É o verdadeiro espírito de tertúlia, quando se pensava que esta se arriscava à extinção.

Mas como funcionam estas tertúlias animadas pelo Sitexcape? O coleccionador contacta o colectivo através do site e Natércia faz-lhe uma visita. Normalmente estes serões são só para amigos, à porta fechada pois os coleccionadores são como todos nós e não gostam de trazer estranhos para casa e muito menos de revelar tesouros publicamente. É uma coisa mais intimista e que passa de boca em boca. O resultado são experiências únicas. “conhecemos pessoas fantásticas com experiências interessantes e diferentes. Fascina-me este meandro de pessoas que são invisíveis à maior parte da sociedade”, revela Natércia. Mas o sitexcape tem outras valências e não se fica por aqui. Existem também as residências artísticas em que se junta um grupo de pessoas durante três dias fora da cidade, num espaço rural, fora do contexto em que normalmente os artistas trabalham. Partilham-se assim ideias e projectos. A questão que está por base é a mesma que, segundo Natércia Caneira, dá origem ao nome Sitexcape: “quando estas desenquadrado és mais criativo e descobres coisa novas. É a ideia do artista em viagem, típica do século XIX que faz cada vez mais sentido”. Para os mais afoitos da aprendizagem há workshops em parceria com instituições como os de desenho que neste momento decorrem no Museu de Ciência e no Museu de História Natural. São aulas práticas para pessoas que já sabem alguma coisa mas que querem um acompanhamento ao seu trabalho.

As dicas estão lançadas para coleccionadores que querem animar uma noite com amigos e para artistas em busca de inspiração. Agora é explorar o Sitexcape e descobrir outras ferramentas para crescer na arte.

Time Out, Março 2009

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“No futuro vejo a necessidade de devolver à arte os momentos de contemplação”, defende Susana Anágua (Torres Vedras, 1976). “Gosto da envolvência contemplativa entre o observador, o objecto e o artista, mas sempre com uma vertente conceptual. Sempre gostei muito dos conceitos que envolvam a ideia de ciclo, de rotação, encantamento e de paisagem. Como um catalisador de uma experiência individual, um encantamento, uma hipnose que nos vira para dentro e nos devolve a nós mesmos”.

Susana Anágua já expôs quase todo o tipo de trabalhos menos pintura. No entanto, o seu sonho inicial era ser pintora. “Desde miúda que pintava frutas e nús”, diz ela. Ou isso ou então gostava de ser cientista. Pegava em flores e metia dentro de água e depois fazia pastas, destilava a água e punha dentro de tubinhos. Escolhia as flores através das suas tonalidades e punha cascas de laranja na água para obter a cor. “Era uma cientista um bocado fraquinha porque o meu interesse era sempre a busca de paletas de cores. No fundo, eu queria ser artista e cientista só pelo romantismo da coisa”. Estudou Escultura no Ar.Co e a sua primeira peça foi logo como hoje ainda são todas: enormes e pesadas. Ou não tivesse ela instalado este ano no claustro do Mosteiro de Alcobaça um conjunto de torres de alta tensão em ferro ligadas por mangueiras cheias de água.

A inquietação de Susana não a deixou ficar muito tempo no Ar.Co e foi na Escola Superior de Tecnologia, Gestão, Arte e Design das Caldas da Rainha que acabou a licenciatura em Artes Plásticas. Começou a expor colectivamente com os colegas de curso do Ar.Co a partir de 1997. No final da licenciatura foi realizada uma exposição de trabalhos finais. Graças a isso, chegou à Gulbenkian um CD com imagens do seu trabalho que imediatamente lhe deu direito a ser convidada para participar na exposição “7 Artistas ao 10º Mês”. Ao mesmo tempo decorreria o Prémio Anteciparte ao qual Susana concorreu, tendo sido seleccionada como finalista. Ao estar ao mesmo tempo em duas importantes e prestigiadas exposições de artistas emergentes, deu-se o arranque da sua carreira. A partir daí, a Galeria Presença quis representá-la e ganhou o apoio de um coleccionador privado. Tem obras suas nas colecções da Fundação PLMJ e no Museu de Arte Contemporânea de Elvas. Expôs individualmente no Espaço de Cultura Material Contemporânea e Arte em Castelo Branco e apresentou “Natureza Mecânica, Episódio 2: A Desorientação” na Galeria Presença. No ano passado realizou um Project Room na Arte Lisboa pela Galeria Sete, de Coimbra, mas 2008 é que foi o seu ano mais importante. A convite da Fundação Calouste Gulbenkian, expôs o projecto individual “Desnorte” no Centro de Arte Moderna José Azeredo Perdigão. Ao mesmo tempo, entre os consagrados João Tabarra, Joana Vasconcelos, Fernanda Fragateiro, Ângela Ferreira, Miguel Palma e Pedro Cabrita Reis, Susana Anágua era a única artista emergente convidada a realizar uma intervenção no Mosteiro da Batalha para o evento “Sete Maravilhas de Portugal”, patrocinado pela EDP. “Este convite deveu-se ao facto de a exposição na Galeria Presença ter sido sobre energias e com moinhos. O meu trabalho adequava-se assim ao tema das sete maravilhas que era as energias”.

Susana Anágua encontra-se agora em Londres a fazer um mestrado teórico em Arte Digital na University of the Arts, como forma de melhor pensar e consolidar os seus conceitos. “Estou a centrar o meu mestrado na questão da entropia e da recuperação da ordem através do caos. É uma pesquisa entre a termodinâmica e a física que entendem a entropia como uma dispersão de energia”. Este ano, no Espaço Avenida, Susana apresentou um vídeo que documentava o processo de destruição de um pneu para extrair materiais específicos que seriam reaproveitados em outros produtos. A reciclagem como forma de contrariar a entropia. É um ciclo de destruir para gerar vida de novo.

Em Setembro está planeado o regresso de Anágua a terras alfacinhas. Poderemos ver o resultado das suas investigações numa exposição colectiva na Plataforma Revólver, cujo tema é “Artistas em Trânsito”. Até lá, as suas obras estão no acervo da Galeria Paulo Amaro e no site www.anagua.org.

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