Veio do Mali e chegou à Gulbenkian a exposição “Fronteiras”: um conjunto de 180 obras em fotografia e vídeo de 53 artistas africanos e afro-americanos, que estiveram representados na última edição dos Encontros de Bamako, produzida em 2009. Segundo António Pinto Ribeiro, comissário do Programa Gulbenkian Próximo Futuro, trata-se da “maior exposição de fotografia africana alguma vez mostrada em Portugal”. E é também uma exposição que nos mostra uma África multifacetada em questões sociais e políticas ou étnicas.
O tema da exposição aborda um território cuja história é feita de fronteiras impostas, acarretando rupturas e conflitos (grande parte das fronteiras dos Estados africanos resulta das decisões imperialistas europeias, decretadas na Conferência de Berlim, em 1884). A relação de África com o resto do mundo é, assim, feita de preconceitos e incompreensões mútuas, mas mesmo dentro do próprio continente, as condições de vida obedecem a situações difíceis que transformam a vida numa prova de obstáculos. “Fronteiras” não se centra apenas nestas dificuldades e exalta também as construções imaginárias dos povos, interpretadas pelos artistas. São postas em causa as tradições na contemporaneidade e os mitos ancestrais remanescentes. São visões e transformações da realidade que sofrem depois uma absorção condicionada pelo observador europeu, sendo que o que fica na memória é já uma ficção subjectiva. No fundo, a pergunta “O que é uma fronteira?” é aqui posta, seja ela em sentido literal, territorial e físico, como em sentido psicológico. Sendo que a fronteira é um limite ao ser humano, impedimento de passagem e barreira, é curioso ver que estas fotografias e vídeos são habitados na sua maioria por pessoas nas suas histórias do dia-a-dia.
De entre os países mais representados nesta mostra, destacam-se o Mali, a Tunísia, África do Sul, Nigéria, Congo e Marrocos. Como exemplos da diversidade patente, há que assinalar Ismaïl Bahri, da Tunísia, que apresenta o vídeo Ressonâncias (2008), cuja ambiência poética se traduz em imagens lentas e hipnóticas, com apontamentos caligráficos dentro e sobre a água de uma banheira. Como retratos parciais de um continente, saliente-se a excelente composição das fotografias de Ali Mohamed Osman que mostram o Porto do Sudão e imagens dos seus recursos aquíferos, assim como as fotografias que Armel Louzala fez em 2008 da destruição operada na República do Congo. Uche Opkpairoha, da Nigéria, faz o registo de como se vive debaixo de uma ponte e Mohamed Bourouissa (Argélia-França) mostra-nos cenas de tensão na comunidade africana dos subúrbios de Paris. Nos Blocos Quadrados (2009) de cimento numa praia em Argel, Kader Attia, fotografou meninos cujo olhar segue os barcos que fazem a ligação entre a Europa e a África, sonhando com a fuga para uma vida melhor. No geral, esta exposição é tudo menos simples, tudo menos pacífica e as problemáticas levantadas estão longe de se verem resolvidas. Basta referir a abordagem de elementos fracturantes da sociedade como os tabus da homossexualidade ou os mitos associados aos gémeos e aos albinos, causadores de segregação.
É marcante a selecção de obras, a sua diversidade, qualidade e pertinência de discurso. Entre a geografia e as questões sócio-políticas de todo um continente, a exposição “Fronteiras” poderá representar um momento de charneira na visão que podemos ter acerca da fotografia africana e da arte contemporânea africana em geral, ao mesmo tempo que promove o debate acerca de um enorme conjunto de temáticas, quase sempre sensíveis e multidimensionais.
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