
E outros sítios mais #6 (detalhe)
Entrevista com Pedro Cabrita Reis em Junho de 2010, que vale a pena reler agora, a propósito da sua exposição retrospectiva no Museu Berardo, patente até Outubro de 2011…
Pedro Cabrita Reis escreveu há mais de vinte anos o seguinte aforismo: «Aforismos são meras banalidades para uso de quem as escreve». Mesmo assim, correndo o risco de parecer um desfile de banalidades, cita-se aqui um outro aforismo seu que parece vir a propósito do tema que se segue: «Cria à tua roda uma teia de contradições. Não receies, pois os retratos nunca sairão desfocados.» Numa obra que parece feita de contrastes e recheada das ditas contradições, Pedro Cabrita Reis parece colar peças que formam um complexo e pouco claro retrato de si. Com isto em mente, verifica-se um desenterrar das suas origens através de registos fotográficos e regressos aos lugares onde cresceu. Trata-se, para muitos, de uma surpresa no seu percurso. Explorar um lado autobiográfico não é coisa que se espere, pelo menos à partida, deste artista que muitos consideram uma pessoa de personalidade controversa. Mas é isso que vai acontecendo, à medida que cada obra sua contém uma história escondida.
O contexto para a introdução que o leitor acaba de ler baseia-se em duas exposições simultâneas em duas galerias próximas entre si: a Galeria Caroline Pagès e a Galeria Miguel Nabinho, ambas localizadas no bairro lisboeta de Campo de Ourique, local onde Cabrita Reis viveu até aos 17 anos. Aqui mostra-nos a sua vida vasculhada e calendarizada em imagens e plantas de uma casa. Essa casa é a casa da sua infância e é o local onde se passa uma parte deste projecto. «A Galeria Caroline Pagés está actualmente situada na casa onde nasci», conta o artista. Aliás, parece ser uma coisa que ocorre consigo naturalmente pois já a galeria VPF Cream Art foi uma casa onde morou durante 16 anos. A casa, a habitação como estrutura e base de trabalho pictórico, tem sido sempre um motivo presente na sua obra. Seja em desenhos ou em intervenções escultóricas e instalações, há sempre um movimento de entrada, como se de um convite ao conhecimento se tratasse. Conhecimento da arte por dentro dela ou do artista por dentro daquilo que cria. Neste caso, é um convite para entrar no mundo de Cabrita Reis de uma forma mais íntima mas nem por isso esclarecedora.
«Um dia fui visitar a galeria Caroline Pagés por curiosidade, para ver como estava a casa onde eu nunca mais tinha ido após a morte da minha mãe, que foi a última pessoa da família a morar lá. Estava a ver uma exposição e o espaço e a pensar na ideia de fazer algo com um carácter mais vincadamente autobiográfico. Essa ideia, que já germinava na minha cabeça há algum tempo, foi-se alicerçando, construindo, aumentando», conta. Como a galeria é pequena e Pedro gostaria de fazer um projecto mais alargado, alastrou-o ao espaço do galerista Miguel Nabinho. O sentido mantém-se pois está dentro do território desta autobiografia: a zona onde, em puto, Cabrita Reis jogava à bola. «Começámos a remar a três este barco que se chama Uma Casa e Outros Lugares Mais». Assim, na casa que hoje é a Galeria Caroline Pagés está exposta uma sequência de 16 desenhos sobre papel que partem da planta da própria habitação, posteriormente trabalhada graficamente com várias técnicas.
Como se sente o artista ao revisitar a sua vida e abri-la, ainda que codificada, ao seu público? «Lidar com a questão da memória e da autobiografia é per se já bastante complexo», diz. «Não me pareceu oportuno fazer uma exposição que viesse trazer ainda mais complexidade. Achei que o mais adequado para aquele espaço seria uma série de desenhos de bastante simplicidade que contrabalançassem o peso da memória da casa onde nasci e vivi». Pedro Cabrita Reis abandonou a casa dos pais em 1974, no contexto da revolução de 25 de Abril e das transformações registadas na sociedade portuguesa. Na sua antiga casa, tudo o que podemos ver são desenhos em que a planta da mesma é riscada até à exaustão com linhas sobrepostas num registo quase obsessivo. Há uma base comum a todos os desenhos, intervencionados por Cabrita Reis em ambiente de isolamento. Nenhum deles conta uma história, mas todos eles dão pistas e fornecem símbolos quase imperscrutáveis. Trata-se de uma obra com contornos porventura psicanalíticos, ao explorar as fundações da sua infância e adolescência. Em alguns desenhos, a planta é comida por manchas de tinta que apenas deixam a descoberto uma das divisões. A própria introdução da cor é uma memória evocada, embora só o próprio autor a conheça. Sobre outra planta, setas apontam os quartos dos pais, da irmã e do artista – o visitante/observador/voyeur poderá, se quiser, situar-se fisicamente dentro dos antigos espaços. Há também plantas que ficaram simbolicamente queimadas e outra sobre a qual quatro manchas de vinho maculam estas linhas, são marcas de quatro pessoas diferentes ligadas pelo sangue cor de vinho.
O segundo momento desta mesma história passa-se na Galeria Miguel Nabinho. A fotografia não é estranha ao percurso de Cabrita Reis. Funciona como uma espécie de anotação. De facto, a câmara fotográfica acompanha o artista frequentemente como ferramenta de captação visual. Com ela recolhe elementos que depois utiliza para inspiração em futuras obras. Muitas dessas fotografias acabam por integrar instalações, pinturas ou esculturas. Neste caso, Pedro Cabrita Reis transportou para o espaço da galeria um apanhado exaustivo de retratos seus feitos por muitas pessoas ao longo da sua vida numa recolha de vários milhares de imagens agrupadas por anos, mas de uma forma aleatória, em grandes folhas de papel. É um apanhado de 30 anos de fotografias através do recurso a arquivos digitais e analógicos. À volta dessas fotografias aparecem anotações – os espaço da folha de papel é riscado com os locais, datas e circunstâncias que envolvem as fotos. «O único critério unificador é serem fotos em que apenas estou eu. É um album de família em que a única família que aparece sou eu», diz Pedro. Nestes painéis há saltos e erros de informação, tal como na memória de cada um de nós. Tudo isto, confuso como é, leva-nos a fazer perguntas…
Os retratos e auto-retratos são elementos constantes no seu percurso, como na série Conversation Piece, de 2006. Acaba de realizar uma exposição com o P28, Os Outros, em que artistas doentes do Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos desenham retratos de si, aos quais se juntam esculturas suas. Estes projectos são também formas de se conhecer e dar-se a conhecer? Ou é uma forma de arrumar a sua história pessoal?
Eu gosto de ter tudo arrumado, mas nunca nada está completamente arrumado na vida. A única coisa que vamos fazendo é reconfigurar aquilo que nos parece ser a verdade. Depois, isso é válido por pouco tempo e voltamos a re-arrumar mais tarde. Os auto-retratos surgiram em 1994. Contudo, desde os anos 80 em pequenas aguarelas e desenhos há muitas cabeças que terão sofrido um processo de interpretação e depois desaguaram nesses auto-retratos. Eventualmente será para ter à mão algo que me lembre de mim próprio. Nesses auto-retratos, estou sempre de olhos fechados por isso é um auto-retrato impossível.
É difícil movermo-nos dentro de uma estrutura rígida de personalidade e valores…
É preciso estar sempre a partir essa estrutura. À medida que fui envelhecendo, fui criando uma memória muito selectiva. Não tenho memória de quase nada que não seja exclusivamente relacionado com o meu trabalho. É curioso. As pessoas à minha volta lembram-se de coisas incríveis. A maior parte delas divertidas, outras estranhas e o facto é que não guardo qualquer recordação delas. Aquilo que seria uma hipotética vida pessoal dissolve-se e é de difícil acesso.
E por isso as montagens de fotografias?
Quanto maior é a luz menos se vê. No caso da série de retratos, esta excessiva, exaustiva e obsessiva enumeração de coisas tão simples como estar na praia ou estar a beber um copo, a entrar no comboio ou seja o que for… às tantas esta avalanche torna-se uma coisa abstracta e doentia. É exacamente isso que eu queria que permanecesse. Uma sensação de cansaço e aridez.
As pessoas criaram uma imagem do Pedro Cabrita Reis como uma pessoa austera, enigmática e impenetrável. A sua intenção é contrariar isto?
Sei que as pessoas fazem de mim um conjunto de imagens e nem a soma delas todas corresponde ao que sou. Essa é uma motivação para esta exposição. Vou mostrar coisas que as pessoas não sabem, mas no fundo é uma quantidade tão grande de informação que não vão ficar a conhecer nada porque o que há para conhecer é o que está dentro. Já nos auto-retratos anteriores, a maior parte deles são de olhos fechados, o que implica a noção de que olhar para dentro é a única forma de ver.
Há uma preocupação muito específica sua em guardar para si ou mostrar aos outros a sua memória?
Não sei. No caso de Os Outros, a ideia era encenar uma situação primordial nas belas artes que é a aula de desenho de modelo.
Mas o modelo aí não é um terceiro elemento e sim o próprio Pedro Cabrita Reis…
Aí provavelmente é uma mal disfarçada ambição totalitária de fazer coincidir os limites da realidade com os limites da minha própria identidade. Mas suspeito que isso não seja diferente do caso de qualquer outro artista. Os artistas têm, todos eles sem excepção, a ambição de que a sua visão sobre o mundo seja a realidade. A construção do mundo é única e exclusivamente feita a partir do olhar que o artista tem sobre a realidade. Portanto, há tantas realidades quantos os artistas que existem. E mesmo os que dizem que não se assumem como tal, são os piores. Os protestantes são seguramente mais fanáticos do que os católicos com a sua suposta ambição de discrição, de humildade, de não representação, da recusa da ponpa. São perigosíssimos. No meu caso particular. esta permanente recorrência ao auto-retrato acaba por fazer parte do processo de interpretar o mundo à minha dimensão, fazê-lo igual a mim.
Tem o complexo de deus?
Não. Tenho ambições maiores do que isso.
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