— Folha de Sala

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Janeiro, 2012
Lara Torres acaba de ver o seu trabalho premiado em Londres com uma série de vídeos em que as roupas se desfazem em água.Miguel Matos falou com a designer.


Eram duas mil candidaturas de todo o mundo para cinco prémios Fashioning the Future Awards. Lara Torres ganhou o Unique Design Award. O prémio que o Centro Para a Moda Sustentável lhe atribuiu tem a ver com o mestrado em Fashion Artefact que a designer esteve a fazer em Londres. Já o trabalho tem a ver com aquilo que Lara sempre fez: uma pesquisa teórica que desemboca numa série de vídeos sobre o desaparecimento, a morte e a memória, mas também sobre a sustentabilidade do sistema industrial da moda. Um trabalho que pode ser lido como um alerta para a forma como se produz vestuário hoje, mas que também pode ser muito mais do que isso.

“An Impossible Wardrobe for the Invisible” é uma série de vídeos em que as roupas, feitas com uma matéria solúvel em água, vão desaparecendo. Tendo em conta que a moda, com o seu ciclo tão rápido, cria produtos de curta duração, é uma metáfora?
É uma questão primordial. Essa rapidez é anti-sustentável. Quando vi a abertura do concurso, achei que o meu trabalho podia ser importante nesse contexto porque o vejo como uma forma de provocação no sentido de este trabalho não ser um produto, dentro do contexto do design de moda. Mas existe uma tomada de consciência: a peça perde-se à tua frente. O designer deve ter a responsabilidade de levantar questões pertinentes. Daí ter concorrido a este prémio, e sei que mo foi entregue precisamente por ser polémico entregar um prémio de design quando o produto não existe, é uma projecção de imagens. Mas o júri considerou pertinente este alerta. O meu trabalho tem muitas outras camadas, mas esta é a mais importante neste contexto.

Tentando definir o teu trabalho como artefacto de moda… o que é que isso significa? Está entre a moda e a arte?
O artefacto de moda tem preocupações conceptuais, éticas e estéticas que fazem parte dos dois mundos. Eu acho que as metodologias têm mais a ver com as artes plásticas mas o questionamento é sobre a moda e sobre a relação com o corpo.

O teu trabalho fala sobre a memória, o desaparecimento e as emoções humanas. Nestes vídeos o vestuário perde-se mas ficam as costuras…A relação entre o vestuário e a memória tem a ver com a relação entre ele e a identidade. O vestuário é uma projecção daquilo que tu és. Tenho trabalhado sobre a materialização dessa memória: tornar a perda física possível de ver. Comecei a ir atrás da ideia da perda até chegar a esse material solúvel, pela relação com o design de vestuário.

Tens feito escultura e vídeo, os teus desfiles são performances… Porque é que continuas a mostrar o teu trabalho na Moda Lisboa em vez de em galerias ou museus?
É uma questão pertinente. Este é um trabalho muito provocador quando olhado dentro do universo da moda. É um grão de areia que causa uma interrupção nessa engrenagem. É claro que, hoje em dia, as necessidades que o meu trabalho levanta em termos de apresentação têm mais a ver com um museu ou uma galeria e não com uma semana da moda. Mas tenho receio de deixar de ser tão disruptivo se o retirar do contexto da moda. Apesar disso, em termos de sobrevivência e compreensão do meu trabalho, seria muito mais fácil apresentá-lo num contexto artístico. Neste momento, o meio da moda é-me muito hostil, da mesma maneira que se sente hostilizado pelo meu trabalho, é recíproco. Eu não consigo pensar em fazer o meu trabalho de outra maneira. Já não consigo pensar em colecções como pensava há cinco anos. Não sou capaz de voltar aí.

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